O Corrêa e o Dia Correto da Morte de Caramuru

Ubaldo Marques Porto Filho,
autor do livro
‘Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, Patriarca do Brasil’

Embora no epitáfio de Catharina Paraguassú, existente na Igreja da Graça desde 1797, o nome de seu marido estivesse grafado como “Diogo Alvares Corrêa”, o jovem historiador Francisco Varnhagen, na dissertação ‘Caramuru Perante a História’, publicada em 1848, na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tachou o Corrêa de espúrio. Por isso, muitos outros estudiosos passaram a considerar o Álvares como único sobrenome verdadeiro. Apoiado também nos documentos antigos, onde o nome do patriarca aparece somente como Diogo Álvares (ver nota 1), e às vezes com o complemento do apelido, Diogo Álvares Caramuru, o expurgo patrocinado por Varnhagen (ver nota 2) ganhou credibilidade, pois se tratava de uma personalidade com prestígio em ascendência na sociedade do Império Brasileiro.

No concernente à data do falecimento de Caramuru, alguns historiadores chegaram a adotar o 5 de abril de 1557. A fonte era uma certidão que Luís dos Santos Vilhena, na primeira de suas famosas cartas, escrita em 1808, a ela assim se referiu, obedecida a grafia original:

“Sei pelo ver em huma certidão que em dias de Mayo de 1799 se extrahio a requerimento do secretario do Estado, seu descendente, de hum dos livros antigos de óbitos, recolhidos á Secretaria Ecclesiastica deste Arcebispado, que Diogo Alvares Caramurú fora sepultado na Igreja do Collegio que foi dos Jesuitas, em 5 de Abril de 1557”.

Porém, pelo fato de ter sido solicitada por José Pires de Carvalho e Albuquerque (casado com a prima Ana Maria de São José de Aragão, Senhora da Casa da Torre de Garcia D’Ávila e penúltima dos morgados), que ocupava um importante cargo governamental (secretário do Estado e Governo do Brasil), essa certidão foi vista sob suspeição de ter sido fabricada, pois o frei Jaboatão já havia divulgado a data correta em livro de 1761, publicado em Portugal.

A legitimidade do dia da morte de Caramuru e do sobrenome Corrêa haviam sido confirmadas quando o frei Jaboatão encontrou, nos arquivos da Sé da Bahia, na ‘Folha 70 do Livro Antigo da Sé’, o assentamento do óbito, lavrado pelo pároco João Lourenço, nos seguintes termos:

“Aos cinco dias do mês de outubro de 1557 faleceu Diogo Álvares Corrêa, Caramuru, da Povoação do Pereira; foi enterrado no Mosteiro de Jesus, ficando por testamenteiro João de Figueiredo, seu genro”.

Na página 220 do livro ‘História da Fundação da Bahia’, Pedro Calmon assim se refere à descoberta do frei Jaboatão:

“Merece mais crédito do que uma velha certidão que diz 5 de abril de 1557”.

Portanto, com uma só cajadada o frei Jaboatão matou dois coelhos: ficou-se tendo a comprovação irrefutável de que o nome completo de Caramuru era Diogo Álvares Corrêa e que o 5 de outubro era o dia verdadeiro do falecimento. A prova era de tal forma sólida que o notável professor e historiador Frederico Edelweiss pronunciou no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, no dia 5 de outubro de 1957, uma conferência (reproduzida na íntegra na revista nº 81 do IGHB) com o seguinte tema: O Quarto Centenário da Morte de Caramuru, 5 de Outubro de 1957.

NOTAS:

1. Era comum se escrever o prenome acompanhado apenas do primeiro sobrenome. Exemplos: Paulo Dias (ao invés de Paulo Dias Adorno), Pero Fernandes (Pero Fernandes Sardinha), Pero do Campo (Pero do Campo Tourinho), Pero Lopes (Pero Lopes de Souza), etc.
2. Paulista da região de Sorocaba, nascido em 17 de fevereiro de 1816, Francisco Adolpho de Varnhagen destacou-se também como engenheiro militar e diplomata. Em 1872, foi agraciado com o título de Barão de Porto Seguro, sendo depois elevado pelo imperador D. Pedro II à categoria de Visconde de Porto Seguro. Faleceu aos 62 anos, em Viena, no dia 29 de junho de 1878, quando se encontrava em missão diplomática na então capital do grandioso Império Austro-Húngaro.