500 Anos de História do Rio Vermelho

Ubaldo Marques Porto Filho

Vou fazer uma retrospectiva histórica do Rio Vermelho seguindo a cronologia dos séculos, com uma súmula das ocorrências mais significativas.

Século XVI

A história do Rio Vermelho começou em 1509, com a chegada, na Pedra da Concha, uma ilhota rochosa na Enseada da Mariquita, do náufrago Diogo Álvares Corrêa, que aí implantou um núcleo para extração do pau-brasil, que os primitivos habitantes da região, os índios tupinambás, vendiam aos aventureiros franceses.

Era um comércio de escambo, intermediado por Caramuru, nome que os índios tupinambás deram ao jovem europeu de origem desconhecida, tido como português, mas que pode ter nascido Espanha ou na França. A Aldeia dos Franceses, como inicialmente a região na foz do Camorogipe ficou conhecida, foi transformada depois num núcleo de pesca.

Século XVII

O vilarejo dos pescadores do Rio Vermelho abrigou, em 1624, uma grande legião de fugitivos da Cidade do Salvador, invadida pelos holandeses. E foi do Rio Vermelho que partiram as ações inicias da luta contra os ocupantes da capital brasileira.

A toponímia Morro do Conselho vem dessa época, pois foi nesse morro, com ampla visão para o mar, que o bispo D. Marcos Teixeira se reuniu com os chefes dos grupos que iriam comandar a a luta de guerrilha contra os holandeses.

Século XVIII

O fato mais importante foi a construção de um forte, cujas obras foram iniciadas em 1711. Transcorreram de forma lenta e com interrupções, até que, em 1756, foram definitivamente paralisadas.

Mesmo inconcluso, o Forte do Rio Vermelho, primeiro e único baluarte para a defesa de Salvador construído fora dos limites da Baía de Todos-os-Santos, recebeu peças de artilharia e um contingente militar.

Século XIX

A antiga aldeia dos pescadores ganhou fama com a descoberta de possuir ‘águas milagrosas’. Inúmeras pessoas chegavam atraídas pelos banhos de mar nas ‘águas medicinais’ do Rio Vermelho, que segundo crença popular curavam até beribéri, uma doença que na época fazia vítimas fatais.

De ‘estação de cura’ para recanto preferencial do veraneio das famílias ricas do centro de Salvador foi um pulo. Inicia-se então uma febre construtiva, com o surgimento de palacetes, casarões e sobrados. Afinal, toda família rica da cidade tinha que ter uma residência para passar o verão no Rio Vermelho, que se transformou no primeiro balneário turístico da Bahia, com casas comerciais e um hotel, o Avenida Saudável, no Largo de Santana. Surge também o Derby Club, primeiro hipódromo da Bahia.

Dentre os veranistas importantes, figurava um rico comerciante português, João Gomes da Costa Júnior, dono das terras onde foi construído o hipódromo e de dezenas de casas e sobrados. Foi o maior benfeitor que o Rio Vermelho teve nesse século. Em sua homenagem existe no bairro a Rua João Gomes, eixo de ligação entre a Praça Colombo e o Largo de Santana.

Século XX

No local do antigo hipódromo é construído o primeiro estádio da Bahia para provas de atletismo e prática do futebol, e também pela primeira vez na Bahia, com entradas pagas. O campeonato baiano de futebol é disputado no Campo do Rio Vermelho em duas etapas, de 1907 a 1912 e de 1916 até 1920.

O ciclo áureo do veraneio foi de meio século, de 1880 a 1930. Depois disso o Rio Vermelho se transformou num núcleo de população permanente e na década de 1950 ganhou status de ser o ‘Bairro dos Artistas’. Os autores do livro ‘Cidade do Salvador, Caminho do Encanto’, Darwin Brandão & Mota e Silva, escreveram em 1958: “O Rio Vermelho é o local preferido para residência de artistas. É o Montparnasse baiano”.

Entre os artistas plásticos que residiram no Rio Vermelho, na segunda metade desse século, eis alguns dos nomes de maior envergadura, incluindo-os entre os principais destaques na literatura: Mário Cravo, Carybé, Floriano Teixeira, Jenner Augusto, José Pancetti, José de Dome, Raymundo de Oliveira, Luiz Jasmin, Jorge Amado, Zelia Gattai e João Ubaldo Ribeiro, que passou o início da adolescência no Rio Vermelho. Também quem morou no Rio Vermelho foi o compositor e cantor Dorival Caymmi.

As festividades em louvor à Santa Padroeira, Senhora Sant’Ana, iniciadas em 1870, ganharam enorme projeção, principalmente na parte da programação popular, com o Concurso da Rainha e o Desfile do Bando Anunciador. Mas o grande destaque mesmo foi a Festa de Yemanjá, realizada pela primeira vez em 1924, que se transformou na maior manifestação que se realiza no mundo em homenagem a Rainha do Mar.

No balanço desse século, destacam-se como grandes beneméritos do Rio Vermelho três personalidades da sua comunidade. O comerciante Adolpho Pinto da Silva Moreira, que doou ao Asylo Bom Pastor, para atividades destinadas ao bem-estar de meninas carentes e órfãs, o próprio palacete em que residia, na subida do Morro do Conselho. O segundo foi o médico Alfredo Ferreira Magalhães, que morava na Praça Colombo, que recebeu como doação de Adopho Moreira um terreno para que pudesse construir, no Morro do Menino Jesus, no Rio Vermelho, o Hospital das Crianças, que mais tarde ficaria conhecido como Maternidade Nita Costa. Por último o comerciante José Taboada Vidal, morador do Largo de Santana, protetor dos pescadores, colaborador da Festa de Yemanjá e principal esteio na construção da nova Igreja Matriz.

Século XXI

Surgem três entidades que passam a trabalhar pelo resgate da memória histórica do bairro, pela valorização da representatividade do bairro e pela sua dinamização cultural. São a Academia dos Imortais do Rio Vermelho, a Central das Entidades do Rio Vermelho e a Casa de Cultura Carolina Taboada, esta última fundada pelo economista Nelson Almeida Taboada, filho de Nelson Taboada Souza e neto de José Taboada Vidal, benfeitores na construção da nova Igreja Matriz do Rio Vermelho, inaugurada em 26 de julho de 1967.

No primeiro trimestre de 2009, o Rio Vermelho completou 500 anos de descoberto e está comemorando solenemente com esta Sessão Especial na Câmara Municipal, um fato inédito na historiografia de Salvador, pois pela primeira vez a mais antiga casa legislativa do país abriu suas portas para homenagear um bairro, o bairro descoberto por Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru.

    
Discurso na
Câmara Municipal de Salvador,
em 18 de junho de 2009,
na Sessão Especial em homenagem aos
500 Anos do Rio Vermelho