José Taboada Vidal, Benemérito

Ubaldo Marques Porto Filho

O imigrante José Taboada Vidal, nascido na aldeia de Limeres, município de Cerdedo, interior da província de Pontevedra, na Galícia, região no noroeste da Espanha, desembarcou na capital baiana em 22 de novembro de 1892, quatro dias antes de completar 15 anos. Foi imediatamente levado para trabalhar como balconista no armazém de um patrício, no balneário do Rio Vermelho, frequentado pelas famílias mais abastadas do centro de Salvador.

O jovem galego se destacou de tal forma no trabalho que o patrão o transformou em sócio, com 21,25% das quotas em Manoel Sobrinho & Cia. e sendo o responsável pelo gerenciamento do Armazém Rio Vermelho, localizado no Largo de Santana, esquina com a Rua do Raphael, atual João Gomes. Três anos depois, em 1906, José Taboada desligou-se da sociedade e ficou com o armazém, incorporado à firma que abriu, José Taboada & Cia.. Em 1914, ele abriu o segundo estabelecimento, a Confeitaria Oceânica, na esquina do Largo de Santana com a Travessa Santana.

José Taboada Vidal tornou-se amigo dos pescadores desde a sua chegada ao Rio Vermelho. Foi na Praia de Santana que aprendeu a nadar e a escolher os melhores peixes, cujos segredos foram repassados pelos homens do mar. Em 1919, já comerciante muito bem-sucedido, assistiu ao desentendimento havido entre o novo pároco e os pescadores por causa da suspensão do pagamento do dízimo da pesca. Para se desvencilhar das pressões do padre Artur Peixoto, a classe resolveu deixar de utilizar a casinha onde guardavam a balança e os aviamentos da pesca, que ficava encostada à Igreja e à qual pertencia.

Mas como construir uma nova Casa do Peso, por mais simples que fosse, sem dinheiro? José Taboada foi a solução, pois forneceu todo o material necessário à edificação da modesta casinha, erguida no promontório onde ficava o Forte. Nessa época, o comerciante já era considerado como ‘O Protetor dos Pescadores’, pois fazia o que nenhum outro dono de armazém lhes permitia - a compra de comestíveis no fiado, através do cartão de crédito da época, a famosa ‘caderneta’. Aos pescadores sérios e corretos, José Taboada concedeu-lhes esse privilégio. Pagavam como podiam. Quando um pescador adoecia e não podia pescar por um longo período, José perdoava as dívidas e os ajudava com medicamentos e até mesmo na alimentação. Mas fazia tudo isso de uma forma discreta, para não chegar ao conhecimento público.

Quando ainda não havia o serviço da água encanada, a fonte de abastecimento dos pescadores, para consumo durante as pescarias, era o Armazém Rio Vermelho, que fornecia a água de beber gratuitamente, apesar de comprá-la dos fornecedores de porta em porta. Era também voz corrente entre os pescadores, que a pequena caixa de papelão usada no primeiro presente para Yemanjá, em 2 de fevereiro de 1924, foi fornecida pelo armazém de José Taboada, donde já saiu com alguns presentes doados por proprietário: pente, talco, perfume, etc. Todos os anos, era quem também abria o ‘Livro de Ouro’, instituído para angariar fundos entre os comerciantes e moradores do bairro.

Muito querido pela classe dos pescadores, José Taboada desfrutou da primazia de diariamente um deles passar em seu sobrado para oferecer peixe, sempre de primeiríssima qualidade. Mas se recusava obstinadamente a recebê-lo como presente. Uma certa feita ele disse à filha:

“Nilza, nesta casa não entra peixe de graça ou fiado. Essa gente é muito pobre, vive do que pesca e vende no dia. Portanto, temos de pagar na hora da entrega da encomenda!”.

Quando a Festa de Yemanjá ganhou corpo e passou a atrair multidões, a varanda no primeiro andar do sobrado onde a família Taboada residia, bem defronte à Praia de Santana, transformou-se uma espécie de camarote. Enquanto o povo acorria à Casa do Peso, para depositar os presentes e depois aguardar pela saída do cortejo marítimo, José Taboada recebia os amigos e os convidados de seus filhos, principalmente o Nelson, muito bem relacionado nos meios sociais, econômicos e políticos de Salvador. Por isso, muita gente importante participava dos tradicionais almoços que o patriarca oferecia no dia 2 de fevereiro. Um dos frequentadores era o jornalista Odorico Tavares.

Embora católico extremoso, devoto de São João Batista, José Taboada foi contaminado pelo vírus do sincretismo baiano. Logo ao amanhecer do dia 2 de fevereiro ele se dirigia à Casa do Peso para depositar um presente destinado à Yemanjá. Seu neto Nelson Almeida Taboada recorda-se disso:

A primeira vez que estive na Casa do Peso, no dia da festa, eu devia estar com oito ou nove anos. Fui levado pelo meu avô, que foi muito cumprimentado pelos pescadores. Depois de algum tempo conversando com eles, que fizeram logo uma roda no entorno dele, o vovô arrastou-me de volta ao sobrado, dizendo: “Agora vamos ver a festa do nosso palanque, lá na varanda”.

Papai e mamãe também ofereciam presentes à Mãe d’Água, como na época chamavam Yemanjá. Papai viu a festa nascer, pois em 1924 ele tinha 12 anos e estava na praia na hora em que o saveiro saiu levando o primeiro presente.

Da fase da meninice recordo ainda que na manhã do dia 3 de fevereiro, muita gente ia para a Praia de Santana atrás dos presentes devolvidos pelo mar, que segundo diziam haviam sido recusados pela Mãe d’Água. Juntamente com os amigos Luiz Clóvis, Buba e Willy, dentre outros, também procurávamos pelos rejeitos, na vã esperança de encontrar dinheiro”.

O pai de Nelson, empresário Nelson Taboada Souza, foi um colaborador da festa durante as décadas de 1940 a 1960. Muito contribuiu em termos financeiros, pois era um dos signatários cativos do famoso ‘Livro de Ouro dos Pescadores’. Sua esposa, Maria Antonieta Almeida Taboada - católica de fé inabalável, que mantinha em casa um oratório com os santos prediletos (Nossa Senhora de Fátima, Senhora Sant’Ana, Jesus Menino de Praga, Senhor do Bomfim e Santo Antônio), para as orações diárias, e que não largava um crucifixo contendo uma pequenina imagem de Santo Antônio, confeccionada em madeira -, também não dispensava o ritual de ir à Casa do Peso no dia das homenagem à Rainha do Mar.

Texto publicado nas páginas 77/80 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.