Rio Vermelho, o Montparnasse Baiano

Ubaldo Marques Porto Filho

O topônimo Rio Vermelho originou-se do tupi Camoro(vermelho)ipe(rio), nome que os primitivos habitantes deram ao curso fluvial com embocadura na Praia da Mariquita. O primeiro forasteiro a aportar no local foi Diogo Álvares Corrêa, em 1509. Náufrago de uma embarcação europeia, o jovem marinheiro (tido como português, mas que pode ter sido espanhol ou até mesmo francês) conseguiu chegar na Pedra da Concha, uma pequena  rocha defronte à foz do rio, onde se abrigou e permaneceu escondido.

Nesta minúscula ilha foi encontrado pelos tupinambás. Vendo que os indígenas não eram amistosos, imediatamente usou um bacamarte para desferir certeiro tiro numa gaivota em pleno voo. Espantados, pois desconheciam a engenhoca barulhenta, foguenta e mortífera, os nativos começaram a exclamar: “Caramuru! Caramuru! Caramuru!”, que na língua tupi significa “homem do fogo; filho do trovão; dragão saindo do mar”.

E desta maneira o europeu salvou a pele e obteve o incontinenti respeito dos índios. Transformado num autêntico ‘cacique branco’ dos tupinambás, Caramuru possibilitou o surgimento, na Enseada da Mariquita, da chamada Aldeia dos Franceses, um entreposto do comércio de escambo do pau-brasil com aventureiros franceses.

Mas o desenvolvimento do Rio Vermelho foi lento. Na verdade, começou com alguns currais e armações para pesca, numa sesmaria doada pelo primeiro governador-geral, Thomé de Souza, que em 1549 fundou a Cidade do Salvador. Por volta de 1580, no lugar da atual igrejinha do Largo de Santana, uma missão jesuítica construiu uma ermida com a frente voltada para o mar, para a enseada que se transformaria num porto dos pescadores.

O povoamento propriamente dito somente tomou vulto após a invasão holandesa de 1624. O bispo de Salvador, dom Marcos Teixeira, uma das poucas autoridades a escapar da cidade, instalou-se com um grupo de refugiados em Abrantes, donde se deslocaria para um ponto mais próximo de Salvador, no arraial do Rio Vermelho, que possuía um monte com uma excelente visão panorâmica para o oceano, verdadeiro posto de observação avançada para a entrada e saída da Baía de Todos-os-Santos. Situado a cavaleiro da barra do Camorogipe (evolução de Camoroipe), esse outeiro ficou conhecido como Morro do Conselho, pois nele foi realizada uma reunião do bispo com os chefes que iriam comandar a luta de guerrilha contra os holandeses.

Em 1711, no local da antiga trincheira de terra, ao lado da Enseada de Santana, foi iniciada a construção do único baluarte de defesa de Salvador fora dos limites da Baía de Todos-os-Santos. Após várias interrupções, em 1756 ocorreu a paralisação definitiva das obras. Mas, mesmo inconcluso, o Forte do Rio Vermelho recebeu uma bateria de sete canhões e uma guarnição militar.

No século XIX, o antigo aldeamento indígena ganhou fama de possuir águas milagrosas. Pessoas de diversas procedências chegavam atraídas pelos ‘banhos de sal’ nas águas medicinais do mar do Rio Vermelho, que, segundo crença da época, curavam até beribéri. De ‘estação de cura’ para recanto preferencial do veraneio das famílias ricas foi um pulo.

Durante meio século (1880-1930), o primeiro balneário turístico da Bahia constituiu-se num sofisticado centro de veraneio. Foram construídos inúmeros palacetes e casarões, surgiram dois hotéis, um cinema, restaurantes, armazéns de secos e molhados, lojas de tecidos e miudezas e uma fábrica de cerveja, que os veranistas atestavam ser de muito boa qualidade.

Uma linha de bondes elétricos, inaugurada em 1906, proporcionou a ligação mais rápida com o centro da cidade e vice-versa. O progresso fez surgir um clube de tênis, um clube social, um hipódromo e um campo de futebol onde o campeonato baiano foi disputado durante dois períodos: 1907 a 1912 e 1916 a 1920.

Findo o ciclo áureo do veraneio, o Rio Vermelho já tinha uma população permanente, com a fixação de importantes famílias nos três núcleos que formavam o arrabalde: Mariquita, Santana e Paciência. Na década de 1950, tendo em vista a constelação de pintores, escultores, músicos, cantores, compositores, poetas, etc., o rincão descoberto por Caramuru ficou famoso como ‘O Bairro dos Artistas’. Os autores do livro ‘Cidade do Salvador, Caminho do Encanto’, Darwin Brandão & Mota e Silva, escreveram em 1958: “O Rio Vermelho é o local preferido para residência de artistas. É o Montparnasse baiano”.

Artigo publicado nas páginas 228 e 229 do livro
‘Encontro com o Escritor’, editado em 2010,
que reuniu os trabalhos dos 55 escritores
participantes do projeto homônimo,
patrocinado pela Secretaria de Cultura do
Estado da Bahia e pela Fundação Pedro Calmon.