Quando os Técnicos levam as Autoridades aos Erros

Ubaldo Marques Porto Filho

Em 1972, com a finalidade de servir como canteiro das obras para a instalação da tubulação do emissário submarino, espinha dorsal do sistema de esgotamento sanitário de Salvador, a Praia da Mariquita desapareceu sob um aterro de 20 mil metros quadrados. Em 1976, numa conversa com o amigo Nelson Taboada Souza (filho de uma importante família do Rio Vermelho), então na presidência da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, o ex-governador Antônio Carlos Magalhães confessou que os técnicos do governo não lhe informaram que a praia a ser sacrificada ficava no sítio da chegada de Diogo Álvares Corrêa, o Caramuru. “Se soubesse, teria ordenado que a parte submarina do emissário fosse desviada para a Fonte do Boi”, justificou-se ACM, ciente de que o aterramento na Enseada da Mariquita constituiu-se num crime contra um importante patrimônio histórico.

Mas não foi a primeira vez que os técnicos levaram um governante a assinar uma ordem que seria lesiva ao bairro. No dia 15 de junho de 1960, o prefeito Heitor Dias Pereira assinou a Lei nº 1.038, que fixou a delimitação dos distritos e subdistritos do Município de Salvador, que também dividiu a cidade em bairros. O Rio Vermelho teve o seu território incluído em três subdistritos: Amaralina, Brotas e Vitória, numa grande confusão territorial e com uma área geográfica não condizente com a realidade histórica e nem com a vontade popular, pois ficaram de fora da delimitação setores tradicionais e consagrados, como o Alto da Sereia, a Vila Matos, a Pedra da Marca e o Canjira.

O professor de geografia, Aurélio Souza, que um ano depois lançaria ‘Nas Bandas do Rio Vermelho’, primeiro livro sobre a história do bairro, fez uma crítica severa: “Essa delimitação foi coisa inventada pelos técnicos de prancheta, que não conhecem o Rio Vermelho. Agora temos dois bairros: o Rio Vermelho Administrativo, criado pela Prefeitura, sem qualquer respaldo popular, e o Rio Vermelho Geográfico, o bairro verdadeiro, do povo e da sua história”.

Profético, o professor-historiador-escritor, nascido e criado no Rio Vermelho, vaticinou: “Essa lei não vai pegar, pois lhe falta a legitimidade popular e o aceite dos moradores”. Não deu outra, a lei não vingou, pois todos os moradores do Alto da Sereia, da Vila Matos, da Pedra da Sereia e do Canjira continuaram se intitulando como moradores do Rio Vermelho. E nas suas correspondências e registros somente colocavam como bairro o Rio Vermelho.

Em 1984, saiu o livro de Licídio Lopes, ‘O Rio Vermelho e Suas Tradições’. O escritor, também nascido e criado no Rio Vermelho, registrou na magnífica obra os seguintes locais como pertencentes ao bairro: Alto da Sereia, Vila Matos, Corte Grande, Chácara Pinheiro (atual Parque Primavera), Ladeira de São João (atual Rua Cel. José Galdino de Souza), Alto de São Gonçalo, Pedra da Marca, Canjira, Chácara Lucaia (atual Parque Lucaia), etc.

Dois anos depois, em 1986, saiu a delimitação que corrigiu os erros de 1960. Foi feita pela comunidade, pelos que conheciam o autêntico Rio Vermelho. Com a participação de dezenas de moradores antigos, do padre Jahir Britto de Souza (pároco), do padre Ângelo Magno Carmo Lopes (vigário paroquial) e dos historiadores Aurélio Souza, Licídio Lopes, Tarquínio Gonzaga, Eneida Cavalcanti e Cid Teixeira, foi definida a área que consta no mapa que passou a representar o legítimo Rio Vermelho.

Porém, 23 anos depois, entram novamente em cena os técnicos que, num retrocesso de meio século, querem voltar a 1960 e impor, novamente, um falso Rio Vermelho, ou melhor, um novo Rio Vermelho Administrativo. Enfim, querem fazer com o prefeito João Henrique Carneiro o mesmo que fizeram com o prefeito Heitor Dias e depois com o governador Antônio Carlos Magalhães. Os técnicos, por não assinarem documentos finais (leis, decretos ou ordens de serviço), ficam protegidos pelo manto do anonimato, mas as autoridades (governadores, prefeitos e secretários) ficam marcadas perante a história pelos erros de seus subalternos.

Um outro caso famoso nos anais da história do bairro, esse felizmente com final feliz, ocorreu após a inauguração da atual Igreja Matriz, em 26 de julho de 1967. À pretexto de desafogar o trânsito pelo Largo de Santana, os técnicos programaram a demolição da igrejinha desativada dos ofícios religiosos. Descoberta a trama da derrubada do principal monumento do acervo arquitetônico do Rio Vermelho, um movimento liderado por Jorge Amado, Carybé, Mário Cravo e Dorival Caymmi, dentre outros ilustres moradores e ex-moradores, alertou o prefeito Antônio Carlos Magalhães, que imediatamente suspendeu a ordem emitida pelos técnicos municipais que queriam passar o trator por cima da história. O futuro demonstrou que o tráfego de veículos pelo Largo de Santana poderia, como foi, ser melhorado sem o sacrifício do templo histórico, que é um dos símbolos do Rio Vermelho.

Agora, um movimento liderado pelas principais entidades representativas do bairro, onde se incluem a Paróquia de Sant’Ana do Rio Vermelho, o Conselho Paroquial do Rio Vermelho, a Associação Comunitária Caramuru, o Conselho de Cultura e Turismo do Rio Vermelho, a Associação Yemanjá do Rio Vermelho, a Associação dos Permissionários do Mercado do Rio Vermelho, a Academia dos Imortais do Rio Vermelho, a Casa de Cultura Carolina Taboada e a Central das Entidades do Rio Vermelho, com o apoio de um grande número de personalidades, de moradores, de historiadores (dentre eles o mestre Cid Teixeira), da Associação Cultural Caballeros de Santiago, da Associação Brasileira das Agências de Viagens da Bahia e da secular e prestigiosa Associação Comercial da Bahia, estão pedindo ao prefeito João Henrique que não deixe a área histórica do Rio Vermelho ser reduzida. Enfim, estão solicitando a manutenção da delimitação territorial contida no mapa geográfico de 1986, que representa o verdadeiro e genuíno Rio Vermelho.

Publicado na Folha do Rio Vermelho,
página 2 da edição nº 9, fevereiro 2010.