A Nacionalidade de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru

Ubaldo Marques Porto Filho,
autor do livro
‘Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, Patriarca do Brasil’

A verdadeira nacionalidade de Diogo Álvares Corrêa sempre foi um mistério impenetrável. Nunca se conseguiu descobrir o local e nem a data do seu nascimento. No livro ‘História da Fundação da Bahia’, o historiador Pedro Calmon, reportando-se a Manuel da Nóbrega, superior dos jesuítas no Brasil, que conviveu com o célebre personagem, cita um registro deixado pelo padre: “Diogo deve ter nascido por volta de 1490”. E pronto, não se conhece mais nada até 1509, ano em que o jovem surgiu na Bahia.

Diogo seria português?

No dia 13 de março de 1531, a expedição portuguesa de Martim Afonso de Souza aportou na enseada que hoje tem o nome de Porto da Barra e foi recepcionada por um branco falando a língua dos nativos. Pero Lopes de Souza, irmão do comandante, sem citá-lo pelo nome, o identificou no diário de navegação da armada colonizadora da seguinte forma:

“Nesta baía achamos um homem português, que havia vinte e dois anos que estava nesta terra”.

‘Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil’, do jesuíta português Simão de Vasconcelos, publicado em Lisboa no ano de 1663, foi o primeiro livro a se referir à origem vianense de Diogo Álvares Corrêa. O historiador brasileiro Sebastião da Rocha Pitta, em ‘História da América Portuguesa, desde o Anno de Mil e Quinhentos do seu Descobrimento até o de Mil Setecentos e Vinte e Quatro’, publicado em Lisboa, em 1730, também deu Diogo Álvares Corrêa como nascido em Viana do Castelo.

Em 1761, saiu o livro ‘Orbe Serafico Novo Brasilico’, do frei brasileiro Antônio de Santa Maria Jaboatão, dizendo que Diogo Álvares Corrêa era um nobre de Viana do Castelo. Um outro frei brasileiro, José de Santa Rita Durão, autor de ‘Caramuru, Poema Épico do Descobrimento da Bahia’ editado em 1781, também confere a Diogo Álvares Corrêa a naturalidade vianense.

Em 1797, naturalmente que estribada nas afirmativas desses historiadores, a Casa da Torre de Garcia D’Ávila colocou na Igreja de Nossa Senhora da Graça uma lápide junto ao túmulo de Catharina Paraguassú, onde seu marido, Diogo Álvares Corrêa, foi inserido como “natural de Vianna”.

Convém salientar que a Casa da Torre se encontrava em poder dos descendentes de Garcia D’Ávila, fundador do feudo, e de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru. A filha única de Garcia, Isabel D’Ávila, havia se casado com Diogo Dias, neto de Caramuru e de Catharina Paraguassú. Dessa união nasceu Francisco Dias D’Ávila, que consolidou o império feudal, o maior da América Latina.

No momento em que a Casa da Torre pôs a lápide na Igreja da Graça, a naturalidade vianense de Diogo Álvares Corrêa foi oficializada no Brasil e também consolidada em Portugal, mesmo sem qualquer comprovação primária.

Dois séculos depois, no livro ‘Os Vianenses na Construção do Novo Mundo (Séc. XVI-XVII)’, editado em 2008, pela Câmara Municipal de Viana do Castelo, o autor, Manuel António Fernandes Moreira, fez o seguinte registro:

“A. Machado Vilas-Boas, historiador inquestionável de Viana, no princípio do século XVIII escreveu: Diogo Álvares, natural desta nossa Villa Viana”.

Após citar A. Machado Vilas Boas, o professor Manuel Moreira, sacerdote católico na Diocese de Viana do Castelo e dono de uma extensa obra histórica, formada por uma dezena de livros, teve o cuidado de colocar uma ressalva importante na publicação que teve a chancela oficial da Câmara Municipal, que equivale no Brasil à Prefeitura. O conceituado historiador e pesquisador de Viana do Castelo precaveu-se da seguinte forma:

“...é difícil detectar restos deste ilustre filho da terra. Tudo o que é possível levantar não passa de meras hipóteses”.

Mas, em que pese a inexistência de provas definitivas, a cidade portuguesa de Viana do Castelo assumiu oficialmente a paternidade de Diogo Álvares Corrêa e o reverencia como uma de suas grandes personalidades históricas, juntamente com Pero do Campo Tourinho, que foi capitão-donatário de Porto Seguro, no Brasil.

Nos primeiros minutos de 1º de janeiro de 2009, foi inaugurada na Praça da República, a principal da cidade de Viana do Castelo, um monumento em bronze, dedicado a Caramuru e Catharina Paraguassú, de autoria do escultor José Rodrigues, para simbolizar os 500 Anos da chegada ao Brasil do mítico herói vianense. Também foi procedida a inauguração de uma exposição denominada ‘Caramuru, o Vianense Criador da Brasilidade’ e lançada uma edição crítica do poema épico ‘Caramuru’, escrito pelo frei José de Santa Rita Durão. O autor dessa edição comemorativa foi o professor Amadeu Torres, conceituado acadêmico vianense.

Diogo seria espanhol?

Diogo Álvares Corrêa esteve em Porto Seguro para conversar com Francisco Pereira Coutinho, deposto da Capitania da Bahia de Todos os Santos por um levante dos índios tupinambás. Foi oferecer garantias para o retorno do capitão-donatário ao comando da sua Capitania. Testemunha do encontro, o donatário de Porto Seguro, Pero do Campo Tourinho, enviou ao rei de Portugal, D. João III, uma carta datada de 28 de julho de 1546, onde num trecho aludiu:

“... e ora sou informado por um Diogo Álvares, o Gallego, língua que lá era morador...”

Por causa da carta do capitão-donatário de Porto Seguro, que se encontra em Lisboa, no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, surgiu a versão de que Diogo Álvares Corrêa teria nascido na Galícia, sendo, portanto, espanhol. Trata-se de uma hipótese respaldada num documento oficial emitido por um vianense que, antes de ser donatário, como armador e navegador, praticara um intenso comércio com portos europeus, especialmente com os da Galícia. Por ser do norte de Portugal, ele conhecia muito bem os habitantes do lado esquerdo do Rio Minho, os portugueses, e os do lado direito, os galegos.

Somente alguém dessa região limítrofe, onde as línguas galega e portuguesa pouco se diferenciavam, poderia ter a capacidade de distinguir um galego do português ou vice-versa. E Pero do Campo possuía essa qualificação, reforçada pela vasta experiência em lidar com marinheiros portugueses e galegos. Por isso, teria adicionado ao Diogo Álvares o indicativo ‘o Gallego’.

Esse designativo foi a munição utilizada por alguns historiadores espanhóis para fundamentar a teoria da origem galega de Diogo Álvares Corrêa. Francisco Lanza Álvarez, Manuel Castro López e Teodosio Vesteiro Torres estão entre os historiadores do século XIX que o citaram como nascido na Galícia.

Mas ‘o Gallego’ era de qual cidade? Também não há qualquer comprovação. Existem especulações, sendo que uma aponta para A Coruña, no norte da Galícia, um dos dois portos autorizados à saída das embarcações que iam buscar especiarias na Índia ou riquezas no Novo Mundo. O outro porto oficial ficava em Baiona, no sul da Galícia, vizinho a Portugal e muito frequentado pelos navegantes.

É possível que em Baiona o jovem Diogo tenha sido admitido como tripulante do barco que o conduziu à costa brasileira. É ainda factível que de Baiona tenha se dirigido a Saint-Malo, na França, famoso porto de corsários, onde teria embarcado para o Atlântico Sul, em direção à ‘terra dos brasis’. É possível até que da Galícia ele tenha ido para Viana do Castelo, centro portuário também muito frequentado por navegadores, marinheiros e comerciantes, onde inclusive residiam vários galegos.

Em Viana era comum as pessoas vindas do outro lado do Minho aparecerem nos livros de recolhimento de impostos, do controle alfandegário, da movimentação do pescado e noutros registros com seus nomes complementados pela localidade de origem ou simplesmente pelo genérico ‘Galego’. No livro do historiador português Manuel António Fernandes Moreira, dentre outros nomes, encontram-se as seguintes citações: “Gonçalo de Vigo; Gonçalo Vaz, Galego; Pero Afonso Galego; Nicolau Galego; e Fernão Afonso, o Galego”.

Essa praxe também serve para explicar a atitude do donatário de Porto Seguro de inserir na carta, que enviou ao rei, o nome do visitante seguido do complemento ‘o Gallego’.

O historiador Manuel António Fernandes Moreira assegura que, até o final dos anos quinhentos, a documentação oficial em Viana do Castelo registrava os procedentes do lado direito do Minho com o rótulo de “Gallego”. Portanto, Pero do Campo Tourinho fez nada mais do que seguir o hábito que exercitou durante o período que atuou no comércio marítimo, quando nominava dessa forma os marinheiros galegos.

Enfim, um vianense de quatro costados serviu de forte referência para o consubstanciamento da hipótese de Diogo Álvares Corrêa ter nascido na Galícia.

Os espanhóis poderiam até ter seguido o exemplo dos portugueses, que instituíram Viana do Castelo como local do nascimento de Diogo Álvares Corrêa. Poderiam ter escolhido Baiona, Vigo, Pontevedra ou A Coruña como cidade natal do ‘Gallego’ identificado por Pero do Campo Tourinho. E em uma dessas cidades poderiam ter colocado um monumento alusivo ao personagem e reverenciar sua memória.

Diogo seria francês?

A hipótese da nacionalidade francesa remonta a Saint-Malo, cidade portuária localizada na região da Bretanha (um ducado que se manteve independente da França de 841 até 1532), famosa pelos corsários e aventureiros que saíam em busca do pau-brasil, de grande valor na Europa e que primeiramente era importado da Índia. Inclusive, é aí que se encontra a única prova da efetiva presença de Diogo Álvares Corrêa no continente europeu, haja vista a certidão do batismo de Paraguassú (a índia que Caramuru levou quando foi à Europa na embarcação do navegador bretão Jacques Cartier), que se encontra nos Archives Municipales de Saint-Malo: Doc. nº 1 - Baptême de Catherine du Brésil (30 Juillet 1528) - GG6.

Em ‘História da Fundação da Bahia’, Pedro Calmon faz uma pequena referência: “... e até um jesuíta o apelidasse de Francês ...”. Alguns articulistas justificaram que se tratava de uma alcunha decorrente dos fortes laços comerciais que Caramuru manteve com os franceses que chegavam atrás do pau-brasil.

Porém, em ‘História da Companhia de Jesus no Brasil’, o historiador português dessa ordem religiosa, padre Serafim Leite, cita, na página 312 do tomo II, uma carta em que o padre português António Gomes, procurador dos jesuítas no Brasil e também procurador em Roma, se refere à Catharina Paraguassú nos seguintes termos, mantida a grafia da época:

“Hua índia das do Brasil, que, antes que lá fossem portugueses, foi casada com hum francês e agora é mãi de hua grande família, e assi ela como filhos e genros são contínuos e antigos beneméritos do col.º da Baia”.

A abreviatura colº significa colégio e é uma referência ao Colégio dos Jesuítas. O mérito da afirmativa do padre António Gomes reside no fato dele ter conhecido Catharina, já viúva. Será que ela teria lhe confessado que o marido havia nascido na França?

Os que combatem a hipótese da nacionalidade francesa de Diogo Álvares Corrêa afirmam que um francês não poderia ter nome português. Mas podia sim, e há comprovação documental. No artigo ‘Bretanha e Portugal no Século XV’, publicado na revista Arquipélago (vol. 1 - nº 1, 1995), da Universidade dos Açores, o historiador português A. H. de Oliveira Marques, considerado o maior especialista na história portuguesa nas Idades Média, Moderna e Contemporânea, depois de afirmar que “desde o século XIII que os navios portugueses conheciam bem a rota para a Bretanha”, fez o seguinte registro relacionado ao século XV:

Quanto aos portos, os Bretões frequentavam sobretudo Lisboa e os do Algarve. Os Portugueses iam a Brest, a Saint-Malo e ao porto de Morbihan.
Como escreveu Michel Mollat, “um fragmento inédito da contabilidade dos navios entrados no porto de Morbihan, em 1475 e 1477, revela o predomínio de portugueses e espanhóis”.

Portanto, as relações comerciais entre Portugal e o ducado da Bretanha tiveram grande importância no século XV, principalmente na década de 1470, com a constante presença de navios portugueses, e também espanhóis, nos portos bretões. São ainda do conhecimento histórico as seguintes ocorrências:

Por tudo isso, é perfeitamente factível a existência de um francês filho de pai da Península Ibérica. É o fundamento lógico para um bretão com nome do tronco linguístico galaico-português: Diogo Álvares Corrêa. E tem mais: o Francês pode ter sido um dos muitos jovens mercenários e aventureiros bretões que trabalhavam nas embarcações que saíam da Bretanha em busca do pau-brasil ou nas embarcações portuguesas do comércio com a Índia.

No livro de Manuel António Fernandes Moreira, ‘Os Vianenses na Construção do Novo Mundo (Séc. XVI-XVII)’, existem registros de mercadores franceses, de nítida ascendência lusitana, residindo em Viana do Castelo. Essa constatação tem uma explicação factual: descendentes dos comerciantes portugueses emigrados para a Bretanha fizeram o caminho inverso de seus ascendentes.

O personagem Caramuru é brasileiro Seja português, espanhol ou francês de nascença, o que há de concreto é o fato da embarcação em que Diogo Álvares Corrêa viajava ter naufragado próximo ao Morro do Conselho. Levado pelo impulso da correnteza, o náufrago abrigou-se na Pedra da Concha, uma minúscula ilha rochosa situada na Enseada da Mariquita, bem ao lado do Morro do Conselho e defronte à foz do Camorogipe.

E foi da Pedra da Concha que o europeu efetuou o certeiro tiro de bacamarte numa ave que voava à vista dos tupinambás. Espantados e atemorizados, pois desconheciam armas de fogo, os nativos começaram a exclamar: Caramuru! Caramuru! Caramuru!’, que na língua tupi significa ‘Homem do Fogo; Filho do Trovão; Dragão Saindo do Mar’.

Assim, no primeiro trimestre de 1509, nasceu o personagem Caramuru, tendo como berço o Rio Vermelho, hoje um bairro da Cidade do Salvador. Enfim, um personagem riovermelhense, soteropolitano, baiano e brasileiro.