Lembranças de Ubá

Ubaldo Marques Porto Filho

Em dezembro de 1954, meu pai deu um presentão à esposa, levando-a com os seis filhos para passar o Natal em Ubá, cidade na Zona da Mata Mineira, terra da minha avó Josina, casada com Antônio da Costa Almeida, português de Oliveira de Azeméis. Minha mãe ficou muito alegre, haja vista que há quatro anos não via os pais.

A viagem foi rocambolesca: em Jequié, onde residíamos, embarcamos num avião da Real Aerovias que procedia de Salvador e que nesse dia fazia o voo inaugural da linha Jequié-Governador Valadares. Nessa cidade mineira pernoitamos e demos início a uma maratona por estradas poeirentas. De ônibus, pela Rio-Bahia, fomos até Caratinga, onde papai fretou dois automóveis para levar a família de oito pessoas até Ubá.

Logo após o Ano Novo, ele foi rever colegas na sede do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, à qual se encontrava funcionalmente subordinado como fiscal da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial. Retornou com uma notícia espetacular para mamãe: “Aparecida, você não volta mais para Jequié. No Rio descobri que a agência de Ubá estava sem fiscal. Pedi a transferência, que foi imediatamente homologada!”. Como não poderia deixar de ser, ela achou excelente permanecer em Ubá. Por ser filha única, queria mesmo ficar bem perto dos pais: vovô estava com 84 e vovó com 73 anos.

Fomos residir numa casa alugada na Rua Doutor Ângelo Barleta, número 98. Era um logradouro plano e bem arborizado, com amoreiras de um lado e outro. Quando as aulas começaram, fui estudar no Externato Vera Cruz, da educadora Maria Machado Carvalho, na Rua Santa Cruz 551, pertinho da casa do vovô, que residia no número 589. Era uma rua comprida e das mais importantes da cidade.

Com o dinheiro apurado na venda da casa de Jequié, papai construiu uma pequena casa na parte da frente do terreno do vovô, que para aí se mudou. A casa antiga, mais espaçosa e localizada na parte mais elevada do terreno, passou a ser a nossa nova residência depois de uma pequena reforma. E foi nessa casa da Rua Santa Cruz que comecei realmente a desenvolver o gosto pela leitura, nas publicações que meu pai recebia: a revista O Cruzeiro e o jornal Diário de Notícias, ambos do Rio de Janeiro; além dos três periódicos locais, Cidade de Ubá, Folha do Povo e o jornal Reação.

Considerada como uma das cidades mais progressistas da Zona da Mata, no Sudeste de Minas Gerais, Ubá dispunha de duas emissoras de rádio: Rádio Sociedade Ubaense (ZYC-4) e Rádio Educadora Trabalhista (ZYV-43). Os grandes circos passavam pela cidade e tenho gratas recordações de dois dos mais famosos, o Nerino e o Garcia.

A Ubá que conheci

Criado com rédea solta, gozando da mais ampla liberdade, perambulava com os amigos da vizinhança pelas mais conhecidas áreas públicas: Rua São José, principal artéria comercial; Praça Guido Marlière, onde ficavam o Grande Hotel, a Estação Ferroviária da Leopoldina, a Estação Rodoviária e o Cine Brasil; Rua 13 de Maio, endereço do Ubá Tênis Clube, em cujo salão brinquei pela primeira vez num baile carnavalesco, infantil; Avenida Raul Soares, local do Estádio do Sport Club Aymorés; e a Praça das Mercês, bem próxima da minha casa.

A Praça das Mercês, na verdade uma pracinha, era o ponto de encontro dos meninos do grupo que eu participava. Transitando pelas casas deles, conheci vários senhores e senhoras que tinham convivido com o Ary Barroso e seus familiares. Diziam que o pai e a mãe do compositor famoso haviam falecido de tuberculose quando ele estava com sete para oito anos. Por isso, passou a ser criado pela avó materna, dona Gabriela Augusta de Rezende.

O coração da cidade pulsava na Praça São Januário, point do ‘footing’ da juventude, com seu belíssimo jardim, o Paço Municipal, o Ginásio Mineiro e o Bar Municipal, onde se bebia um refrigerante fabricado na cidade, chamado Abacatinho. Na Rua Frei Pedro, bem junta à Praça São Januário, encontrava-se a Igreja Matriz, que se engalanava em 19 de setembro, dia Festa de São Januário, Padroeiro da Cidade.

Na Avenida dos Andradas ficava a Praça de Esportes, um complexo multiesportivo muito organizado, que para entrar tinha de ser sócio e para tomar banho na piscina tinha que estar com a carteirinha de saúde em dia (exames médicos mensais, realizados no próprio clube). Foi ai que quase morri afogado, sendo salvo pela Regina Ferreira, exímia nadadora e minha vizinha, moradora da casa 599. Por causa do terrível susto, tomei medo de piscina e desisti de aprender a nadar.

Viagens

Como papai gostava de viajar, tive a oportunidade de acompanhá-lo em algumas idas a Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Vassouras e Petrópolis. Viajávamos em ônibus ou trem. Mas quando os passeios eram pela região de Ubá ele utilizava o seu próprio automóvel, um Ford preto que trouxe de Jequié. Nele íamos com frequência às cidades de Visconde do Rio Branco e Rio Pomba. Nessa última, residiam os padrinhos da minha irmã Àime, o dentista Antônio Dias da Costa (Toniquinho) e a esposa Lêda, amigos de infância da minha mãe.

Também frequentávamos a Fazenda Harmonia, a 12 km de Ubá, em Tocantins, onde morava a prima Cibele (prima em primeiro grau da mamãe), casada com o fazendeiro Américo Reis. A casa-sede era um casarão colonial. Possuía um moinho de fubá – movido por uma roda d’água, que também gerava eletricidade – e um engenho à tração animal, donde saia uma aguardente muito conhecida, denominada ‘Cachaça da Fazenda Harmonia’.

A Manga Ubá e a Mangada de Ubá

A Cibele era filha de João José de Souza (irmão da vovó Josina) e de Risoleta Costa Souza, que residiam na Rua Santa Cruz 609. Mamãe chamava dona Risoleta de Tia Leleta. Eu também a tratava dessa forma. Doceira afamada, a Tia Leleta havia criado, em 1935, a Mangada de Ubá, um doce em pasta na reluzente cor de ouro, verdadeiro manjar dos deuses, feito com a Manga Ubá, de paladar primoroso.

Tio João, que tinha vários pés no pomar da sua casa, dizia que havia duas versões para a origem da Manga Ubá: a primeira defendia que a espécie era nativa da própria região; a outra dizia que era oriunda da Itália, trazida pelo imigrante José Miotto.

Segundo a vovó Josina, a Manga Ubá e a Mangada de Ubá eram os símbolos da cidade onde ela nascera. Praticamente em todo quintal havia uma mangueira. No fundo da nossa casa, bem na divisa (uma cerca) com o quintal vizinho, havia um pé da manga famosa, cujos frutos eram democraticamente colhidos: os dos galhos do lado direito pertenciam à família Ferreira e os do outro lado à nossa família.

Futebol

Em Ubá desabrochei para o futebol, que se transformou numa grande paixão. Havia inúmeros campinhos para ‘peladas’, alguns nas margens do Rio Ubá. Jogava também na Praça de Esportes e nos campos dos dois grandes times do futebol local, Aymorés e Ubaense, agremiações que dividiam as preferências dos torcedores. Virei aficionado do Aymorés, clube fundado em 17 de maio de 1923, com as cores azul e branco. O alviceleste possuía um jogador, o ponta direita Tavinho, que morava defronte à nossa casa. O centroavante Abelardinho, grande cabeceador, também vizinho, residia na casa ao lado, era da família Ferreira. Recordo-me ainda das defesas sensacionais do goleiro Adonai.

Foi no Estádio do Aymorés que pela primeira vez presenciei uma partida envolvendo profissionais, de um time misto (não era o quadro principal, e sim uma mistura de jogadores veteranos com jovens recentemente profissionalizados) do Vasco da Gama, do Rio de Janeiro, que levou como principal atração o goleiro Victor González, ex-integrante da seleção do Paraguai. Foi quando também descobri a magnitude da diferença entre uma equipe profissional e uma amadora: o Vasco goleou o Aymorés por 5x1.

Ainda em Ubá assisti ao primeiro jogo noturno, na inauguração da iluminação do Estádio do Aymorés. O dono da casa enfrentou uma equipe mista do Flamengo, do Rio de Janeiro, que levou como atrações o consagrado médio Jadir, do time tricampeão carioca (1953/54/55), e o centroavante Sarcinelli, com nome feito em outros clubes.

Ginásio São José

Em dezembro de 1956, concluí o curso primário no Externato Santa Cruz, numa turma de 14 alunos, metade deles descendentes de italianos que tiveram uma forte presença na colonização e no desenvolvimento de Ubá. Eis os formandos: Ângelo Sartori Filho, Ênio Altivo Brandão Carneiro, Fábio Aloísio Quirico, José Aloísio Martins, José Eduardo Augusto, Luís Bigonha Gazola, Magda Martins de Oliveira, Magna Martins de Oliveira, Maria Auxiliadora de Lucca, Maria de Lourdes Vallone, Maria Lygia de Lucca, Neide Ana Brandão Carneiro, Paulo da Silva Bigonha e Ubaldo Marques Porto Filho.

Em janeiro de 1957, obtive aprovação no exame de admissão no conceituado Ginásio São José, da tradicional família Carneiro. Ficava fora do perímetro urbano, dentro da Fazenda Boa Esperança, na margem esquerda da estrada para Tocantins, Rio Pomba e Juiz de Fora. Meu pai dizia que era o melhor ginásio da Zona da Mata, pela qualidade do ensino e pelo rigor na disciplina.

Fui matriculado no regime do semi-internato: tinha que chegar até às 6h45 e ficar até às 16h30. Para poder ir e voltar ganhei uma bicicleta Monark. Teria de pedalar 6 km diários, de segunda à sexta-feira. No primeiro dia, os novatos receberam as boas vindas do diretor, doutor Newton Carneiro, que em seguida leu um manual contendo as normas da casa. Por último, abordou a história do estabelecimento e anunciou a qualificação de cada professor.

Fiquei sabendo que o diretor estava com 62 anos e que seu pai, José Januário Carneiro (Doutor Fecas), havia fundado o ginásio em 24 de agosto de 1905, e que seu bisavô, o capitão-mor Antônio Januário Carneiro, primeiro dono da Fazenda Boa Esperança, era também o fundador de Ubá. Soube ainda que o sobrado das salas de aulas tinha sido a sede de uma grande fazenda produtora e coletora do café da região. Por último, os calouros foram informados de que na relação dos ex-alunos figurava um nome ilustre, o do famoso compositor Ary Barroso, filho de Ubá.

Construído em 1862, o sobrado de 15 cômodos sofreu algumas adaptações para permitir o funcionamento do ginásio. Na parte térrea ficavam as salas de aulas, um salão de estudos (chamado Repouso), a biblioteca, o refeitório, a cozinha e o hall da entrada com uma escadaria de madeira em dois lances, que conduzia ao pavimento dos alojamentos dos alunos internos, vindos de outras cidades. Anexos, ficavam os banheiros, os sanitários, o vestiário, o estacionamento das bicicletas e um pátio externo onde os 105 alunos, distribuídos pelas quatro séries, ficavam aguardando a batida do sino para o início das atividades, às 7 horas e às 13 horas, após um pequeno intervalo pós-almoço.

A parte da diretoria e da secretaria (administração) funcionavam numa casa situada defronte ao sobrado. Havia também uma residência da família Carneiro e dependências para os empregados. Um pouco afastado, encontrava-se um campo de futebol.

O Ginásio São José era muito rigoroso na disciplina e com horários inflexíveis para tudo. Eu tinha aulas ininterruptas das 7 às 9 horas. Das 9 às 10 horas ficava confinado num amplo salão chamado de ‘Repouso’, onde todos os alunos estudavam em total silêncio. Às dez horas, éramos liberados para o recreio, com exceção dos que recebiam punições. No período do lazer, uma parte destinava-se à educação física, duas vezes por semana. Nos demais dias, quem fosse bom no futebol, tinha lugar garantido entre os 22 que jogavam no campo gramado. Havia também a opção da prática de outros tipos de esportes ou mesmo do ócio completo, pois quem quisesse poderia ficar sem fazer absolutamente nada.

Às 11 horas todos se dirigiam ao banho e troca de roupa. Das 11h30 às 12h30 almoçava-se. No refeitório, local proibido para qualquer tipo de conversa, entrava-se em fila indiana e cada qual sentava no seu lugar pré-determinado. Garçons serviam quantidades padronizadas, mas quem desejasse poderia repetir as iguarias, usando sinais: batendo com um dedo na mesa significava pedido de arroz, com dois dedos vinha o feijão e com três mais uma porção do prato do dia (carne de boi, carne de porco ou frango). Serviam também saladas, angu, tutu de feijão, etc. Ninguém se queixava da comida, farta e muito boa. Até hoje, sinto saudades do arroz. Embora fosse preparado em grande quantidade, era saborosíssimo.

Das 13 às 16h30 cumpria-se o ritual das aulas ou dos estudos no Repouso, local de concentração dos alunos de todas as quatro séries. Ficavam em carteiras duplas, geminadas, ou seja, em cada carteira sentavam duas pessoas, cada uma utilizando uma gaveta individual. No Repouso, onde na verdade ninguém podia repousar, a vigilância fazia-se presente de forma ostensiva. Quem fosse flagrado cochilando, conversando, lendo gibi ou praticando qualquer outra atividade clandestina, recebia admoestação e tinha o seu nome registrado no livro de ocorrências.

No Ginásio São José reinava a mais completa ordem. Pelas mínimas mazelas o castigo não tardava e chegava no rigor da severidade. A depender do grau da indisciplina, apurada pelos fiscais e lida diariamente às 10 horas, no salão do Repouso, o infrator, dentre outras penalidades, podia ter cassado o direito ao recreio. Por exemplo, enquanto os outros se divertiam, o punido ficava de pé debaixo do sino anunciador do início e fim de cada atividade. Era um sino grande, de igreja, preso no teto de uma área de circulação. A punição era para constranger o ‘premiado’, que ficava em posição militar, de ‘sentido’, por meia hora, sem poder dirigir a palavra a ninguém, nem mesmo a um eventual colega de infortúnio, posicionado ao lado. Em algumas ocasiões, sofri esse castigo.

No Ginásio São José não havia a mais remota possibilidade do aluno gazetear aulas. A disciplina era férrea e o responsável pelo esquema de manutenção da ordem era o instrutor de educação física, que fazia questão de ser chamado de Tenente. Dizia-se oficial da reserva do Exército. Mas, da boca de alguns colegas veteranos, saia a informação de que, na verdade, era um sargento reformado. O certo é que se tratava de um sujeito durão e pródigo na aplicação das sanções. Ele sempre repetia um bordão intimidador: - Aqui o filho chora e a mãe não sabe!

Verdade mesmo.Os sofredores maiores, formadores do batalhão mais numeroso dos alunos, eram os internos, que lá permaneciam durante as 24 horas de cada dia. Foi aí que descobri a razão para a fama corrente do ginásio como unidade corretiva para os jovens considerados indisciplinados por seus familiares.

Dizia-se que se o São José não desse jeito no ‘rebelde’ nenhum outro estabelecimento daria. No meu tempo, teve um interno que, não aguentando a pressão e as punições, simplesmente fugiu numa madrugada. Voltou para a sua cidade de origem.

História de Ubá

No Ginásio São José aprendi um pouco sobre Ubá. Nas aulas de francês, o doutor Newton Carneiro também discorria sobre a história da cidade, bem como a sua filha, Nilza Carneiro, professora de português e secretária do estabelecimento. Fascinado por história, eu fazia anotações do que ouvia. Eis o que aprendi com eles: em 1818, o capitão-mor Antônio Januário Carneiro, poderoso proprietário rural, liderou um movimento para a construção de uma capela sob a invocação do santo do dia do seu natalício, São Januário, com o objetivo de congregar, nos ofícios religiosos, a população que se encontrava dispersa pelas fazendas da região.

Além do local para o templo, o capitão-mor doou a área para o surgimento de um povoado, inicialmente formado por 19 casas simples, destinadas às famílias dos operários que o capitão levou para trabalhar na construção da Capela de São Januário, que foi edificada em duas etapas: de 1816 até 1828, ano em se deu o falecimento do benfeitor, aos 48 anos de idade; a última etapa foi de 1828, sob o comando do seu filho, Antônio Januário Carneiro Filho, até 1841, quando a capela foi inaugurada e elevada à categoria de sede de paróquia, com o nome de Igreja Matriz de São Januário.

O aglomerado urbano - que começou com as 19 casinhas, construídas na que ficou sendo chamada de Rua de Trás, atual Rua Santa Cruz -, cresceu rapidamente na margem do Rio Ubá e ganhou, em 7 de abril de 1841 o foro de freguesia, com o nome de São Januário de Ubá, sob a jurisdição de São João Batista do Presídio, atual Visconde do Rio Branco. Finalmente, pela Lei Imperial 806, de 3 de julho de 1857, a vila foi elevada à condição de cidade, com o nome simplificado para Ubá.

Problema com o padre

No dia 15 de abril, segunda-feira da Semana Santa, apareceu no Ginásio São José um padre sisudo, que pelo sotaque deveria ser estrangeiro, talvez italiano. Instalou-se numa sala e passou a entrevistar os alunos da primeira série, um a um, por ordem da chamada da caderneta escolar. Na minha vez, o último da lista, depois de algumas indagações, travou-se o seguinte diálogo:

- Foi batizado na Igreja Católica?
- Fui sim!
- Fez a primeira comunhão?
- Não! - E por que não fez?
- Não sei, padre.Essa resposta só com meus pais!

Aí a coisa pegou. Visivelmente irritado, ordenou bruscamente que me retirasse da sala. Após a celebração de uma missa, fui chamado à secretaria. A professora Nilza Carneiro disse-me que o padre havia apresentado uma queixa, pois ficara seriamente aborrecido com o fato de ter encontrado um cristão que ainda não tinha recebido o sacramento da Eucaristia. Percebendo que eu não estava entendo direito o meu crime e estarrecida com a minha ignorância religiosa, ela pôs-se a explicar-me:

- Ubaldo, só pode se confessar e comungar quem já fez a primeira comunhão.

O interessante nisso tudo, que gerou a apoplexia no sacerdote e estranheza na professora Nilza, é que eu não havia pedido para me confessar. Simplesmente fora compelido a entrar na sala do padre sem ter a mínima noção do que iria ocorrer lá dentro.

E a queixa do sacerdote chegou à minha família, pois papai recebeu um ‘convite’ para ‘ir tratar de interesse do seu filho’. Para mim ele não revelou o teor da conversa que teve lá na secretaria do São José, mas eu ouvi a mamãe falando para a vovó que meu pai desaprovou a maneira do padre tratar uma criança, como se fora uma delinquente juvenil. E teria dito que não aceitava a queixa, pois a vítima tinha sido o seu filho.

Ouvindo isso, eu fiquei com uma raiva danada do gringo grosso, que solicitara ao estabelecimento, que era católico, que formalizasse uma verdadeira condenação aos pais do aluno que se encontrava em ‘grave pecado’.

Último mês em Ubá

Em Ubá nasceram minhas duas últimas irmãs, Eneida e Elimar. Tudo corria maravilhosamente bem. Porém, no dia 3 de julho, quando se festejava o Centenário da Cidade, papai comunicou, para tristeza da mamãe e minha, que iríamos embora de Ubá.

Para mim, a mudança começaria comigo, pois seria imediatamente enviado à Bahia, onde deveria cursar o segundo semestre do primeiro ano ginasial. Ficou claro que ele não queria que eu continuasse no São José. Ainda tentei, sem sucesso, permanecer até o final do ano, residindo com vovô, em cuja casa havia passado a dormir assim que as aulas se iniciaram no Ginásio São José.

Como tinha de acordar às cinco para sair às seis da manhã, mamãe achou conveniente que eu fosse para a casa dele, que acordava às quatro, para trabalhar, como atividade de aposentado, num pequeno ateliê doméstico. Confeccionava velas e beneficiava palhas de milho, transformando-as nas mortalhas usadas no capeamento do cigarro rural, feito com fumo de corda, picado ou desfiado. Pois bem, às cinco em ponto, vovô Almeida dava três pancadinhas na porta do quarto e dizia:

- Ubaldo, está na hora!

Após o café com angu, preparado pela vovó Josina, seguia o caminho do ginásio, pedalando a bicicleta e metido numa farda de inspiração nitidamente militar. Compunha-se de calça comprida de brim, na tonalidade marron claro, e camisa de mangas compridas de igual cor, em tecido de algodão. Na lapela dos ombros ficavam as divisas indicativas da patente ginasial, de um a quatro, de acordo com a série cursada pelo aluno. No meu caso, apenas uma divisa, que anunciava se tratar de um calouro. Sapatos, meias e cinto preto completavam o fardamento que me enchia de orgulho. Não se usava gravata.

No último mês em Ubá fiquei sabendo que, embora tivesse sido convidado pelo prefeito José Pires da Luz, para a festa do Centenário da Cidade, no dia 3 de julho, o mais famoso filho da terra, Ary Barroso, não compareceu, por vindita, uma vez que a Câmara Municipal não aprovou um projeto que concedia o seu nome a um logradouro público. Isso rendeu muitos comentários entre os moradores da cidade. Meu pai foi um dos que criticou a atitude da casa legislativa.

Retorno à Bahia

Quando o ônibus partiu da Praça Guido Marlière, por volta das sete horas do dia 27 de julho de 1957, um sábado, deixei para trás dois anos e meio muito importantes na minha vida, férteis em acontecimentos, cheios de descobertas maravilhosas, talvez o período mais feliz da infância, vivida em ambiente dos mais saudáveis.

Enfim, parti deixando a turma dos amigos da Rua Santa Cruz e adjacências, onde pontificavam os irmãos Dilsinho e Geraldo Bochecha, Danilo, os irmãos Márcio e Maurício Guimarães, dentre outros. Na véspera da viagem, o Fernando Ferreira, vizinho e bom goleiro, despediu-se com uma frase elogiosa: “Você vai mostrar na Bahia o futebol que aprendeu aqui, não é?”.

Ary Barroso

O ubaense Ary Evangelista Barroso, nascido em 7 de novembro de 1903, estudou na Escola Pública Guido Solero, no Externato Mineiro e iniciou o curso ginasial no Ginásio São José, donde foi expulso por indisciplina, passando a estudar em Viçosa.

Com uma tia, professora e pianista, Rita Margarida de Rezende (Ritinha), aprendeu teoria musical, solfejo e piano. Aos 12 anos já trabalhava como pianista auxiliar, no acompanhamento dos filmes mudos exibidos no Cine Ideal. Aos 15 compôs as primeiras músicas, o cateretê ‘De Longe’ e a marcha ‘Ubaenses Gloriosos’.

Em 1920 foi para o Rio de Janeiro, onde ingressou na Faculdade Nacional de Direito e se enturmou no meio artístico. Chegou a interromper os estudos para trabalhar como pianista em cinemas e teatros, antes de passar por várias orquestras. Para o teatro de revista compôs e musicou mais de 60 peças.

Ary Barroso teve a primeira música gravada em 1929. Chamava-se ‘Vou à Penha’, interpretada por um colega da faculdade, Mário Reis. Em 1930 venceu o concurso de músicas carnavalescas da Casa Edison com a marchinha ‘Dá Nela’. Ainda nesse ano, finalmente, conclui o curso de direito.

Não exerce a profissão de advogado, pois continua se dedicando à música, como pianista e compositor. No rádio (passou por quatro emissoras) comanda diversos programas e atua na locução esportiva, transmitindo corridas de automóvel e jogos de futebol. Com o advento da televisão, ingressa na TV Tupi e apresenta dois programas que ficaram famosos: Calouros em Desfile e Encontro com Ary.

Esteve nos Estados Unidos em 1944, para compor a trilha sonora de um desenho animado da Walt Disney, ‘Você Já Foi à Bahia?’, baseado na música homônima de Dorival Caymmi. Por esse trabalho, recebeu uma premiação da Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood.

Em Ubá, na Praça das Mercês, foi edificado um monumento - Clave de Sol - em homenagem ao filho ilustre. Ary Barroso faleceu de cirrose hepática em 9 de fevereiro de 1964, domingo de carnaval, no Rio de Janeiro, dia em que a Escola de Samba Império Serrano desfilava na Avenida Presidente Vargas com o enredo ‘Aquarela do Brasil’, nome da sua principal música, composta em 1939 e que teve centenas de gravações em dezenas de países.

Sua outra obra prima, dentro das 264 músicas que compôs, foi o samba jongo ‘Na Baixa do Sapateiro’, de 1938, que continha o verso ‘Bahia, Terra da Felicidade’, que se transformou num slogan, pois numa única frase o compositor mineiro conseguiu sintetizar a alma da Bahia. Segundo Abel Cardoso Júnior, com seis músicas exaltando a Bahia, Ary Barroso foi “o mais baiano dos compositores não nascidos na Boa Terra”.

Nelson Ned

Em 1969, estourou nas paradas musicais do país a música ‘Tudo Passará’, na portentosa voz de Nelson Ned. Quando o vi pela primeira vez, na televisão, não tive nenhuma dúvida, tratava-se do Nelsinho de Ubá. Quando o conheci, ele tinha oito anos e morava na Rua Doutor Ângelo Barleta, na casa do senhor Danilo, colega do meu pai no Banco do Brasil. Por isso, eu frequentava a sua residência, localizada do outro lado da rua onde minha família também residia. Seu Danilo era casado com uma tia do cantor e compositor ubaense que consolidou uma carreira espetacular, tanto no Brasil como no exterior.

‘O Pequeno Gigante da Canção’, conforme foi cognominado, alcançou grande sucesso na América Latina e nos Estados Unidos fez várias turnês por cidades importantes, tendo em Nova Iorque se apresentado nos palcos reservados aos grandes artistas: Carnegie Hall e Madison Square Garden.

Em julho de 1975, quando estive em Ubá, a Cidade Carinho, fiquei sabendo com a prima Cibele que o Nelson Ned D’Ávila Pinto, filho do senhor Nelson e de dona Ned, descendia, pela parte da mãe, de uma família com dotes musicais. Sua avó materna, dona Ana, fora exímia pianista, enquanto que um tio, Milton D’Ávila, destacou-se como flautista. Sua mãe, além de pianista, era dona de uma voz excelente e chegou a cantar no coral da Igreja.

A primeira versão desse artigo foi
elaborada em janeiro de 2006,
para o portal www.uba.com.br


                                   Pavilhão principal do Ginásio São José, na Fazenda Boa Esperança. Era a construção
original mais antiga (1862) de Ubá, uma vez que a Igreja Matriz de São Januário,
inaugurada em 1841, havia perdido a formatação original na grande reforma de 1930/1933.
 

Ary Barroso e Dorival Caymmi, autores de sucessos musicais que deram notável
divulgação à Terra Mater do Brasil. Foram os criadores, respectivamente, da
definição ‘Bahia, Terra da Felicidade’ e da pergunta convite ‘Você Já Foi à Bahia?’.