José Taboada Vidal, Benemérito do Rio Vermelho

Ubaldo Marques Porto Filho

Coube a mim a honrosa missão de escrever a odisséia de José Taboada Vidal. Utilizei no livro, como subtítulo, o designativo ‘Benemérito do Rio Vermelho’. Quem instituiu essa outorga foi o saudoso e conceituado professor Aurélio Ângelo de Souza, conhecedor das benemerências praticadas pelo biografado, que foi protetor dos pescadores do Rio Vermelho, benfeitor da Festa de Yemanjá e principal baluarte na construção da nova Igreja Matriz de Sant’Ana do Rio Vermelho.

A honraria, como ‘Benemérito do Rio Vermelho’, constou inclusive na justificativa do projeto de lei, também de autoria do professor Aurélio, que propôs à Câmara Municipal de Salvador o nome de José Taboada Vidal para designar um logradouro público do Rio Vermelho.

A oficialização, após aprovação na Câmara, deu-se por meio da Lei 1998, sancionada pelo Prefeito Antônio Carlos Magalhães, em 7 de julho de 1967, dois meses após o falecimento do homenageado. A título de informação, a Rua José Taboada Vidal é o logradouro que faz a ligação do Largo de Santana com a Rua Conselheiro Pedro Luiz.

Um fato que reputo como dos mais relevantes, na vida de José Taboada Vidal, não tem nenhuma relação direta com suas boas ações praticadas na comunidade do Rio Vermelho. O fato diz respeito ao enfrentamento que o comerciante do Rio Vermelho teve com um fiscal federal, com conseqüências que refletiram na comunidade galega no comércio de toda Salvador.

Ocorreu em 1926, quando, repentinamente, estourou um problema que alcançou repercussão nacional, pois, além dos jornais da capital baiana, foi notícia na imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo. No centro da questão encontravam-se José Taboada e um inspetor federal que estava perseguindo, chantageando e extorquindo comerciantes na Bahia.

Naquele tempo, os inspetores federais eram poderosos, com força inclusive para fechar estabelecimentos e levar comerciantes à falência. Todos sofriam em silêncio, principalmente os galegos, que tinham o receio de serem mandados de volta à Espanha, caso fizessem qualquer denúncia contra os abusos praticados pelos até então intocáveis agentes federais.

José Taboada Vidal, exemplo de correção nos negócios, não teve medo de protestar no local de trabalho do inspetor Carlos Soares, que, em violenta represália, o agrediu dentro da repartição federal, gerando um escândalo público. Em face da gravidade, o caso foi exaustivamente investigado pelas autoridades. No final, a honra do comerciante espanhol foi restaurada e o inspetor truculento e corrupto afastado da Bahia.

No capítulo quinto do livro, que todos vocês terão em mãos no final desta solenidade, eu conto em detalhes a trama que acabou servindo como um divisor de águas. Antes do episódio, a comunidade comercial galega era tratada com desprezo pelas autoridades. Depois, ficou mais valorizada e respeitada.

Em suma, a partir de uma ocorrência sem precedentes na Bahia, a colônia galega ganhou peso, voz e muito se fortaleceu. Essa foi, sem dúvida alguma, a grande contribuição que José Taboada Vidal deu para a honrada classe dos galegos trabalhadores e íntegros.

Conheci José Taboada Vidal aos 13 anos, quando cheguei ao Rio Vermelho em 1958. Ele era um senhor com 80 anos, ainda forte, ativo e trabalhador. Também não foi difícil constatar que se tratava de uma pessoa muito querida no bairro, chegando mesmo a ser uma personalidade venerada pelos moradores.

Inclusive, posso afiançar que José Taboada encarnava a figura de um verdadeiro ‘coronel do bem’. Em meus 51 anos de Rio Vermelho, jamais ouvi, de qualquer morador antigo, sequer um comentário desfavorável ao benemérito. Ele foi realmente uma unanimidade no Rio Vermelho. O professor Aurélio Souza o chamava de “juiz de paz e conselheiro do Rio Vermelho”.

Hoje, sinto-me gratificado com o lançamento do livro que contém a história desse homem que foi presença marcante na história do Rio Vermelho e que foi o principal destaque da comunidade galega no bairro, que era muito importante e representativa. José Taboada também foi, porque não dizer, um referencial para toda colônia galega na Bahia durante a primeira metade do século XX.

Mas a concretização do projeto desse livro somente foi possível graças ao apoio irrestrito de um dos doze netos do benemérito, o empresário Nelson Almeida Taboada, presidente da Casa de Cultura Carolina Taboada, instituição patrocinadora da obra.

Além de se preocupar com o registro da memória de seus antepassados, pois este é o segundo livro que se publica sobre a sua família, Nelson Taboada tem priorizado o resgate da história do Rio Vermelho. Graças à entidade que preside, já foram produzidos outros cinco livros, todos tendo como núcleo o bairro onde a Família Taboada é um de seus símbolos imorredouros.

Num preito de reconhecimento, por tudo que tem feito, e por não medir esforços para a publicação das obras sobre o bairro de José Taboada Vidal, a Central das Entidades do Rio Vermelho, que congrega seus organismos mais representativos, acaba de conceder ao empresário Nelson Taboada o diploma de ‘Benemérito da Cultura’.

Por último, registro que o ano de 2009 é muito significativo para a nossa história, pois assinala os 500 anos da descoberta do Rio Vermelho por Diogo Álvares Corrêa. O episódio da sua chegada foi em 1509, tendo como palco a Pedra da Concha, uma ilhota localizada na Enseada da Mariquita, onde o europeu recebeu dos índios tupinambás o nome de Caramuru.

Ele é tido como português, mas pode ter nascido na Espanha, ou até mesmo na França. Sobre a possibilidade da variante espanhola, existe uma carta do donatário da Capitania de Porto Seguro, Francisco Pereira Coutinho, português de Viana do Castelo, que se constitui num autêntico atestado da naturalidade galega de Diogo Álvares Corrêa.

Especula-se que ele poderia ter nascido em A Coruña, no norte da Galícia, um dos dois portos autorizados às embarcações que saiam para buscar especiarias na Índia ou riquezas no Novo Mundo. Existe também a possibilidade do personagem ser de Baiona, o outro porto oficial, localizado na província de Pontevedra, bem próximo de Portugal.

Embora inexista qualquer comprovação do local onde efetivamente Diogo Álvares Corrêa tenha nascido, em Portugal a cidade de Viana do Castelo foi instituída como sendo o berço lusitano do célebre personagem dos primórdios da história brasileira.

E dentro do terreno das hipóteses, a Espanha também poderia fazer o mesmo, ou seja, instituir oficialmente uma cidade como local do nascimento do galego Diogo Álvares Corrêa.

Por isso, e com esse objetivo, vou proceder agora, em nome da Academia dos Imortais do Rio Vermelho, a entrega de um documento ao senhor Santiago Coelho Rodríguez Campo, Presidente de Caballeros de Santiago, instituição que atua na Bahia como autêntico consulado da cultura e da história da Galícia.

Discurso na
Associação Cultural Hispano-Galega Caballeros de Santiago,
em 21 de novembro de 2009,
no lançamento do livro
‘José Taboada Vidal, Benemérito do Rio Vermelho’.