Meu Envolvimento com a Festa

Ubaldo Marques Porto Filho

Quando aportei no Rio Vermelho, em 1º de julho de 1958, menino de 13 anos, passei a frequentar assiduamente a Praia de Santana, onde tomava banho de mar, jogava futebol e convivia com os pescadores. Todo final de tarde era belíssimo, proporcionado pelos saveiros e jangadas. A balaustrada ficava apinhada de gente para assistir a chegada das embarcações. A pescaria era farta, os barcos vinham cheios, com peixes pequenos e graúdos. A platéia ficava ouriçada quando os heróis do mar retiravam os cações grandes, como o povo chamava os temidos tubarões. Muita gente descia à areia para ver bem de perto as feras abatidas.

De tanto frequentar a Casa do Peso, que era guarnecida pelo Velho Bahia, fiquei conhecendo todos os pescadores em atividade no Porto de Santana: Aloísio Melo, Antônio Bigode, Astério, Bebê, Buri, Cabeça de Porco, Capitania, Cláudio, Coroa, Dominguinho, Dudu, Eustáquio, Flaviano, Foca, Francisco Paim, Germano, João Cotó, João Pisa Macio, José Moita, Leonídio, Lídio, Pacal, Pedro Moita, Pirão, Purrão, Renato, Renato Paca, Romão Pelado, Severiano, Paramirim, Santana, Ôô, Síbem, Simeão, Sprito, Tintino, Vadoca, Vavá e Zequinha. Havia também o Manteiga, um rapaz especialista em jogar tarrafa ‘de mergulho’, que diziam ser uma raridade e que no Rio Vermelho só tinha ele e Alicate, discípulos do Mestre Canapum.

Especificamente sobre o Presente da Mãe d’Água, a primeira vez que vi a festa foi em 1959, um verdadeiro deslumbramento para os meus 14 anos recém-completados. Porém, não acompanhei a procissão marítima, que saiu às onze horas, pois não havia me preparado para tal. Não sabia que para embarcar teria de estar articulado com algum dono de barco. No ano seguinte viajei num saveiro arranjado pelo Alvaiade, que trabalhava na empresa Irmãos Taboada. Muito amigo dos pescadores, Crispim José dos Santos, seu nome verdadeiro, todos os anos providenciava um transporte para os netos de José Taboada Vidal, benfeitor dos pescadores. Como já tinha feito amizade com Afonsinho e Zé Carlos Taboada, embarquei com eles numa emoção ímpar, pela beleza do cortejo e pelo jardim florido que se formou na superfície assim que os presentes foram arriados em alto-mar.

Em janeiro de 1965, como diretor do jornal Vip, do recém-fundado Grêmio Juventude do Rio Vermelho, ingressei no jornalismo de bairro. O início foi de forma modestíssima, para não dizer rudimentar, pois o jornalzinho quinzenal era de exemplar único, datilografado, que circulava de mão em mão. Mas foi o ponto de partida para um projeto ambicioso: produzi-lo graficamente, para distribuição dos exemplares com as famílias do bairro. Para sua viabilização, fui buscar orientação com o educador e jornalista Aurélio Ângelo de Souza, que na década de 1950 havia fundado o ‘Rio Vermelho Jornal’.

Além de mostrar o caminho das pedras, o Professor Aurélio, como era chamado, colaborou na primeira edição impressa do Vip, que saiu no final de maio de 1965. Foi de sua autoria a matéria principal, ‘Nas Bandas do Rio Vermelho’, mesmo título do opúsculo que publicou em 1961, focado na formação do arrabalde. Mas no texto para o nosso jornal o enfoque foi a Festa da Yemanjá, assunto do seu total domínio. Era muito amigo dos pescadores e residia na Rua Guedes Cabral 14, frontal à Casa do Peso.

Não fui aluno de Aurélio Souza no Colégio Estadual Manoel Devoto, onde o mestre lecionava. Mas foi meu professor particular, de redação jornalística e de história do Rio Vermelho, em cujo contexto figurava a Festa de Yemanjá. Graças a ele, e ao jornal do Grêmio, comecei, aos 20 anos, a escrever sobre o bairro. Passei a pesquisar e observar tudo que nele ocorria.

Quando fui presidente da Associação dos Moradores e Amigos do Rio Vermelho (Amarv), tive uma ligação muito estreita com a administração da Colônia de Pesca Z-1. A Amarv prestou assessoria técnica à entidade dos pescadores, donde frutificou o seu Estatuto Social, possibilitando a Z-1 pudesse firmar convênios com órgãos governamentais. A parceria também rendeu uma ampla reforma e ampliação das instalações da sede da Colônia. A Amarv participou ainda diretamente da organização da Festa de Yemanjá durante três anos consecutivos. Foi quem instituiu o ‘Bônus de Yemanjá’ e as ‘Ceias do Rio Vermelho’, realizadas na primavera-verão, que viabilizaram os recursos financeiros para as festas de 1988 a 1990.

Como administrador da AR-VII, nomeado pelo prefeito Antônio Imbassahy, em janeiro de 1997, voltei a envolver-me diretamente com a organização da Festa de Yemanjá. Com a equipe técnica da administração regional, que englobava nove bairros, dentre eles o Rio Vermelho, coordenei o projeto que inseriu o evento no recém- instituído Programa Estadual de Incentivo à Cultura (Fazcultura). Graças aos incentivos fiscais, concedidos por esse programa, foi viabilizada uma parceria com a cervejaria Antarctica na festa de 1998, que foi realizada numa nova dimensão. Houve um substancial aumento nas peças promocionais, com a inclusão de bonés e banners, e no volume dos produtos de apoio, representados pelos tradicionais balaios e camisas, que nesse ano atingiram marcas recordes. Foram 250 balaios, todos utilizados no recebimento das oferendas populares.

Finalmente, consigno que conheci os principais personagens que nos últimos 50 anos foram os baluartes da Festa de Yemanjá, bem como as personalidades que mais contribuíram para o esplendor do evento nesse período.

Texto publicado como Posfácio do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
 editado em 2009.