Chegada ao Rio Vermelho

Ubaldo Marques Porto Filho,

 

As lembranças mais remotas que guardo do Rio Vermelho datam do verão de 1952. Meu pai trouxera a família de Jequié, onde estávamos morando, para passar as férias no casarão da vovó Júlia, localizado no início do Corredor da Vitória, onde, por muitos anos, tinha sido a sede do Clube Alemão.

Como gostava de praia, papai sempre colocava a meninada - eu e meus irmãos Ênio, Áime e Ivanira, todos fluminenses, nascidos em Cantagalo - no seu Ford preto e saía para passeios inesquecíveis, que começavam pelo Corredor da Vitória, onde avultavam as mansões aristocráticas, e seguiam o seguinte itinerário: Ladeira da Barra, com os magníficos palacetes; Porto da Barra, com a repentina visão do mar e de uma fortaleza; Farol da Barra, com o Edifício Oceania do outro lado, início da belíssima Avenida Oceânica.

Após um trecho despovoado, passava-se por Ondina, pouco habitada, até se chegar ao Rio Vermelho, que parecia uma cidadezinha. Depois, surgia o Quartel de Amaralina e uma fileira de casas à beira mar, até o Largo de Amaralina, o longínquo e último rincão servido pelos bondes, que exerciam sobre mim uma especial atração, embora nunca tivesse entrado num deles.

E o carro continuava a viagem, de forma lenta, para que pudéssemos ver tudo que o papai ia relatando, como se fosse um guia turístico. Pituba e Bico de Ferro também tinham poucas construções. Daí para cima tudo deserto, somente a pista asfáltica rasgando o litoral: à direita o azul do mar e as praias desertas do Chega Nego, Armação, Boca do Rio e Piatã, e, margeando o lado esquerdo o verde do coqueiral e as mechas de areia branca, alvíssima como neve.

Finalmente, o automóvel chegava em Itapuã, uma pequena vila de pescadores com algumas casas de veranistas. Aí, tirávamos fotografias, tomávamos banho de mar e brincávamos com os ossos de baleia desleixadamente abandonados na praia.

Estas são as mais antigas imagens gravadas quando eu tinha apenas sete anos de idade. Recordo-me ainda de que ao trafegar pelo Rio Vermelho meu pai ia apontando: ‘Aqui termina a Avenida Oceânica, esta é a Garganta da Paciência, ali é a Igrejinha de Sant’Ana, aquela é a Casinha dos Pescadores, isso é um Forte abandonado e aqui é o Largo da Mariquita.

Visita à casa de um amigo no Rio Vermelho

Até o verão de 1954, o ritual de passar as férias em Salvador foi cumprido. E foi numa destas vindas que pela primeira vez pisei de fato no Rio Vermelho. Foi durante uma visita que meu pai fez a um amigo de infância, o engenheiro Antônio Almeida de Souza Filho, a quem chamava de Antonito. Levou toda a família à sua residência, na Rua Ilhéus 5, no Loteamento Parque Cruz Aguiar. Da visita, retenho a lembrança de seus dois filhos mais velhos, Ronald e Renato, da rua mal iluminada e do barulho do bonde passando pela linha do Rio Vermelho de Baixo, cortando a escuridão e abafando a sinfonia dos sapos.

Como menino atento às conversas dos adultos, ouvi meu pai falar com o Antonito que o Rio Vermelho era um bairro que tinha ligações com seus parentes pelo lado dos Mesquita, pois a mãe dele, ou seja, a vovó Júlia, quando solteira, havia frequentado o bairro nos período dos veraneios da sua família. Talvez essa tenha sido a razão motivacional para o meu pai, pouco tempo depois, comprar uma casa no Rio Vermelho, justo no Parque Cruz Aguiar, perto do amigo Antonito.

De volta ao Rio Vermelho

Depois de uma temporada residindo em Ubá, Minas Gerais, a nossa família mudou-se para Cachoeira, no Recôncavo da Bahia, aonde chegou no segundo semestre de 1957. Para as férias do verão de 1958, o meu pai alugou uma casa no bairro da Ribeira, onde aprendi a nadar, na Praia do Bogari, superando o trauma do início de um afogamento em Ubá, na piscina da Praça de Esportes Levindo Coelho.

Um dia, papai levou-nos ao Rio Vermelho, para mostrar a casa que havia comprado no Parque Cruz Aguiar. Ficava numa rua enladeirada e com muitos terrenos baldios. Ficamos sabendo que o inquilino estava prestes a entregar as chaves e o velho informou: “A partir de julho, todas as férias serão aqui!”.

Exatamente no dia 1º de julho de 1958, chegamos para nos instalar no número 13 (atual 188) da Rua Alagoinhas. Logo, descobri que tínhamos um vizinho ilustre, o pianista suíço Jean Sebastian Benda, que habitava a casa 33, a primeira após a nossa, separadas por um amplo terreno baldio. O Rio Vermelho passaria então a ser o local das férias escolares de julho e de dezembro a fevereiro. Nos demais meses, a casa permaneceria fechada, uma vez que morávamos em Cachoeira.

Na tarde imediata à minha chegada ao Rio Vermelho, uma quarta-feira, feriado do Dois de Julho, data magna da Bahia, fui ao Estádio da Fonte Nova assistir o Ypiranga, time do Rio Vermelho e do meu pai, enfrentar o Esporte Clube Bahia. ‘O Mais Querido’, como era chamado o Ypiranga, fazia uma brilhante campanha no campeonato baiano e a grande atração do jogo era o beque central Juvenal Amarijo, o famoso Juva da Copa do Mundo de 1950, recentemente contratado. Pela primeira vez ele jogaria contra o seu ex-clube e se saiu muito bem, pois os ‘Canários’, outro designativo do Ypiranga, abateram os tricolores de forma categórica e sensacional, por dois a zero, com gols de Raimundo e Luciano. O técnico era Sotero Monteiro e o aurinegro alinhou com Aloysio; Pequeno e Juvenal; Raimundo, Luciano e Amor; Pinga, Zeca, Antônio Mário, Joãozinho e Raimundinho. O Bahia foi a campo com Nadinho; Bacamarte e Henrique; Pernambuco, Haroldo e Vicente; Marito, Vassil, Hamilton, Otoney e Olício.

Embora concluísse a sua participação de forma invicta, o Ypiranga ficou igualado ao Bahia em número de pontos ganhos. Houve então a necessidade de um jogo extra para decidir o título do primeiro turno do campeonato de 1958. Foi marcado para 27 de julho, último domingo do mês, e novamente compareci para torcer pela agremiação do meu bairro. Os Canários entraram em campo com a mesma formação da partida anterior e perderam. Com um gol de Hamilton, o ‘Esquadrão de Aço’ aplicou um gude-preso no aurinegro e sagrou-se campeão do primeiro turno. Foi o segundo domingo que saí triste da Fonte Nova, pois no anterior o Bahia havia vencido, também pelo escore mínimo, o meu time, o Vitória, campeão baiano de 1957.

O Rio Vermelho guardava muitas relíquias arquitetônicas, constituindo-se num repositório de palacetes e fileiras de sobrados e casas antigas. As ruas eram calçadas com paralelepípedos. Asfalto só na Avenida Oceânica. A Avenida Vasco da Gama possuía apenas uma pista, pavimentada com blocos de cimento. O bairro também era pródigo em boas praias, que se alinhavam, a partir de Ondina, na seguinte ordem: Sereia, Avenida (atual Paciência), Santana, Forte, Mariquita e Buracão.

Festejos do Rio Vermelho

No início de agosto, regressei à Cachoeira, de onde voltaria na segunda quinzena de dezembro. Aí, novas descobertas, como a entrada em operação o Serviço de Alto Falantes Senhora Santana, também chamado de ‘A Voz do Rio Vermelho’, que anualmente funcionava no período do verão, como suporte às grandiosas festividades religiosas e populares, que movimentavam o bairro até à véspera do Carnaval. Eis a programação da fase final de um calendário que começou com o Natal:

 FESTEJOS DO RIO VERMELHO
Programação Oficial de 1959

23 de janeiro (sexta-feira)

  • Última Apuração e Coroação da Rainha
  • Início da Novena de Senhora Sant’Ana

25 de janeiro (domingo)

  • Banho de Mar à Fantasia
  • Desfile do Bando Anunciador

31 de janeiro (sábado)

  • Noite dos Ternos e Ranchos

1º de fevereiro (domingo)

  • Dia Dedicado à Santa Padroeira
  • Procissão de Senhora Sant’Ana (à tarde)

2 de fevereiro (Segunda-Feira Gorda)

  • Lavagem da Igreja
  • Presente da Mãe D’Água
3 de fevereiro (terça-feira)
  • Entrega do Ramo

 

Os ‘Festejos do Rio Vermelho’, título que reunia as partes religiosa e popular, eram organizados por uma Comissão de Juízes, formada por paroquianos de conceito. Tendo como marco regulador o Carnaval, o calendário era móvel. Eis os itens tradicionais da programação popular, que tinha a aprovação da Paróquia e que pude testemunhar em 1959: 

As constantes idas e vindas do Recôncavo, sucederam-se até a conclusão do curso no Ginásio Estadual da Cachoeira. Como não havia curso de nível médio em Cachoeira, matriculei-me num estabelecimento localizado no Rio Vermelho que, coincidentemente, iria inaugurar o curso científico em março de 1962. Quando minha família viajou para Cachoeira, fiquei morando sozinho na casa da Rua Alagoinhas e passei a estudar no Colégio Estadual Manoel Devoto.

Osvaldo Fahel

Quando eu estava na faixa dos 14 anos, conheci um radialista que fazia serestas no bairro. Chamava-se Osvaldo Fahel e diziam ter sido namorado de uma das moças mais bonitas do Rio Vermelho, uma loura, filha do famoso Mica, que tinha sido Rainha dos Festejos de 1954.

Em 1963, Osvaldo Fahel ficou famoso como cantor. Sua música ‘Morena do Rio Vermelho’, incluída em seu primeiro disco, fez um estrondoso sucesso e o transformou num intérprete profissional, levando-o inclusive a abandonar a profissão de radialista, pois passou a fazer shows pelo Brasil e depois no exterior.

Em 1982, encontrava-me em Alagoinhas, interior da Bahia, quando passou pela rua um veículo da Torres Som anunciando um show de Osvaldo Fahel no Alagoinhas Tênis Clube. Eu era dono de uma pequena editora que tinha sido contratada para criar e editar um periódico para a Prefeitura, chamado Alagoinhas Jornal do Município, para circular quinzenalmente. Uma parte era distribuída gratuitamente e outra vendida em seis bancas de revistas. Como responsável pelo comando do jornal, toda semana eu passava um ou dois dias em Alagoinhas. No dia em que ouvi o anúncio saindo do carro de som, resolvi pernoitar na cidade somente para assistir a apresentação do Fahel, pois nunca o tinha visto cantando fora do vídeo da televisão. 

Ao ir comprar o ingresso, dei de cara com o vereador Newton Pimentel Sampaio, presidente do clube e meu conhecido, que foi logo dizendo: “Você não vai comprar ingresso, você é meu convidado especial e vai ficar na minha mesa”.

Quando entrei no clube, verifiquei que se tratava de uma festa dançante, sob os acordes do conjunto do Fahel. Um crooner comandava o espetáculo até que, depois da meia noite, a grande estrela, o Osvaldo Fahel, entrou em cena na etapa final da festa. Depois de umas seis músicas, o público começou a pedir por ‘Morena do Rio Vermelho’. E ele teve de repetir mais duas vezes o maior sucesso do seu vasto repertório.

No final do show fui conversar com ele e disse que tinha ficado impressionado com a preferência do público por ‘Morena do Rio Vermelho’. Ele respondeu: “Sempre é assim, se eu demorar de cantar, e o faço de propósito, o povo começa a pedir. E tem mais, recebo no palco dezenas de bilhetinhos pedindo pela música do nosso bairro”.

Foi a última vez que estive pessoalmente com o Fahel. Em 1990, quando estava finalizando o texto do livro ‘Rio Vermelho’, eu me propus a tentar desvendar o mistério que cercava a fonte inspiradora de ‘Morena do Rio Vermelho’. Sabia por entrevistas que tinha lido, que o autor se negava a revelar o nome da morena inspiradora da sua música. Como conhecia Geraldo Marron, o último crooner do conjunto de Fahel, perguntei-lhe se tinha conhecimento de algum fato e ele respondeu: “Ninguém sabe de nada, o Osvaldo desconversa quando se toca nesse assunto. Telefone para ele, quem sabe se com você ele se abre”.

Resolvi telefonar, mas antes arquitetei um plano em que a Loreto, uma bela morena que havia morado no Rio Vermelho, seria colocada como isca. Iniciei a conversa telefônica comunicando-lhe que estava concluindo um livro sobre a história do Rio Vermelho, onde encaixaria a letra de ‘Morena do Rio Vermelho’, para em seguida pedi-lhe que cantarolasse a música bem devagar, a fim de que eu pudesse conferir a letra em meu poder. E ele o fez. Em seguida, entrei direto no que realmente queria, dizendo:

- Fahel, como se trata de um livro de resgate da memória do Rio Vermelho, eu gostaria de registrar a fonte inspiradora da música. Quem foi a morena?
-  Isso eu não digo não, é um segredo que nunca revelei!
- Nesse caso, eu vou colocar a versão que corre pelo Rio Vermelho!
- E qual é versão que corre pelo Rio Vermelho?
- Que a musa inspiradora foi a Loreto, que você conheceu!
- Conheci sim, mas não foi ela. Não coloque isso no livro para não oficializar uma inverdade!
- Então vamos oficializar a verdadeira musa!
- Ubaldo, a questão é a seguinte, a musa inspiradora foi minha namorada. Eu compus a música quatro anos depois do rompimento do namoro, quando ela já estava casada com outro. Sempre julguei que ficava muito chato, em virtude do sucesso da música, eu revelar o nome dela. Poderia haver constrangimentos para o casal com a imprensa fazendo sensacionalismo.
- Fahel, já se passaram 27 anos, não haverá mais sensacionalismo. Ademais, eu não estou escrevendo para jornal ou revista. Trata-se de um livro, onde o registro será discreto. Inclusive, submeto o texto à sua prévia aprovação!
- Não, não precisa me mostrar, eu confio em você. Mas veja lá como vai escrever isso. Volto a repetir, eu não quero criar nenhum embaraço para a família dela. A minha inspiração foi a filha do Mica!

O Mica tinha três filhos, dois homens e uma mulher, que se chamava Regina Pereira de Mello, que ao se casar ficou sendo Regina de Mello Padilha. Aí fiz uma observação:

- Fahel, a Regina não era morena, como se explica isso?
- Como loura não dava rima, tive de transformá-la numa morena. Mas a cor de seus olhos, verdes, foi mantida na letra!

Inseri a revelação inédita de uma forma bem discreta (está na página 194 do livro) e num outro telefonema, quando li o texto, ele disse que estava bom e informou que fazia questão de estar presente no lançamento, bastando apenas que eu o avisasse com alguma antecedência, por causa da sua agenda de shows. 

Logicamente que eu escolheria um dia em que ele não tivesse nenhum compromisso agendado. Mas não pude combinar a data por causa do AVC que levou Fahel ao falecimento, aos 56 anos, no dia 7 de novembro de 1991. O livro foi lançado 43 dias depois, em 20 de dezembro, na Biblioteca Juracy Magalhães Júnior, no Rio Vermelho. 

MORENA DO RIO VERMELHO

Morena bela do Rio Vermelho
Teu lindo olhar é um espelho
Morena
Onde vejo o luar.

Tu tens nos olhos o verde do mar
E no verde mar dos teus olhos
Morena
Eu queria me afogar
Morena.

Quisera ser um chorão
Cantar minhas mágoas
Numa canção.

E viver e morrer prisioneiro
Entre as paredes
Do teu coração

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Morena bela do Rio Vermelho
Teu lindo olhar é um espelho
Morena
Onde vejo o luar.

Tu tens nos olhos o verde do mar
E no verde mar dos teus olhos
Morena
Eu queria me afogar
Morena.

Quisera ser um chorão
Cantar minhas mágoas
Numa canção.

E viver e morrer prisioneiro
Entre as paredes
Do teu coração

Morena
Morena
Morena
Morena.
                      Osvaldo Fahel, 1962
 


O cantor, já famoso, e o nome da música que foi o seu maior
sucesso e sustentáculo de uma carreira de 28 anos (1963-1991).

 

A musa, Regina Pereira de Mello, no desfile como rainha do Rio Vermelho, em 1954