Familia Taboada na Bahia (III)

Ubaldo Marques Porto Filho

A toponímia Taboada é de origem espanhola, ou melhor, para ser mais preciso, é um vocábulo galego. Segundo o etimólogo Juan Caraminas, derivou do latim ‘tabula’, que significa ‘tábua, peça de madeira plana’.

Origem da família

Na região da Galícia, noroeste da Espanha, bem na parte central do Vale do Minho e perto da cidade de Lugo, formou-se um povoado com o nome Taboada, surgido em função da extração madeireira que ali se consolidou. Também em época remota, a designação da localidade foi adotada como sobrenome de um morador, dando origem à família Taboada.

Da primitiva casa em Taboada, a família Taboada foi se ramificando. Espalhou-se pelo território galego (hoje formado pelas províncias de Lugo, Ourense, Pontevedra e A Coruña) e por várias outras regiões da Península Ibérica, inclusive a Lusitânia, atual Portugal. E da península ibero-lusitana, a família partiu para se fixar em outros países da Europa.

Cidade de Taboada

O município de Taboada posiciona-se na região central da Galícia, no sudoeste da província de Lugo. Encostado na divisa com a província de Pontevedra, fica também muito próximo às províncias de Ourense e A Coruña.

Situado numa zona geográfica assinalada por serras e vales, sua economia está assentada na agropecuária e nas atrações turísticas representadas pelos bens naturais, desportos aquáticos no Reservatório Belesar, no Rio Miño, e pelos monumentos arquitetônicos.

Taboada possui um rico patrimônio religioso. Os exemplares mais antigos remontam ao século XII. Um é a Igreja de Santa Maria de Taboada dos Freires, com elementos mozárabes, provavelmente concluída em 1190. No século XV, há um quilometro de distância, foi construída a casa-fortaleza aos sucessivos condes de Taboada.

Participação nas lutas contra os muçulmanos

Existem registros de que membros da família Taboada participaram da famosa batalha de ‘Las Navas de Tolosa’, ocorrida em 16 de julho de 1212, quando os cristãos derrotaram os muçulmanos no território da atual província de Jaén, na Andaluzia, sul da Espanha.

Os historiadores consideram essa vitória como decisiva para a expulsão definitiva dos mouros, que resistiram até 1492, no reino de Granada, último estado muçulmano na Espanha.

Membros da família em destaque

Vários integrantes da família ingressaram em ordens militares, religiosas e deram grande prestígio ao nome Taboada, tendo inclusive surgido, em 1413, uma linhagem de nobres, os Condes de Taboada, que não ficou restrita aos homens. Em 20 de setembro de 1683, Carlos II concedeu a Maria Teresa de Taboada y Castro o título de Condessa de Taboada. Em seguida, a família teve oito personagens que alcançaram destaque em diversos segmentos.

Como arcebispos da Igreja Católica:

 

Como militares:

 

Noutros setores:

 

Presença da família na América Espanhola

 

Presença no México

 

Presença na Argentina

 

Presença na Bolívia

 

A Família no Brasil

Além de se multiplicar pela América Espanhola e de se espalhar por todo o continente americano, do Canadá à Argentina, os membros da família Taboada também se fizeram presentes no Brasil, da região amazônica aos pampas gaúchos.

Na Bahia, a família se fez representar com a chegada de três galegos, José Taboada Vidal, em 1892, José Ramon Taboada Dominguez, em 1926, e Nestor Taboada Rivas, em 1961.

José Taboada Vidal

O primeiro Taboada que se tem notícia na Bahia foi José Taboada Vidal, natural da aldeia de Limeres, em Cerdedo, município da província galega de Pontevedra.

A saga desse pioneiro, nascido em 26 de novembro de 1877, foi toda no Rio Vermelho, primeiro balneário turístico da Bahia, onde construiu a trajetória profissional e a vida familiar.

De um simples balconista num armazém de um patrício, tornou-se o principal comerciante do Rio Vermelho e seus filhos importantes empresários, com destaque para Nelson Taboada Souza, que foi presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria e representatnte do Brasil em vários congressos internacionais no setor industrial.

No Rio Vermelho José Taboada residiu desde a chegada da Espanha, em 22 de novembro de 1892, a quatro dias de completar 15 anos de idade, até o dia do falecimento, em 2 de maio de 1967, aos 89 anos.

Dezesseis dias após o falecimento do pioneiro dos Taboada na Bahia, o vereador Aurélio Ângelo de Souza propôs a mudança do nome da antiga Travessa Santana para Rua José Taboada Vidal. Ao Projeto de Lei, que recebeu o Nº 41/67, o autor anexou uma justificativa para a homenagem, com a seguinte redação:

José Taboada Vidal, cognominado “Benemérito do Rio Vermelho”, pelos moradores do bairro, cujas gerações acostumaram-se a lhe querer bem e com ele muitas vezes aconselharam-se, pelo respeito e bom senso que soubera impôr, através de sua vida austera de homem correto, foi um exemplo de lição para a humanidade. Vindo da Espanha, onde nasceu, a 26 de novembro de 1877, em Cerdedo, na província de Pontevedra, José Taboada Vidal chegou em Salvador no dia 20 de novembro de 1892, indo morar no arrabalde do Rio Vermelho. Entregou-se inteiramente às atividades comerciais, cumprindo a sua tarefa diária até dias antes de seu falecimento. Constituiu família, casando com a senhora Amália Souza Taboada, tendo nesse matrimônio os seguintes filhos: Adelino, Ramon, Manoel, Nelson, Aníbal, Nilza e Affonso. Religioso, liderou a campanha pela construção de um novo templo para Senhora Sant’Ana do Rio Vermelho. Seu falecimento deu-se na noite de 2 de maio do corrente ano. Desde cedo, destacou-se o saudoso José Taboada Vidal pelas excepcionais qualidades morais, que fizeram dele um modelo de homem, de cristão, de comerciante e chefe de família exemplar, sendo respeitado e querido pela cidade que adotara e, que, com justiça e merecimento, deve agora homenageá-lo, com a colocação do seu nome em logradouro no bairro onde sempre residiu.

Sala das Sessões, em 18 de maio de 1967.
Aurélio Ângelo de Souza
Vereador

Depois de aprovado pelo legislativo municipal, o projeto de lei foi transformado na Lei 1998, sancionada pelo prefeito Antônio Carlos Magalhães em 7 de julho de 1967. Com isso, a Rua José Taboada Vidal passou a ser a denominação oficial da artéria que faz a interligação entre o Largo de Santana e a Rua Conselheiro Pedro Luiz, no Rio Vermelho.

José Taboada Vidal fez jus ao título de ‘Benemérito do Rio Vermelho’ pelas suas ações em benefício do Rio Vermelho, tendo ficado conhecido como protetor dos pescadores desamparados e por ter sido o grande líder na construção da nova Igreja Matriz de Senhora Sant’Ana do Rio Vermelho. A ele a comunidade católica do bairro deve a construção do templo inaugurado em 26 de julho de 1967, 85 dias após o falecimento do benemérito.

Representando José Taboada Vidal nesta mesa, encontra-se seu neto, o economista e empresário Nelson Almeida Taboada, presidente da Casa de Cultura Carolina Taboada, entidade sem fins lucrativos que se destina a promover ações de assistência social e cultural.

A Casa de Cultura, batizada com o nome de Carolina Taboada, filha única de Nelson e última bisneta de José Taboada, é a responsável pela publicação de cinco obras, dentre elas o livro ‘Família Taboada na Bahia’, que além de resgatar a presença dessa importante família em nosso Estado se constitui na primeira biografia de uma família galego-baiana.

Em novembro próximo, durante as celebrações pelo 49º aniversário de fundação da Associação Cultural Caballeros de Santiago, será lançado o livro ‘José Taboada Vidal, Benemérito do Rio Vermelho’ também publicado sob o patrocínio da Casa de Cultura Carolina Taboada.

José Ramón Taboada Dominguez

Nascido em 6 de janeiro de 1895, na aldeia de Fitoiro, município de Chandrexa de Queixa, na província galega de Ourense. José Ramón Taboada Dominguez estava com 13 anos quando sua família emigrou para a Argentina, estabelecendo-se em Buenos Aires, onde passou a adolescência e o início da juventude.

Trocado Buenos Aires por Recife, José Ramón Taboada abriu um restaurante na capital pernambucana. Embora bem sucedido nessa atividade, resolveu mudar de ramo e de cidade, desembarcando em 1926 na capital baiana, trazendo na bagagem o capital para abrir uma loja em casa alugada à Santa Casa da Misericórdia, numa rua estreita (esquina com Rua do Bispo) que, com a demolição da Igreja da Sé, em 1933, transformou-se na Praça da Sé.

Nesse imóvel, ele instalou a loja ‘La Favorita’, para vender sombrinhas e guarda-sóis que ele próprio fabricava, na parte do fundo do imóvel, onde também residiu inicialmente, no pavimento superior. O negócio prosperou de tal forma que Ramón se transformou num grande fornecedor de sombrinhas e guarda-sóis para as lojas de Salvador e de cidades do interior baiano. Esses acessórios, muito usados na época, faziam parte da rotina das pessoas, tanto em dias ensolarados como chuvosos.

O fabricante tornou-se o ‘Rei do Guarda-Chuva’. Ficou ainda conhecido como amolador de instrumentos de precisão e cirúrgicos, tendo como principal cliente a Faculdade de Medicina da Bahia. A loja La Favorita, que também vendia produtos de cutelaria, expandiu-se com a abertura de duas filiais, uma na Baixa dos Sapateiros e outra no Comércio.

Tendo investido os lucros na compra de imóveis, Ramón construiu um sólido patrimônio, formado por terrenos em áreas do crescimento de Salvador, como na parte nova do bairro da Graça, e por dezenas de casas. Em Dias D’Ávila comprou uma propriedade que recebeu o nome de Chácara Taboada.

Para o lazer da família, quando o Rio Vermelho ainda se constituía num centro de veraneio, alugou uma casa na Travessa Lydio de Mesquita, bem próxima à Praia de Santana. Gostou tanto do bairro que decidiu sair do sobrado na Baixa dos Sapateiros, passando a morar numa casa que comprou na Rua Almirante Barroso 9, defronte a atual Praça Marechal Aristóteles de Souza Dantas. Depois, para ficar vizinho do Largo de Santana e numa residência maior, comprou o sobrado de número 111 da Rua Visconde de Cachoeira, antiga Ladeira do Papagaio. Aí morou de 1943 até 1947.

O industrial, comerciante e prestador de serviços, faleceu de problemas cardíacos aos 70 anos, no dia 6 de novembro de 1965, em sua residência, na Rua Luiz Anselmo 11, Matatu de Brotas.

Casado com Amélia Enma Josefa Pazo González, José Ramón Taboada Dominguez teve quatro filhos: Élida, Elísia, Amélia e Lydio, que já rendeu netos, bisnetos e trinetos aos patriarcas desse ramo da família.

Representando José Ramón Taboada Domingues nesta mesa, encontra-se sua terceira filha, senhora Amélia Taboada Gomes da Costa, nascida na Galícia, em Nogueira de Ramuin, na província de Ourense. Dona Amélia foi uma grande colaboradora durante a elaboração do livro ‘Família Taboada na Bahia’.

Nestor Taboada Rivas

Nascido a 11 de março de 1945, no povoado de Aguasantas, município de Cotobade, na província galega de Pontevedra, Nestor Taboada Rivas partiu do porto de Vigo, com destino a Salvador, onde desembarcou em 3 de março de 1961, há oito dias de completar 16 anos.

Chegou sob encomenda, para ser balconista no Armazém e Bar Sul América, localizado na Rua Frederico Costa 59, bairro de Brotas, onde também residia o proprietário, Higino Peleteiro Garcia, primo da mãe, em cuja casa ficou residindo.

No dia 1° de março de 1963, Nestor Taboada entrou na Empresa de Transportes Sul América Ltda., começando como office boy e encarregado pela limpeza e varredura diária do escritório. Com muita determinação e buscando a afirmação pelo trabalho, foi rapidamente galgando posições na hierarquia da organização, chegando a gerente de manutenção e gerente administrativo-financeiro.

Quando a Sul América foi transformada numa sociedade anônima, Nestor tornou-se acionista e diretor. Ao ser vendida, em outubro de 1994, ocupava a vice-presidência. Por um acordo com os novos proprietários, que lhe pediram para ser o elo da transição administrativa, permaneceu na empresa até 30 de janeiro de 1995, quando encerrou um ciclo de 32 anos dedicados à empresa, que atuava no setor do transporte coletivo, em linhas urbanas de Salvador, com sede na Cidade Baixa, em Itapagipe.

Nestor Taboada foi presidente do Rotary Club Salvador Itapagipe e sempre participou ativamente na vida das entidades galegas em Salvador. Foi membro do Conselho Deliberativo do Galícia Esporte Clube e no Clube Espanhol diretor financeiro, sendo atualmente conselheiro. É também conselheiro da Associação Cultural Caballeros de Santiago, que possui sede no Rio Vermelho.

Na Real Sociedade Espanhola de Beneficência, mantenedora do Hospital Espanhol, Nestor possui uma longa folha de serviços. Atual superintendente administrativo-financeiro do Hospital Espanhol, é um dos responsáveis pela construção do Centro Médico Manuel Antas Fraga, belíssimo prédio construído ao lado do hospital, que será inaugurado nesta sexta-feira, às 20 horas.

Nestor Taboada Rivas é casado com Obdulia Maria Vilanova Andion e tem duas filhas, Natália e Narjara.

Epílogo

Por fim, peço licença para ler um depoimento que preparei como epílogo desta palestra:

O nome Taboada é forte e marcante. É muito antigo, milenar. Originou-se numa aldeia no Vale do Minho, em território hoje pertencente à província de Lugo, na Galícia, Espanha.

Nasceu precisamente na atual cidade de Taboada, numa época em que a população galega estava sendo formada pela miscigenação entre os primitivos habitantes e os sucessivos ocupantes do noroeste da Península Ibérica: celtas, romanos, germânicos, normandos, visigodos e árabes.

A família que se originou na localidade galega do vale cortado pelo Rio Minho, tendo certamente um madeireiro como fundador da dinastia, transmitiu pelo sangue de seus descendentes a seiva dos desafios sem fronteiras.

Enfim, a árvore Taboada, regada pelas águas do Rio Minho, cresceu, ficou frondosa e seus galhos se espalharam pelo Antigo e pelo Novo Mundo. Hoje, início do século XXI, a família Taboada encontra-se globalizada e presente em dezenas de países, localizados especialmente na Europa e nas três Américas.

Seus representantes são encontrados em várias áreas de atividades, onde se sobressaem comerciantes, industriais, profissionais liberais, professores, escritores, músicos, cantores, compositores, artistas plásticos, cineastas, inventores, físicos, cientistas, desportistas, políticos, etc.

E entre os representantes bem sucedidos figuram os descendentes de José Taboada Vidal, de José Ramón Taboada Dominguez e de Nestor Taboada Rivas, cabeças das três raízes da árvore Taboada que floresceu no solo baiano, na terra fértil da Baía de Todos-os-Santos.

Palestra na
Fundação João Fernandes da Cunha,
em 15 de setembro de 2009,
numa promoção do
Instituto Genealógico da Bahia.