Um Exemplo de Seriedade e Respeito e outro de Total Desrespeito ao Rio Vermelho

Ubaldo Marques Porto Filho

Um ótimo exemplo de transparência, de diálogo franco e de seriedade, no trato das questões envolvendo o bairro do Rio Vermelho, foi proporcionado pela Fundação Mário Leal Ferreira (FMLF), órgão integrante da estrutura da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (Sedham).

Durante todo o processo da gestação do Projeto de Requalificação Urbanística da Praça Caramuru, os representantes do Rio Vermelho, vinculados aos órgãos participantes da Central das Entidades do Rio Vermelho, puderam ser ouvidos e tiveram a oportunidade de colaborar com sugestões.

Foram várias as reuniões, sendo que duas aconteceram no Salão Paroquial do Rio Vermelho e as demais na própria FMLF. Nas reuniões preparatórias e da fase final dos trabalhos, o diálogo sempre foi extremamente profissional e altamente produtivo, em todos os níveis hierárquicos da Fundação Mário Leal Ferreira, desde a presidência, passando pela gerência dos projetos e indo até a equipe formada pelos arquitetos e técnicos.

A abertura foi total, sendo que a FMLF franqueou uma cópia do projeto para análise final pelo fórum da Central das Entidades do Rio Vermelho, que quase nada teve a acrescentar ou a ajustar. Essa exemplar postura do órgão municipal pode ser resumida da seguinte forma: quem é competente, quem sabe trabalhar em equipe e quem está seguro no bom cumprimento da sua missão, age de forma imparcial, sem subterfúgios ou interesses mesquinhos.

Enfim, quem nada tem a temer ou nada tem a esconder, age com transparência, ouve todos os segmentos e acata as sugestões bem fundamentadas. E tudo isso foi fartamente oferecido pela Fundação Mário Leal Ferreira, órgão presidido pela doutora Vilma Emília Gomes Barbosa Lage e que tem na gerência dos Projetos Urbanísticos a arquiteta Telma Virgínia Pereira Brito.

O outro lado da moeda

Infelizmente, dentro da própria Sedham, encontra-se um órgão que trilha o caminho oposto ao cultivado pela FMLF. É o Copi, uma coordenação encarregada dos estudos para fixar os limites oficiais de todos os bairros da capital baiana. O trabalho, muito importante e necessário, visa acabar com as confusões reinantes na cidade, de onde realmente começa e termina cada bairro. É de suma relevância que a sua implantação terá de ser através de Projeto de Lei tramitado e aprovado pela Câmara Municipal de Salvador.

Por já dispor de uma delimitação, feita pela comunidade, em 1986, o trabalho do Copi seria extremamente facilitado no Rio Vermelho, que dispõe de uma mapa na escala 1:2000. Porém, para nossa perplexidade, a coordenação do grupo de estudos resolveu ignorar essa delimitação e, a revelia de suas entidades mais representativas, decidiu por “criar um novo Rio Vermelho” em total desrespeito à sua história e às suas principais entidades, todas integrantes da Central das Entidades do Rio Vermelho.

A postura do Copi em relação ao Rio Vermelho foi tão estranha, parcial e discriminatória, que nos permite fazer as seguintes indagações:


Sabe-se que no Rio Vermelho foi feita uma encenação, com um teatrinho aberto unicamente para uma platéia de pouquíssimos convidados, que dessem amém à mutilação do Rio Vermelho. Sabe-se ainda da existência, para justificar o novo Rio Vermelho, de um trabalho com um vistoso vídeo, gráficos, planilhas, fórmulas estatísticas e até uma pesquisa, feita de forma sigilosa e sem o conhecimento das principais entidades do bairro, todas filiadas à Central das Entidades do Rio Vermelho.

Como suporte para uma aparente legalidade, foi também desenterrada a Lei Nº 1.038, de 15 de junho de 1960, que fixou os limites dos distritos e subdistritos de Salvador, com uma confusa divisão de bairros, eivada de erros. A própria Prefeitura jamais colocou em prática essa lei para delimitar os bairros, que sempre existiram por tradição, conceituação e definição popular.

Tentar agora ressuscitar uma lei natimorta, de meio século, para justificar a redução do território do Rio Vermelho, constitui-se numa trama diabólica inaceitável. É uma enganação ardilosa. Aliás, sobre a fracassada tentativa de se organizar os limites dos bairros de Salvador, feita há exatos 50 anos, publiquei na edição passada da Folha do Rio Vermelho, com referência ao nosso bairro, o artigo “Querem repetir o clamoroso erro de 1960, passando por cima da história e do direito adquirido”.

Finalmente, para dar uma aparente aprovação pela comunidade, o órgão mentor da mutilação conseguiu a adesão de três entidades que não têm nenhuma preocupação com a preservação do patrimônio histórico do Rio Vermelho e que não dispõem de maioria representativa para decidir nada em nome do Rio Vermelho.

O órgão que assim agiu, e que deliberadamente fugiu do diálogo com a Central das Entidades do Rio Vermelho e suas filiadas, colocou imediatamente o seu trabalho sob suspeição. Por isso, a nova delimitação que quer impor ao Rio Vermelho não merece credibilidade, pois além de inexistir fundamentação histórica não conta com nenhum respaldo dos historiadores e nem dos moradores mais antigos, que são os verdadeiros conhecedores do Rio Vermelho.

Enfim, a mutilação do Rio Vermelho é repudiada pelas seguintes entidades filiadas à Central das Entidades do Rio Vermelho: Paróquia de Sant’Ana do Rio Vermelho, Conselho Paroquial do Rio Vermelho, Academia dos Imortais do Rio Vermelho (Acirv), Casa de Cultura Carolina Taboada, Conselho de Cultura e Turismo do Rio Vermelho, Associação Comunitária Caramuru, Associação Cultural Hispano-Galega Caballeros de Santiago, Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav), Associação dos Permissionários do Ceasa do Rio Vermelho e Associação dos Permissionários do Mercado do Rio Vermelho.

NOTA:

A Coordenadoria Central de Produção de Indicadores Urbano-Ambientais (Copi) faz parte da estrutura da Superintendência do Meio Ambiente (SMA), órgão vinculado à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano, Habitação e Meio Ambiente (Sedham).

Publicado na Folha do Rio Vermelho,
página 8 da edição nº 11, junho 2010.