1924, Primeiro Presente

Ubaldo Marques Porto Filho

Como em toda história de pescador, que tem explicações diferentes para um único fato, a Festa de Yemanjá, que nasceu com o nome de Presente da Mãe d’Água, também tem várias versões sobre a sua origem. Uma delas nos remete a 1923, ano de pescaria muito ruim. Visando a superação da fase do peixe escasso, os compradores davam receitas, sugerindo que os pescadores deveriam invocar os poderes da dona do mar. Em resposta a uma indagação que se repetia - “Por que vocês não dão um presente pra Mãe d’Água?” -, um grupo decidiu preparar a oferenda. Como os pescadores de Itapuã ofereciam presentes à Mãe d’Água em 2 de fevereiro, os do Rio Vermelho também optaram pelo mesmo dia. Na edição de fevereiro de 1984, do informativo ‘O Pescador’, editado pela Biblioteca Juracy Magalhães Júnior, localizada no Rio Vermelho, saiu uma entrevista com Zequinha, pescador e construtor de jangadas nascido em 1911. Eis o que afirmou:

“A Festa de Yemanjá começou pelos pescadores mais antigos, dentre eles meu pai, que resolveram colocar um presente pra Mãe d’Água. Então se reuniram e cada um deu um tanto. Compraram um boneco, um frasco de cheiro e botaram tudo numa caixinha de papelão”.

Esse foi o primeiro presente, modestíssimo, um reflexo da classe dos pescadores, formada por homens bem humildes, onde figuravam Saturnino, Fulô, Ananias, Simeão, Astério, Faustino, Ismael, Alípio Capenga, Basílio Cocal e os irmãos Moita: José (pai de Zequinha), Pedro e Síbem. Entre eles também estava o Eustáquio, de 36 anos, que 47 anos depois colocou um ponto final nas especulações sobre a data do primeiro presente. Numa entrevista à Tribuna da Bahia, concedida ao jornalista M. H. Chaves Mattos, declarou ter sido em 2 de fevereiro de 1924.

DEPOIMENTO DE EUSTÁQUIO

Aos 83 anos, o pescador Eustáquio Bernardino de Sena, um dos fundadores da festa, deu um importante depoimento ao jornal Tribuna da Bahia, publicado na edição de 14 de dezembro de 1970: “A festa foi feita pela primeira vez em 1924, por 29 pescadores, dos quais apenas quatro ainda estão vivos: Eu, Pedro Moita, José Moita e Síbem Moita”.

Em 1924, o dia 2 de fevereiro caiu num sábado. A festa foi aberta com uma missa na Igreja de Senhora Sant’Ana, a santa da devoção dos pescadores do Rio Vermelho. Eustáquio contou também que, logo após a missa, num saveiro que partiu do Porto de Santana, um grupo de pescadores levou o Presente da Mãe d’Água: “Saímos às dez horas e às onze estávamos de volta!”

Texto publicado nas páginas 17/18 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.