Ano e Local da Chegada de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru

Ubaldo Marques Porto Filho,
autor do livro
‘Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, Patriarca do Brasil’

Durante muito tempo, os estudiosos divergiram quanto ao ano do naufrágio da embarcação em que viajava Diogo Álvares Corrêa. As afirmações oscilavam de 1508 a 1511. Porém, para o professor baiano Pedro Calmon (1902-1985), um dos mais credenciados e renomados historiadores do país, o ano foi 1509. Sua afirmação, contida no livro ‘História da Fundação da Bahia’, está respaldada em dois documentos que registram informações repassadas pelo próprio personagem da aventura:


Foi no primeiro trimestre de 1509

A dúvida que persiste é quanto ao mês da chegada de Diogo Álvares Corrêa. Sabe-se apenas que foi no primeiro trimestre de 1509, por dois fatores marcantes:


Enfim, a chegada de Diogo Álvares Corrêa deu-se num dia de janeiro, fevereiro ou março de 1509.

Rio Vermelho, o local

A embarcação em que viajava Diogo Álvares Corrêa naufragou no Rio Vermelho, em 1509, bem defronte ao Morro do Conselho, o ponto mais saliente no litoral norte de Salvador. É fato também notório que, pertinho da costa, nas imediações do pesqueiro Prima, a área é de pequena profundidade, o que provoca, nos períodos do mar agitado, o surgimento de ondas grandes e traiçoeiras à navegação. Américo Gomes, navegador que conhece os segredos do mar do Rio Vermelho, prestou o seguinte depoimento ao autor do livro ‘Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, Patriarca do Brasil’:

“Certamente, ao navegar perto da costa do Rio Vermelho, a caravela foi surpreendida pela entrada do perigoso vento sul. Ficando desgovernada, a embarcação foi arrastada para cima da Pedra do Francês, que os pescadores chamam de Pedra da Taoca (nome de um peixe), localizada em frente ao Hotel Pestana”.

Tudo leva a crer que foi na Pedra do Francês, cujo cocuruto somente aflora na maré baixa, que o barco de Diogo Álvares colidiu e, açoitado pelas ondas, destroçou-se nas rochas enegrecidas no sopé do morro, no trecho onde seria construído o Hotel Meridien, atual Pestana. Jovem e forte, o tripulante - nadando ou agarrado nalguma peça flutuante - foi levado pelo impulso da correnteza até a Pedra da Concha - minúscula ilha rochosa na entrada da Enseada da Mariquita -, frontal à foz do Camorogipe e da faixa de areia, ao lado do Morro do Conselho.

Se outros náufragos conseguiram chegar à praia, foram, com certeza, aprisionados e depois mortos e devorados pelos tupinambás. Como ficou na Pedra da Concha, Diogo teve tempo de preparar uma estratégia de defesa e sobrevivência. Finalmente, quando foi avistado pelos índios, imediatamente usou o bacamarte para desferir um tiro certeiro numa ave em pleno voo. Espantados, pois desconheciam aquela engenhoca barulhenta, foguenta e mortífera, os nativos começaram a exclamar: Caramuru! Caramuru! Caramuru!

Alguns historiadores posicionaram-se contrários ao episódio do tiro. Argumentaram que não passava de uma lenda a espingarda e pólvora salvas dum naufrágio. Mas então, qual teria sido a arma utilizada pelo sagaz europeu para atemorizar os índios, impressioná-los e obter o total respeito, a ponto de ser considerado como um ente sobrenatural?

Sabe-se que, para desfrutar do privilegiado conceito junto aos nativos, algo extraordinário ele produziu. Sabe-se também que, dificilmente teria escapado da morte se não tivesse revelado alguma forma de superioridade. É ainda fato comprovado que, na cultura espiritual dos índios do litoral da Bahia, os fenômenos da natureza exerciam um poder sobrenatural. O relâmpago, o trovão e o raio causavam temor aos índios. Por isso, o tiro não pode simplesmente ser descartado, nem considerado como ficção.

O disparo provocou uma reação de perplexidade e instintiva veneração. Raciocinando estarem frente a frente com um deus do raio e da morte, os tupinambás imediatamente associaram o estampido da arma de fogo ao trovão; o clarão provocado pela pólvora e pela fumaça ao relâmpago; e a morte do pássaro à queda de um raio. Assim, nasceu o personagem Caramuru, com poderes de uma verdadeira divindade.


Largo da Mariquita, tendo ao fundo a Pedra da Concha, local da
chegada, em 1509, de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru.