Lembranças de Cachoeira

Ubaldo Marques Porto Filho

No domingo, 28 de julho de 1957, papai levou-nos, eu e minhas irmãs, Áime e Ivanira, ao Aeroporto do Galeão, onde fomos embarcados para Salvador. Viajamos sozinhos, a bordo de uma aeronave da Cruzeiro do Sul. No Aeroporto de Santo Amaro de Ipitanga estavam a nos esperar tios e primos da família Guedes. Tio Guedão foi buscar-nos num microônibus do Cortume Bragança, indústria da qual era diretor. No trajeto para a sua casa, no Monte Serrat, revi a orla marítima dos tempos dos passeios à Itapuã.

Ao passarmos pela Pituba, enxerguei uma novidade, uma casa diferente, no formato de uma embarcação, com a proa apontando para o mar. Fiz um comentário que mereceu do tio Guedão uma resposta irreverente, provocada talvez pelos uísques tomados no aeroporto, enquanto aguardava a chegada do nosso avião, que saiu do Rio de Janeiro com muito atraso:

- É a Casa Navio do Doutor Boureau, médico especialista em pica!
- Enéas, deixe de dizer palavrão, respeite as meninas!, advertiu tia Aiméa.
- Desculpe-me, ao invés de pica, ouçam doença venérea!

No Rio Vermelho, tio Guedão ordenou que o motorista fosse pela Vasco da Gama, para que conhecêssemos a nova avenida, inaugurada há três meses. Ao passarmos pelo Estádio da Fonte Nova ouvimos o barulho característico da comemoração de um gol. Perguntei:

- Que jogo é esse?
- O gol foi do Bahia, que está enfrentando o Benfica de Portugal!, respondeu o primo Tito.

Quando chegamos em casa, na Rua Rio Sergi Mirim, pertinho do Largo da Boa Viagem, ficamos sabendo da incrível façanha do tricolor baiano, que, com um time de novatos, apelidado de ‘Juventude Transviada’, havia arrasado o bicampeão português por 4x1. Mas o primo Chico foi logo minimizando o resultado:

- Não fique impressionado não, este placar foi puro golpe da sorte.

Percebendo que ele não torcia pelo Bahia, provoquei:

- Qual é o melhor time da Bahia?
- É o Vitória, disparado. E você que torce pelo Flamengo deve também torcer pelo rubronegro daqui. A camisa é igualzinha a do Flamengo!

Essa ressalva foi decisiva para que eu viesse, realmente, a ser torcedor do rubronegro baiano. Depois, ficaria sabendo que, apesar de ser o clube mais antigo do futebol baiano, o Vitória possuía apenas quatro campeonatos, dois na época do amadorismo e dois na era do profissionalismo, numa performance ruim, bem abaixo do Esporte Clube Bahia e do time do meu pai, o Ypiranga.

Na manhã da segunda-feira, dia 29, foi marcada a viagem para Cachoeira. Tia Aiméa, que lá tinha residido e onde havia nascido o primo Tito, explicou-me que se tratava de uma cidade gêmea de São Félix, separadas pelo Rio Paraguaçu e unidas por uma grande ponte de ferro. Iríamos de trem, neste mesmo dia, com saída da Estação da Calçada às 16 horas. Minhas irmãs ficaram em Salvador.

Eu viajei acompanhado pela tia Orinha e pela prima Ivelise, já moça adulta. O desembarque foi por volta das 23 horas. A cidade encontrava-se deserta e um nevoeiro tomava conta das ruas. Como não havia nenhum carro de praça (taxi), fizemos à pé o percurso entre a Estação da Leste e a Pensão Central, para onde o carregador das malas nos levou. A pensão ficava num sobrado na esquina da Praça da Aclamação com a Rua da Matriz.

Na terça-feira, a primeira coisa que a tia Orinha fez foi procurar o pároco local, padre Fernando de Almeida Carneiro, seu antigo conhecido dos tempos da adolescência, para pedir-lhe dois favores: vaga no ginásio e hospedagem para mim. A matrícula foi conseguida sem nenhum problema, pois se tratava de um filho de funcionário do Banco do Brasil, instituição federal de grande prestígio nas cidades de todo o país. Para a hospedagem ele fez um contato com dona Hilda Hederval Lopes, esposa de um dentista de prestígio na sociedade local. Ela aceitou hospedar-me até a chegada da minha família.

Na quarta-feira, último dia de julho, fiquei sabendo do resultado da revanche entre Bahia e Benfica, realizada na noite anterior. No segundo confronto, o tricolor colocou em campo o time principal, recém-chegado de uma vitoriosa excursão pelo continente europeu. Mas, para decepção da sua torcida, que esperava por nova goleada, até mesmo maior do que a primeira, a equipe lusitana jogou água no dendê da festa das boas vindas ao ‘Esquadrão de Aço’, vencendo a partida por 2x1. Afinal, um time do quilate do Benfica, um dos melhores da Europa, não iria sofrer dois tropeços consecutivos. Possuía um quadro poderoso, cheio de jogadores consagrados, como o goleiro Costa Pereira, o armador Coluna e o centroavante Águas.

No palacete nº 20 da Rua Rui Barbosa

O casal que me hospedou não tinha filhos, mas tinha um exército de serviçais. Habitava num imponente prédio colonial de três pavimentos, com 42 cômodos, cheio de janelas para a Rua Rui Barbosa, uma das mais importantes de Cachoeira. O doutor Apolinário Candeias Lopes, uma pessoa de conversa fluente, levou-me para mostrar uma das seis sacadas donde Rui Barbosa havia feito um discurso não programado, para o povo que viu aglomerado na rua. Em seguida, conduziu-me ao quarto em que o famoso jurista dormira na visita que fez em campanha política, como candidato à Presidência da República. Concluiu a apresentação com uma oferta honrosa:

- Foi este o quarto ocupado pela Águia de Haia. Agora será seu!

O doutor Apolinário, conceituado cirurgião dentista, tinha consultório numa sala do primeiro andar do seu palacete. Consumidor voraz de charutos, da marca Suerdieck Nº 2, possuía caixas e mais caixas estocadas. Fumava com elegância aristocrática e, comunicativo, gostava de conversar após o jantar. Entre uma baforada e outra contava casos, dissertava sobre a história de Cachoeira e indagava sobre fatos da minha cidade em Minas Gerais, Ubá. Numa dessas conversas, lançou convite:

Quando estiver sem fazer nada, vá para o meu gabinete, observar a labuta de um dentista. Quem sabe se você toma gosto e acaba abraçando a profissão!

Fiquei freguês do seu consultório. O dia de maior movimentação acontecia no sábado, após o meio-dia, quando a matutada saía da feira livre semanal. Era o dia das extrações, havendo uma tabuleta dos preços das extrações, afixada bem à vista de quem chegasse, onde se lia: ‘Com Anestesia Cr$140,00 - Sem Anestesia Cr$ 70,00’. Para os analfabetos, o doutor Apolinário lia pousadamente, em voz alta, o que estava escrito na tabuleta. Ao indagar sobre a razão da diferenciação, explicou-me que, por ser importada, uma ampola de anestesia custava cara e, por isso, oferecia as duas opções, com ou sem dor, a depender do bolso ou da coragem de cada um.

Por incrível que possa parecer, a grande maioria do pessoal da zona rural preferia arrancar sem anestesia. A cena era de arrepiar os cabelos, sendo que os mais corajosos ordenavam, de uma só vez, a extração de dois dentes, sem anestesia. Para demonstrar que eram machos de verdade, não davam sequer um gemido. Como doía em mim assistir aquilo, deixei de ir ao consultório nas tardes dos sábados. Dizia que ia fazer um dever escolar. E foi aí que descobri que não daria para ser dentista.

Dona Hilda, bem mais jovem, tinha 31 anos, contra 67 do doutor Apolinário, que estava casado em segundas núpcias. Ela era uma pessoa alegre e boníssima. Muito católica, para me receber na sua casa fez uma única exigência: eu teria de ir à missa dominical. Não houve meio de escapulir, pois eu não gostava das missas, pois eram todas em latim e eu não entendia nada. Durante o período em que lá residi, cedinho uma empregada batia na porta do quarto para me acordar.

Dona Hilda me levava para a missa das 7 horas, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, celebrada pelo padre Fernando Carneiro, que deveria estranhar o fato de eu não me confessar e nem comungar, pois eticamente me encontrava impedido, proibido pelo padre do Ginásio São José (Ubá), por não ter feito a primeira comunhão. Este particular passou também despercebido pela dona Hilda. Mas, vendo que eu teimava em ficar o tempo todo sentado, passou a cutucar-me assim que era necessário ficar de pé. A mesma coisa acontecia nos momentos de ajoelhar, para mim uma tortura, pois sentia dores nos joelhos.

Ginásio Estadual da Cachoeira

Único existente no Vale do Paraguaçu, o Ginásio Estadual da Cachoeira desfrutava de vasto renome. O prédio, de linhas modernas e com pouco tempo de construído, obedecia a um projeto de vanguarda. Foi o presente que um cachoeirano ilustre, Ernesto Simões Filho, jornalista e político, dono do jornal A Tarde, deu à terra natal quando foi ministro da Educação no último governo de Getúlio Vargas, pois liberou recursos federais para o empreendimento idealizado pelo educador Salvador da Rocha Passos.

As obras foram coordenadas pelo doutor Artur Nunes Marques e pelo senhor Alberto de Souza Bastos, figuras proeminentes na sociedade cachoeirana. Na inauguração festiva, em 19 de setembro de 1954, estiveram presentes as seguintes autoridades: governador do Estado, médico Régis Pacheco; o presidente da Assembléia Legislativa, deputado Augusto Públio Pereira, médico e filho de Cachoeira; o secretário estadual da Educação, professor Renato Sampaio; o prefeito Anarolino Theodoro Pereira e o principal homenageado, o ex-ministro Simões Filho, cujo nome foi dado ao pavilhão das salas de aulas.

Os cachoeiranos se orgulhavam de possuir o melhor ginásio público do interior baiano. Era muito bem equipado e dispunha de um quadro docente do mais alto nível. Vários de seus integrantes tinham sido recrutados em Salvador, donde também veio o atual diretor, Geraldo Luiz Sales de Oliveira, doublê de dentista e professor.

Egresso do Ginásio São José, um estabelecimento masculino, eu estava agora frequentando um ginásio misto. Porém, colocaram-me na Turma D, constituída exclusivamente por 35 homens: Aderbal Caetano de Burgos, Antônio Eliseu Araújo, Antônio Fernando Caldas, Antônio Jorge Pessoa Barbosa da Silva, Antônio Santos da Silva, Arivaldo Vieira de Queiroz, Carlos Avelino Cavalcante de Souza, Carlos Roberto de Oliveira Lutgards, Delnero Coutinho de Oliveira, Djalma Oliveira, Edmundo França de Souza, Élio Freitas Cortes, Grinaldo de Almeida Rocha Lima Neto, Heraldo Costa Bouzas, Humberto de Cerqueira Fraga, Humberto Rodrigues Britto, Ivanildo da Silva Pereira, Jorge Raimundo Ribeiro, José Fernandes Maciel Lima, José Mascarenhas Salomão, José Roberto de Matos Pontes, Lourival Marques Barreto, Luciano Souza Navarro Brito, Luiz Carlos Santana Reina Sobrinho, Marcos Antônio da Silva, Mateus Aleluia Lima, Perivaldo Reis da Silva, Ronaldo Costa Gomes, Roque da Paixão Sobrinho, Roque Dias, Silvério Rodrigues Dayube, Stelino Jesus Reis, Walter Marques Sampaio, Wilson Batista de Souza e Ubaldo Marques Porto Filho.

Peguei os seguintes professores: Luiz Gonzaga de Santana (português), Álvaro Lima Freitas (latim), Angélica Maria Alves Peixoto (francês), Anaíde Viana Pereira (matemática), Márcia Esteves Passos Barbosa (história), Yvonne Peixoto Pereira (geografia), Francisco Ernesto de Oliveira (desenho), Maria Helena de Freitas Falcão (canto orfeônico), Manoel Eugênio Machado Filho (trabalhos manuais) e Waldir Marques de Cerqueira (educação física).

Só não gostei da farda, pesada e desconfortável para uma cidade abafada e muito quente. Localizada a apenas seis metros do nível do mar e arrodeada por serras, Cachoeira ficava numa espécie de fundo de caldeirão, com as correntes de ar passando por cima, dizia o doutor Apolinário. Talvez o tipo da farda fosse bom para Ubá, cidade situada numa região de clima ameno e fria no inverno. A farda de Cachoeira compunha-se de calça caqui, blusão caqui de mangas compridas, camisa branca e gravata preta. Pela primeira vez pus uma gravata no pescoço. Dona Hilda ensinou-me o nó. Desconfiei que ela é quem dava o nó nas gravatas do marido. Aprendi para o resto da vida, pois somente uso o nó da dona Hilda.

O bar do nome estranho

Todos os dias, cumprindo o itinerário obrigatório, da casa do doutor Apolinário em demanda ao ginásio e vice-versa, eu passava pela Praça Doutor Aristides Milton, endereço de um bar com um nome estranho, com letras maiúsculas e bem graúdas, grafadas na fachada: PQTRLV. Por não conseguir entender o significado daquela denominação estrambólica, recorri ao colega de classe Aderbal, filho do prefeito Stênio Henrique de Burgos. Ao passarmos pela frente do bar pedi que ele decifrasse o enigma. Foi rápido na resposta:

- É simples, o bar chama-se Pêquêtêrêlêvê!

Não ia matar a charada nunca, pois habituado ao modo que os mineiros diziam o abecedário, só estava conseguindo soletrar as consoantes da seguinte maneira: pê-quê-tê-erri-eli-vê, que no frigir dos ovos não dava uma sequência lógica de combinação de sons. Não significa nada, daí ter-me deixado sem entender o significado daquele aglomerado de letras. Já Pê-quê-tê-rê-lê-vê tinha uma sequência, uma continuidade sonora. Mas, independente da continuidade sonora, o doutor Apolinário disse-me que cada letra tinha o seguinte significado: Pedro Quer Tirar Resultados, Lucros e Vantagens. 

Mais tarde, quando alguns turistas indagavam sobre o significado daquelas letras, tive a oportunidade de dar a mesma resposta que havia aprendido com o Aderbal Burgos. Eles sorriam e agradeciam.

 

Patrimônio arquitetônico

Cachoeira fugia do padrão arquitetônico das cidades onde eu tinha morado: Cantagalo, Itaperuna, Jequié e Ubá. O doutor Apolinário, que era um homem muito culto, um verdadeiro professor, dizia que habitávamos numa cidade genuinamente colonial e imperial. As praças, ruas, becos, ladeiras, o calçamento ‘cabeça de nego’, os chafarizes e as fileiras de casas antigas atestavam a ambiência dos séculos passados.

Na biblioteca do ginásio, tomei emprestada uma publicação sobre a história de Cachoeira. Fiquei sabendo, por exemplo, que na Praça da Aclamação ficava o Paço Municipal, antiga Casa da Câmara e Cadeia, construída entre 1698 e 1712; que na Praça Doutor Aristides Milton se encontravam o prédio da Santa Casa da Misericórdia, obra do período 1729-1734, e o Chafariz Imperial, inaugurado em 1827; que durante a visita feita em novembro de 1859, o imperador D. Pedro II ficou hospedado no sobrado de número 13 da Rua Treze de Maio; que no de número 7 da Rua da Matriz havia nascido Ana Neri, a enfermeira heroína da Guerra do Paraguai.

Havia dezenas de outros prédios importantes, relíquias do passado opulento, da época que Cachoeira reinava na economia açucareira. Era a mais importante cidade da Bahia depois de Salvador, a burocrática capital, com a qual chegou a rivalizar em prestígio. O seu acervo arquitetônico e artístico colocavam-na agora na condição de detentora do mais importante reduto colonial do interior baiano. Mas, o que mais me chamou a atenção foi o grande número de igrejas, todas históricas. A mais antiga, também a mais simples, a Igreja da Ajuda, teve suas obras iniciadas em 1559 e concluídas em 1616. O Conjunto do Carmo, formado pela Igreja e Casa de Oração da Ordem Terceira e pela Igreja e Convento do Carmo, compunham o complexo religioso mais importante e faustoso.

A economia

Fiquei sabendo que durante três séculos, Cachoeira foi uma das cidades mais ricas do Brasil. Seu poderio deveu-se às culturas canavieira e fumageira, bem como à sua posição de polo para todos aqueles que se dirigiam às regiões auríferas e diamantíferas da Chapada Diamantina e vice-versa, à confluência das estradas de boi, ao estratégico porto fluvial, porta para o mar, ao fato de ser um movimentado entreposto comercial e por possuir todas as condições à fixação de uma elite econômica, social e cultural. Tudo isso, ensejou meios que transformaram Cachoeira num núcleo da opulência colonial e imperial.

Procurei ainda me informar sobre o presente. Soube que da atividade açucareira restaram apenas as ruínas dos antigos engenhos. A economia dependia agora das atividades comerciais, da Fábrica de Papeis Tororó e da indústria do fumo. No entanto, doutor Apolinário fez uma advertência, dizendo que o ciclo do fumo dava sinais de decadência e citou o exemplo da vizinha São Félix, onde todas as fábricas de charutos haviam fechado. Em Cachoeira, dizia, ainda resta a fábrica de charutos da Suerdieck e a fabrica de cigarrilhas da Leite Alves.

Orla fluvial

A orla de Cachoeira deslumbrava pela beleza, notadamente na maré cheia. Embora estivesse distante da foz, o rio sofria os efeitos da baixamar e da preamar. No pico da maré alta, o Paraguaçu ficava caudaloso, as águas chegavam perto da cota da rua, a chamada Avenida Paraguaçu, popularmente denominada de ‘Avenida do Cais’, que ia da Praça Manoel Vitorino ao terminal da Companhia de Navegação Bahiana, passando pela frente da Praça Ubaldino de Assis (Jardim Grande), do Jardim Faquir e da Praça Teixeira de Freitas, num percurso de visual ímpar. Do outro lado, na margem direita do rio, via-se São Félix, também de arquitetura colonial, chamada de ‘Cidade Presépio’, por causa da configuração espacial, subindo a encosta da serra.

Interligando as duas cidades existia uma ponte monumental, denominada de Imperial Ponte D. Pedro II, inaugurada em 7 de julho de 1885. Toda em estrutura de ferro e com lastro em dormentes de madeira, media 365 metros de comprimento por 9,5 de largura, dividida em três seções: duas passagens laterais, exclusivas para pedestres, e um vão central, para trens, montarias e autos. Havia inclusive locais para o pagamento do pedágio, já desativado.

Segundo os registros, a ponte fora construída na Inglaterra, encomendada para o Rio Nilo, no Egito, mas acabou sendo montada no Paraguaçu, em seu trecho final ou inicial da navegação. Logo adiante, à jusante, avistava-se o Farol da Pedra da Baleia, em funcionamento desde 1912.

Cultura religiosa

Outra coisa que logo aguçou a minha atenção foi a população. Se em Ubá predominava a influência da Europa, em Cachoeira havia a forte marca da África, fruto da colonização do Recôncavo, que abrigou milhares de escravos, procedentes de várias etnias. Estimava-se que 80% da população de Cachoeira estava formada por afro-descendentes. Por essa razão, havia a marcante presença da cultura africana.

Cachoeira tinha ainda a fama de ser um grande centro do candomblé, dona da maior concentração de terreiros na Bahia. Falava-se inclusive que as mais conhecidas mães de santo de Salvador eram oriundas de Cachoeira.

No mês de agosto realizava-se um evento famoso, que o doutor Apolinário garantia ser a mais tradicional e mais importante manifestação religiosa da cidade. Era a Festa da Boa Morte, em louvor à Nossa Senhora da Boa Morte, cuja promoção ficava a cargo da Irmandade da Boa Morte, existente há mais de um século e meio. Ele informou que a devoção, criada por escravas alforriadas, ainda mantinha suas características originais. Da Irmandade, formada apenas por mulheres, somente participavam senhoras negras com idade superior a 40 anos, que cultuavam tanto os santos católicos com os orixás do candomblé. Todavia, com temor de atrair a ira da Igreja Católica, as irmãs sempre negavam qualquer envolvimento com a religião afro, mas, não era nenhum segredo, que o culto aos orixás se celebrava de maneira muito discreta e sigilosa, em cerimônias particulares quase secretas. O doutor Apolinário afirmava ainda que o padre Fernando Carneiro sabia disso e complementava:

“Como sacerdote experiente, conhecedor dos hábitos da Bahia e pároco de uma população de maioria negra, frequentadora dos templos católicos e dos terreiros, tem a sábia serenidade de fingir que desconhece o anverso da moeda. Esta postura é o que garante o equilíbrio da balança, com os dois lados religiosos mantendo uma saudável convivência, na santa paz da boa miscigenação e do sincretismo religioso”.

Oficialmente, a programação era exclusivamente católica, e disto fui testemunha. O primeiro ato foi encenado numa sexta-feira, dia 16 de agosto, com a Procissão do Enterro de Nossa Senhora, quando as irmãs, todas de traje branco e entoando cânticos, conduziram o andor, com o esquife de Nossa Senhora, até a Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, onde houve missa celebrada pelo Padre Fernando.

Na noite do sábado, à luz de archotes e ao som de uma marcha fúnebre, as irmãs saíram novamente em procissão, desta feita com um torso branco na cabeça e vestidas com uma beca preta, em sinal de luto. No domingo, o ponto alto das festividades, foi realizada a solene Procissão da Assunção em Glória de Nossa Senhora. As irmãs foram às ruas ricamente paramentadas e portando as valiosas jóias da secular Irmandade.

A outra festa religiosa importante era a da Padroeira de Cachoeira, Nossa Senhora do Rosário, com ponto culminante no primeiro domingo de outubro, que em 1957 caiu no dia 6, com uma grandiosa procissão conduzindo a imagem da santa pelas principais ruas da cidade. Antecedendo, foi celebrado um movimentado novenário, ao qual assisti compulsoriamente, levado pela dona Hilda. Após os ofícios na Igreja Matriz, aconteceram festejos de largo, com quermesses na rua ao lado da Igreja.

O jogo da despedida

O colega de sala Ivanildo da Silva Pereira, já rapaz com corpo de adulto, era goleiro do Floresta, time de futebol de São Félix. Um domingo, fui vê-lo jogar, numa partida em Cachoeira, contra uma equipe local, onde atuava o ponta esquerda Zé da Pêga, que fazia sua despedida, pois na segunda-feira viajaria para Salvador, onde assinaria contrato para jogar profissionalmente no Galícia.

Num lançamento em profundidade o Ivanildo saiu do gol para fazer uma arrojada defesa nos pés do Zé da Pêga. Ambos ficaram estendidos no gramado, mas quem levou a pior foi o atacante, que teve uma perna quebrada no choque contra a testa do goleiro. Em face da gravidade da fratura, o atleta foi levado para Salvador, donde chegou uma notícia que consternou os desportistas cachoeiranos e sanfelistas. Em consequência de uma gangrena, a perna do José dos Santos teve de ser amputada acima do joelho. Depois, ver o Zé da Pêga mutilado, andando de muletas, foi para mim um choque muito grande. Passei a encontrá-lo diariamente, pois lhe arranjaram um emprego no Ginásio Estadual da Cachoeira. Era o bedel da minha sala de aula.

Recomeço do curso ginasial

Se Cachoeira estava sendo uma festa para mim, nos estudos as coisas não andavam bem. Em dezembro saiu o resultado oficial. Das nove disciplinas, passei apenas em quatro: história do Brasil, desenho, trabalhos manuais e canto orfeônico. Em português, geografia, matemática, francês e latim não logrei aprovação. Em até duas matérias, permitiam-se exames de recuperação, a chamada ‘segunda época’. Como foram cinco, a reprovação do ano foi sumária, inapelável. O papai exasperou-se:

- Perdeu até português, matéria em que foi excelente aluno no curso primário. Perdeu também geografia, mesmo tendo tomado aulas particulares com a professora Yvonne Pereira!

Mamãe saiu em minha defesa, dizendo-lhe: “A culpa foi toda sua. Você não me ouviu quando lhe pedi para deixar ele terminar o primeiro ano no ginásio de Ubá. Transferiu o menino no meio do ano, para um outro estado com métodos de ensino diferentes. Ele sentiu, e o resultado não poderia ser outro”. Não se tocou mais no assunto, eu estava perdoado.

Em março de 1958, ano recomeço do curso ginasial, fui o de nº 29 na caderneta de chamada da 1ª Série C, composta de 34 alunos, finalmente uma turma com a presença feminina: Antônio Bonfim Santos Alves, Antônio Fernando Caldas, Antônio Santos Silva, Carlos Cirne Tranzilo, Carlos Roberto de Oliveira Lutigards, Dermeval Nunes de Cerqueira, Djalma Oliveira, Edmundo França de Souza, Egberto Emílio de Souza Melo, Erlhington Navarro Jones, Franklin de Souza Carneiro Filho, Gésia Miralva Evangelista Dias, Jacinto Mariano Pereira, José Raimundo dos Santos, Lucí Dalva Silva França, Lucíola Maria de Campos Cerqueira, Maria José Gonçalves da Silva, Martha Regina Costa Pinto, Miguel Viana Pereira, Norma Lídia Vaz de Almeida, Raildete Fernandes da Cruz, Raimundo Coelho de Souza Júnior, Raimundo Hipólito de Souza, Romário Costa Gomes, Rovenate Eleutério da Silva, Teresinha de Jesus Silva, Terezinha Maria da Silva Ferreira, Thelmo Gavazza Queiroz, Ubaldo Marques Porto Filho, Vanice Conceição Leite, Veralúcia Cerqueira Farias, Vera Lúcia Laranjeira de Oliveira, Virgílio Astério de Souza e Wera (com w) Lúcia de Melo Nascimento.

Na primeira aula de geografia, a professora Yvonne Peixoto Pereira, após dar as boas vindas e desejar sucesso aos calouros, endereçou um duro recado aos repetentes: - Quanto aos repetentes, destes não espero nada, serão sempre maus alunos. Só desejo que não sirvam de exemplo para os que estão iniciando a vida ginasial!

A professora Yvonne falou olhando fixamente na minha direção, como se eu fosse o único reprovado na classe, quando na verdade havia mais três em idêntica situação. O esculacho atingiu-me em cheio, fiquei com os brios feridos, razão pela qual tomei a decisão de exorcizar o estigma de repetente. Iria desmenti-la. Firmei gosto pelos estudos, queria ser o primeiro da turma, mas topei pela frente com um ‘cdf’ maior, o Thelmo Gavazza, aluno brilhante, dono das notas dez.

Onde a família residiu

Em Cachoeira, moramos inicialmente numa casa pequena, na Praça Maciel 17, mesma praça do Mercado Municipal e da feira livre que se realizava aos sábados. Num poste de iluminação pública, juntinho da varanda da entrada, ficava uma boca de som (corneta) do serviço de alto-falantes ‘A Voz de Cachoeira’, obrigando-nos a ouvir toda a programação. Da parte musical eu gostava, por causa dos sucessos selecionados pelo proprietário e locutor, Elias Cardoso, que sempre anunciava o nome da música e do intérprete. O povo chamava-o de Elias Pacopaco, apelido que ele abominava.

O Elias somente colocava músicas consagradas por cantores famosos, tais como Vicente Celestino, Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto, Orlando Dias, Jorge Goulart, Jorge Veiga, Ivon Curi, Anísio Silva, Linda Batista, Dircinha Batista, Nora Ney, Dolores Duran, Ângela Maria, Emilinha Borba, Marlene, Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira, Trio Irakitan, etc. Também apresentava os sucessos internacionais em espanhol, nas vozes de Pedro Vargas, Bienvenido Granda, Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Gregório Barrios, etc. Parece que o Elias não gostava de música americana, pois não se ouvia nada em inglês. O que dava para perceber é que ele era fã ardoroso de Francisco Alves, o ‘Chico Viola’, pois suas músicas eram executadas repetidas vezes ao longo da programação.

Desse elenco de ases do disco, eu teria o privilégio de ver cantando em Cachoeira o Vicente Celestino e o Cauby Peixoto, que se exibiram no Cine Glória. Assisti também o cubano Bienvenido Granda, alcunhado de ‘O Bigode que Canta’, num show público, na Praça da Aclamação.

Na Praça Maciel, esquina com a Rua Prisco Paraíso, ficava o Armazém Rosário, de secos e molhados, pertencente ao ex-prefeito Anarolino Pereira, o construtor do Mercado Municipal, irmão do deputado federal Augusto Públio Pereira. Era casado com Maria Augusta Peixoto Pereira (dona Santa), com quem teve 14 filhos, sendo seis mulheres. Duas trabalhavam no ginásio, Elvira (secretária) e Yvonne (professora) e duas estudavam no ginásio, Neuza e Maria Mercedes.

Na parte superior do sobrado que abrigava o Armazém Rosário moravam os primeiros amigos que fiz realmente em Cachoeira, os irmãos libaneses Riad e Nassim, filhos do senhor Salim Chemmas, que apesar de pouco tempo no Brasil já se constituía num próspero comerciante, proprietário de uma das melhores lojas de tecidos da cidade.

Em março de 1958, a nossa família já estava ocupando uma nova residência, num sobrado na Rua Prisco Paraíso 14. O imóvel pertencia à dona Loló, mãe do Fernando Bastos, colega do meu pai no Banco do Brasil e intermediário no aluguel. Tratava-se de um sobrado de 1889, com a parte residencial no pavimento superior, dispondo de uma sala de visitas com três sacadas para a rua, três quartos, sala de jantar, cozinha, sanitário, banheiro e uma pequena varanda provida de escada para o quintal, onde havia uma mangueira de frutos grandes e avermelhados.

No térreo ficava a entrada, a escada social, toda em madeira trabalhada, e uma sala com duas janelas para a rua, que meu pai reservou para as brincadeiras das meninas e que depois foi transformada numa sala de estudos, com um grande quadro negro. Na parte posterior do térreo existiam dois salões, um muito escuro, que servia como depósito, e outro que dava para o quintal, onde eu deixava a bicicleta que veio de Minas Gerais. Por último, a área de serviço, com o quarto da empregada, sanitário, lavanderia e banheiro. Havia também um grande reservatório de água, donde jorrava água em abundância, sob forte pressão. Era o meu banho preferido.

Bem defronte ao nosso sobrado, do outro lado da rua, também havia uma corneta do serviço de alto-falantes do Elias Cardoso. E tome-lhe música, o dia inteiro, com intervalos para os anúncios publicitários, avisos, notícias, etc, até às 19 horas. Uma das músicas mais tocadas era o samba canção ‘Devolvi’, na voz de uma cantora revelação, Núbia Lafayette, que enfeitiçou o Elias. Também marcante era a informação das horas, periodicamente anunciada de forma pomposa, na voz empostada do locutor. Um exemplo: “Na Cidade Heróica são exatamente 16 horas”.

Festa de São João

Capelinha de melão
é de São João
é de cravo, é de rosa
é de manjericão.

Essa quadrinha ressoava dos alto-falantes do Elias Cardoso, provenientes de um disco de músicas juninas, que eram tocadas com insistência abusiva, principalmente as de Luiz Gonzaga, o ‘Rei do Baião’, e de um grupo novo, o Trio Nordestino. Mas, havia uma justificativa para tanta música de forró, afinal o São João constituía-se na festa popular mais aguardada na cidade. Segundo diziam, tratava-se de uma tradição secular, conservada de um jeito bem familiar. Também cultivava-se a confraternização entre vizinhos e amigos, de visitas às casas dos conhecidos e até dos desconhecidos.

Finalmente, chegou o dia do meu primeiro São João em Cachoeira. Na noite de 23 de junho, o céu foi clareado por fogos de artifício em profusão. Encheu-se também de centenas de balões, soltos pelo povo de Cachoeira e São Félix. Nas ruas, o espetáculo ficou por conta das fogueiras, uma em cada porta de casa. Também pude ver o mutirão das pessoas, geralmente jovens, indo de casa em casa e indagando bem alto:

- São João passou aqui?

Antes mesmo de qualquer resposta, as pessoas entravam para beber e comer. Embora nossa família fosse recente na cidade, com poucas amizades, o nosso sobrado recebeu inúmeros visitantes. A sorte foi que a mamãe, informada do costume, fez uma substancial compra de milho verde, amendoim, laranja de umbigo, cana-mirim, aipim, massa puba, tapioca, etc. Enfim, abasteceu a casa na Feira do Porto, a abundante feira anual de produtos juninos. A mesa ficou farta e bem sortida de iguarias típicas e bebidas da época.

No dia 24, feriado de São João, o Brasil jogou na Suécia pela semifinal da Copa do Mundo. A seleção adversária, a França, entrou no gramado do Estádio Rassunda, em Estocolmo, como franca favorita. Afinal, vinha de goleadas arrasadoras e tinha em Fontaine o artilheiro do certame, com oito gols em quatro jogos. Mas, quem fez o primeiro gol foi o Brasil, através de Didi. O empate não tardou, justo pelos pés de Fontaine. Como também tínhamos um bom centroavante, Vavá fez 2x1. No segundo tempo, Pelé liquidou a fatura francesa, fazendo três gols. Piantoni deu números definitivos à goleada, 5x2. Passamos à final e iríamos decidir o título contra os donos da casa, os suecos.

Festa cívica

Com a vitória brasileira, o São João continuou em Cachoeira com muito foguetório, balões no céu, festas nas residências e novas fogueiras nas portas de muitas casas. No dia seguinte, feriado municipal, a festa entrou no terceiro dia consecutivo, agora com um evento cívico. Eu já sabia, através de leituras e de uma aula no Ginásio da Cachoeira, que o glorioso 25 de Junho remontava ao ano de 1822, quando, antecipando-se ao Grito do Ipiranga, a Câmara da rica e poderosa Cachoeira oficializou o rompimento com a Corte de Lisboa ao proclamar o príncipe D. Pedro como ‘Regente e Perpétuo Defensor e Protetor do Brasil’. No momento em que o povo vibrava nas ruas, uma canhoneira portuguesa, que se encontrava apoitada defronte ao porto, rompeu fogo contra o centro da cidade. Em meio ao bombardeio, morreu o soldado Soledade, que assim se constituiu na primeira vítima brasileira nas lutas pela Independência.

Os cachoeiranos lutaram bravamente até conseguir tomar a belonave inimiga e aprisionar o comandante Duplaquet. Estes acontecimentos desencadearam um amplo processo de reação armada contra as tropas portuguesas sediadas na Bahia. Cachoeira liderou as iniciativas preliminares, pois daí partiram as primeiras milícias formadoras do Exército Libertador que, no ano seguinte, a 2 de julho de 1823, entrou triunfalmente em Salvador, pondo um ponto final no longo domínio lusitano.

Pela intrepidez e coragem dos cachoeiranos, em 13 de março de 1837, através da Lei Provincial nº 43, Cachoeira foi distinguida com o título honorífico de ‘Heróica”, o reconhecimento oficial do Império ao seu destacado papel nos episódios que culminaram na Independência. Sem o 25 de Junho em Cachoeira não haveria o 7 de Setembro em São Paulo, que se transformou na data magna nacional, e nem o 2 de Julho em Salvador, a data magna baiana. As duas últimas foram, portanto, geradas pelo 25 de Junho de 1822.

No dia 25 de junho de 1958, a ‘Heróica Cidade de Cachoeira’ amanheceu sob alvorada de um intenso foguetório, primeiro item da agenda que traduziria todo o orgulho patriótico do povo cachoeirano. Houve Sessão Solene na Câmara Municipal e um Te-Deum celebrado na Igreja Matriz pelo padre Fernando Carneiro.

Tendo a frente as autoridades, lideradas pelo prefeito Stênio Burgos, realizou-se um pomposo cortejo com a participação de entidades civis, religiosas, militares e estudantis. Desfilaram membros da Maçonaria, das congregações religiosas, o Tiro de Guerra, os pracinhas da FEB, as filarmônicas Lira Ceciliana e Minerva Cachoeirana, os estudantes das escolas primárias Ana Neri e Montezuma e o Ginásio Estadual da Cachoeira com todos os seus mais de 300 alunos, puxados pela sua banda marcial, que treinou durante três meses para a apresentação de gala.

Da programação cívica constou ainda a partida para Salvador da tocha do ‘Fogo da Independência’, enquanto que o Carro do Caboclo permaneceu na Praça da Aclamação, em exposição pública.

Final da Copa do Mundo

No dia de São Pedro, 29 de junho, que caiu num domingo, a cidade amanheceu engalanada, com bandeirolas verde-amarelas, a espera do jogo contra a Suécia. O clima de otimismo contagiava, mas havia os temerosos, que perguntavam:

- Se em 1950, jogando em casa, por um empate, e fazendo 1x0, o Brasil tomou uma virada e perdeu o título para o Uruguai, será que agora, lá longe, no terreiro dos gringos, vamos ganhar?

Logo no início da partida, aos quatro minutos, Liedholm ressucitou o fantasma do Maracanã, fazendo o gol que calou os brasileiros diante do rádio. Era também a primeira vez que, nesta Copa, o Brasil ficava em desvantagem no placar. Mas a atmosfera derrotista demorou pouco, foi desanuviada por Vavá, que nos levou ao empate e ao desempate, terminando o primeiro tempo com a nossa seleção vencendo por 2x1, razão para um foguetório ensurdecedor.

O segundo tempo foi tranquilo, Pelé fez 3x1, Zagalo 4x1 e Simmonsson 4x2. No finalzinho, quando o povo comemorava o título inédito, Pelé fez o último gol da Copa. Repetiu-se no mesmo Estádio Rassunda, na capital sueca, a mesma goleada contra a França. O time campeão alinhou com Gilmar; Djalma Santos e Belini; Orlando, Zito e Nilton Santos; Garrincha, Didi, Vavá, Pelé e Zagalo.

As comemorações em Cachoeira foram indescritíveis, num misto de festa junina e carnavalesca. As ruas ficaram cheias, muitas pessoas bêbadas de tanto licor, centenas de outras soltando bombas, foguetes e rojões. Em plena luz do dia, o tráfego aéreo ficou congestionado com tantos balões e com o vento soprando para as bandas de Muritiba, o espetáculo das ondas de balões transpondo o Rio Paraguaçu foi sensacional. Meu pai, que se encontrava no Maracanã quando o Brasil perdeu o título de 1950 para o Uruguai, soltou pelo menos uns 20 balões.

Política

Testemunhei em Cachoeira a realização de memoráveis comícios, verdadeiras festas populares, em paz e sem violência. Nos palanques armados na Praça da Aclamação, bem defronte do histórico Paço Municipal, assisti pregações políticas de Juracy Magalhães, da União Democrática Nacional (UDN), de José Farani Pedreira de Freitas, do Partido Social Democrático (PSD) e de Tarcílo Vieira de Melo, do Partido Democrata Cristão (PDC), os três candidatos ao governo do Estado.

O semanário ‘A Cachoeira’, único jornal da cidade, fazia uma sistemática campanha em favor do grupo liderado pelo deputado federal Augusto Públio Pereira. No último domingo de setembro, dia 29, circulou estampando o já conhecido ‘Placar Eleitoral’, mostrando que o time no poder não perdia há sete eleições consecutivas. Imodesto, informava:

“O PSD de Cachoeira, invicto, pujante e glorioso, tem as seguintes vitórias obtidas com a ajuda deste jornal: venceu em 14 de setembro de 1934; em 15 de janeiro de 1936; em 2 de dezembro de 1945; em 19 de janeiro de 1947; em 21 de dezembro de 1947; em 3 de outubro de 1954; e vencerá em 3 de outubro de 1958”.

Nesta última edição antes das eleições, o jornal conclamou o povo a votar corretamente, nos seguintes candidatos do PSD:


Para vereador o jornal relacionou os nomes dos 21 candidatos pela coligação PSD/PTB e pediu que fosse escolhido um deles.

No dia das eleições, uma segunda-feira, a cidade fervilhou de movimentação entre os adeptos das duas correntes partidárias, encabeçadas pelo PSD e pela UDN. O comitê de Augusto Públio, prócer que capitaneava o invencível partido da situação e grande líder do Vale do Paraguaçu, funcionava na Rua Prisco Paraiso 8, terceira casa antes da nossa. Em lá entrando, vi bem de perto o homem que, quando no exercício da presidência da Assembléia Legislativa da Bahia, tinha sido governador interino em diversas oportunidades. Educado, alto, magro, calvo e de pele bem alva, encontrava-se elegantemente vestido com um terno branco, que diziam ser a sua marca registrada.

O resultado do pleito foi devastador para o doutor Augusto Públio. Não foram eleitos seus candidatos para governador, senador, deputado estadual e prefeito. O irmão Anarolino perdeu para Julião Gomes dos Santos, que se transformou no primeiro prefeito negro de Cachoeira. O próprio Augusto Públio não conseguiu se reeleger, pois ficou na primeira suplência de deputado federal.

Como se chegava ou se saía de Cachoeira

Cachoeira comunicava-se com a capital, ou melhor, com a ‘Bahia’, conforme o povo denominava Salvador, por três itinerários:


Viagem no vapor de Cachoeira

A minha estréia na via fluvial-marítima foi no sentido Cachoeira-Salvador. Descobri um percurso esplêndido, com seis horas de duração, a bordo do Paraguaçu, um navio grande, que transportava cargas e pessoas, com capacidade para 1.500 passageiros, divididos em duas classes. O Paraguaçu fez escalas em Maragogipe e São Roque, paradas festivas, com muita gente nos cais e vendedores de frutas, doces, peixe frito, abarás, acaçás e sanduíche de camarão. Houve também três paradas rápidas, sem atracamentos, defrontes às localidades de Coqueiros, Nagé e Barra do Paraguaçu, para o embarque de passageiros que chegavam em canoas.

O percurso pelas águas tranquilas e turvas do Rio Paraguaçu constituiu-se numa viagem cheia de atrativos de encher os olhos. Nas margens, viam-se extensos manguezais e ocasionais vestígios das propriedades açucareiras, como as ruínas do Engenho Velho e do Engenho da Vitória. Até uma fortaleza apareceu. Chamava-se Fortim Salamina, já em desuso, mas ainda exibindo a silueta de um canhão. No Lagamar do Iguape o rio era tão largo que dava a impressão de se ter entrado num mar de águas escuras.

Na foz o espetáculo ficou por conta das dezenas de botos que passaram a escoltar o navio até o seu ingresso nas águas azuis da Baía de Todos-os-Santos. Na chamada ‘meia-travessa’, a tranquilidade acabou, o mar estava revolto, o navio começou a jogar, o balanço provocou vômitos em algumas pessoas. Embora marinheiro de primeira viagem, não fiquei enjoado, sendo aprovado no batismo marítimo.

Filarmônicas

As apresentações das filarmônicas Lira Ceciliana e Minerva Cachoeirana fascinavam com seus dobrados, hinos e marchas. Elas dividiam a preferência do público, pois havia torcidas, tal como no futebol, mas sem vaias ou apupos de uma facção para outra.

Ver as filarmônicas desfilando e tocando pelas principais artérias da histórica cidade era um espetáculo indescritível. Incorporei-me aos cortejos que acompanhavam as filarmônicas até elas se recolherem em suas sedes.

O grande incêndio

Ao entardecer do dia 15 de novembro de 1959, um domingo que terminava de forma pachorrenta, correu a notícia de um incêndio em São Félix. Dirigi-me à Avenida Paraguaçu, já com centenas de outros curiosos assistindo o fogaréu que, no outro lado do rio, na Avenida Salvador Pinto, devorava um grande armazém de fumo, que havia pertencido à Dannemann, extinta produtora de charutos.

Foi solicitado socorro a Salvador, que enviou uma viatura do Corpo de Bombeiros, que chegou de madrugada, quando nada mais podia fazer, a não ser jogar água nos escombros. Veio também um repórter-fotográfico de A Tarde, que estampou uma foto na primeira página e informou:

“Foi o maior incêndio já assistido na cidade de São Félix, só ficou de pé o esqueleto do prédio. Mais de 60 toneladas de fumo consumidas pelas chamas”.

Pela primeira vez vi um incêndio, que proporcionou um espetáculo fantástico, parecia uma fogueira gigantesca, que clareou o céu e refletiu uma fulgurante luminosidade nas águas do rio. Fiquei impressionado com a grandiosidade das labaredas, a devorar impiedosamente o imóvel construído com muita madeira e que continha centenas de fardos de fumo, um produto de fácil combustão espontânea. Dias depois, num dever para a disciplina português, fiz a crônica do incêndio, intitulada ‘O Fogo’. A professora Luiza Lima, irmã de Mateus Aleluia Lima, meu colega de classe assim que cheguei de Minas Gerais, além da nota dez fez uma observação:

- Você tem veia narrativa!

Foi o primeiro elogio que recebi, despertando-me a atenção para o foco das dissertações. Passei a me dedicar com mais afinco às leituras de artigos publicados nas revistas e jornais, para poder enriquecer e aprimorar o vocabulário. Recordo-me inclusive de que numa viagem, para passar um feriadão em Salvador, levei um pequeno dicionário escolar de sinônimos, que li e reli durante as seis horas que passei a bordo do navio. O mesmo procedimento adotei no regresso a Cachoeira, pela via férrea.

Grêmio Castro Alves

No início do ano letivo de 1961, o Anarolino Peixoto Pereira, conhecido como Pereirinha, um rapaz extrovertido e benquisto, candidatou-se à presidência do Grêmio Castro Alves e colocou o meu nome na chapa, como secretário. Em campanha, todos os integrantes o acompanhavam de sala em sala. Como líder, o Pereirinha era o único a discursar, vendendo o peixe aos colegas eleitores. Eu achava engraçado quando ele garantia com firmeza:

- Caso eu seja eleito, prometo que o Grêmio vai construir a Piscina do Ginásio!

Lógico que a promessa era impossível de ser comprida pelas dificuldades da época, quando se sabia que na região sequer havia uma piscina. Mas, nas veias do Pereirinha corria o sangue da política, herança do pai, Anarolino Theodoro Pereira, ex-prefeito de Cachoeira, e do tio, Augusto Públio Pereira, ex-deputado federal, falecido em 26 de novembro de 1960.

A apuração dos votos teve lances emocionantes. A nossa chapa ganhou por uma diferença de apenas quatro votos. O marketing da piscina funcionou como fiel da balança, um golpe de mestre do Pereirinha.

Conclusão do curso ginasial

A comissão dos concluintes do curso ginasial, que vinha fazendo promoções e arrecadando mensalmente uma contribuição para a festa da formatura, programou uma viagem pela via rodoviária, recém-inaugurada, toda asfaltada, que se transformou numa grande novidade, pois Salvador passou a ficar a apenas uma hora e meia de viagem, contra as seis horas num navio ou trem. Agora, podia-se ir à capital e voltar no mesmo dia.

Por isso, a comissão da formatura organizou um passeio para Itapuã, o famoso local cantado em prosa e verso pelo Dorival Caymmi. Foi alugado um ônibus para a turma passar um dia desfrutando das delícias de um banho de mar. Para mim não havia nenhum atrativo turístico, pois conhecia de sobra o recanto imortalizado pelo cancioneiro da Bahia.

Mas, acompanhei a comitiva, pois queria estar no farrancho e, principalmente, satisfazer a curiosidade de ver as colegas de maiô. Nunca as tinha visto sem as saias que passavam dos joelhos. Até a farda era austera, cobria tudo.

O passeio aconteceu numa quinta-feira, feriado do 7 de setembro. Foi maravilhoso, com muitas brincadeiras. Em Itapuã, as colegas puderam, finalmente, revelar seus atributos para uma platéia masculina ávida por descobertas. Algumas decepcionaram, outras agradaram em cheio com a exuberância de seus dotes físicos.

No dia 17 de dezembro de 1961, um domingo, foram realizadas as solenidades da formatura dos concluintes do curso ginasial. O primeiro ato aconteceu às 18 horas, na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Rosário, com missa solene celebrada pelo padre Fernando de Almeida Carneiro. Da Igreja fomos todos, estudantes, familiares, convidados e professores, para o Ginásio Estadual da Cachoeira, local da entrega dos certificados, o momento supremo. O professor de francês e diretor, Francisco Rosier da Silva, foi o nosso paraninfo, enquanto o colega Virgílio Astério de Souza fez o discurso como orador oficial dos formandos. Tive a satisfação de ver o meu nome incluído no Quadro de Honra ao Mérito, por ter sido classificado entre os melhores alunos que o Ginásio teve nos últimos quatro anos.

Formandos da Turma A: Anarolino Peixoto Pereira, Ana Rita Costa, Antônia Maria Oliveira, Arivaldo Vieira de Queiroz, Arlinda Pazos, Carlos Cirne Tranzilo, Carlos Roberto Cruz, Dalva Ribeiro de Matos, Dermeval Nunes de Cerqueira, Ederlita Ribeiro, Edna Pereira Tosta de Souza, Edson Jones, Edvaldo de Assis, Egberto Emílio de Souza Melo, Emiréia Bacelar, Evandete Nunes, Evandira de Souza, Helina dos Anjos, Hildredes Silva, Iraci Fernandes da Conceição, Ivete Amaral, João Pereira Coutinho, Jorge Dias, Lindinalva Ferreira, Lisiana de Souza, Luci Dalva Silva França, Lucíola Maria de Campos Cerqueira, Luzia Lisboa e Onélia Cristina Marques.

Formandos da Turma B: Edmundo França de Souza, José Mescenas Pereira, Julita dos Santos Lima, Maria da Conceição, Maria Lúcia Santos, Marilene Machado, Marina Marques, Mário Rubem, Marlene Barreto, Marlene Menezes Lopes, Marlene Ramos Veloso, Martha Regina Costa Pinto, Moema Nunes Brandão, Nelzia Uzeda, Nelson Crisóstomo, Osvalda Pereira, Pedro Alves, Pedro Paulo Rangel, Raimundo Coelho de Souza Júnior, Rosália dos Santos Fraga, Sidnéia Pereira, Thelmo Gavazza Queiroz, Terezinha de Jesus Silva, Ubaldo Marques Porto Filho, Vera Lúcia Laranjeira de Oliveira, Virgílio Astério de Souza, Wellington Santos Figueiredo, Wera Lúcia de Melo Nascimento, Walter Barreto e Zuleica dos Santos.

Professores: Luiza Lima (português), Leônidas Fernandes Leão (latim), Nelson Alves da Silva (francês), Josenice Batalha de Oliveira (inglês), Adailton Oliveira Sampaio (matemática), Iolanda Pereira Gomes (geografia do Brasil), Francisco Ernesto de Oliveira (desenho), Diva Maria Marques Brugni (história geral), Fernando Moura Medrado (história do Brasil), Maria Helena de Freitas Falcão (canto orfeônico), Carlito Pinto Brito (educação física) e Raimundo Rocha Pires (ciências naturais). Esse último era o Pirinho, jovem dentista, prefeito de São Félix.

Os Tincoãs

Um colega de sala no Ginásio Estadual da Cachoeira, Heraldo Costa Bouzas, que era alguns anos mais velho do que eu e filho do dono do Hotel Colombo, formou com mais dois amigos, Grinaldo Salustiano dos Santos (Dadinho) e Erivaldo Souza Brito, um trio musical que começou se apresentando em festinhas nas cidades de Cachoeira, São Félix e Muritiba. Os três vocalistas, que também eram instrumentistas, com Heraldo na maracas, Dadinho no violão e Erivaldo no timbau, seguiam a receita de dois trios famosos, um mexicano e outro brasileiro, que interpretavam boleros de sucessos nas décadas de 1940 e 1950. 

Em 1960, já conhecidos na região do Paraguaçu, Os Tincoãs, como eram chamados, foram participar da ‘Escada para o Sucesso’, um programa na TV Itapoan, comandado por Nilton Paes. Obtiveram o primeiro lugar, conquistaram Salvador e foram tentar a sorte no Rio de Janeiro, passagem obrigatória para o estrelato nacional.

No Sul tiveram um relativo êxito, o que lhes ensejou a gravação, em 1961, do primeiro disco, intitulado ‘Meu Último Bolero’, que não fez sucesso de venda. Em que pese a harmonia das vozes, o trio não tinha identificação própria. Por julgar que se tratava de um papel carbono do Trio Los Panchos e do Trio Irakitan, a crítica especializada ignorou a presença dos baianos no mercado fonográfico.

Em 1963, desiludido com a carreira artística, Erivaldo retirou-se do grupo, abrindo vaga para Mateus Aleluia Lima, que era cantor, músico e compositor. Ele chegou com um novo conceito musical. Ao invés dos antigos boleros e das músicas surradas por outros cantores ou grupos musicais, Mateus introduziu um repertório inédito, inspirado na musicalidade afro-baiana, com cantigas provenientes dos rituais religiosos, dos cantos do candomblé e dos sambas de roda, temáticas muito presentes na formação dos rapazes cachoeiranos.

Tendo como base quatro instrumentos (violão, atabaque, agogô e cabaça) e com músicas compostas por Mateus Aleluia e Dadinho, o trio renasceu com uma identidade própria. Em 1973, o grupo gravou um elepê que se tornaria antológico, tendo no título o nome do trio - Os Tincoãs. O sucesso nacional foi imediato.

Em 1975, Heraldo foi substituído por Morais, que ficou pouco tempo, entrando em seu lugar Getúlio de Souza (Badu). Por último, o trio virou dupla, com Dadinho e Mateus. Com o falecimento de Dadinho, em 2000, Mateus acabou com Os Tincoãs, que deixaram uma longa discografia.
 


Capa do disco lançado em 1973, com Dadinho, Heraldo e Mateus.
Os dois últimos foram meus colegas de sala no Ginásio Estadual da Cachoeira.