Jorge Amado, Escritor e Divulgador

Ubaldo Marques Porto Filho

Julho de 1962 foi muito importante na minha vida de 17 anos. Na noite do dia 1º, como aluno do Colégio Estadual Manoel Devoto, participei da inauguração do seu novo e majestoso prédio. Importantes autoridades, entre as quais o governador Juracy Magalhães, compareceram ao ato que se revestiu de uma pomposa solenidade. Afinal, o Rio Vermelho ganhava uma modelar unidade do ensino público. No dia 7 fui um dos fundadores do Parque Cruz Aguiar Futebol Clube e passei a integrar a comissão que circulou com um ‘Livro de Ouro’, para arrecadar fundos visando a compra do material esportivo. Uma das residências visitadas foi a do Jorge Amado, recém-chegado para uma temporada no imóvel que comprara em 1961, na Rua Alagoinhas, onde havia residido o pianista suíço Sebastian Benda, que muito conheci, pois entre as nossas casas havia apenas dois ou três lotes baldios.

Foi nessa visita, com objetivos pela causa futebolística, que vi pela primeira vez o autor de obras famosas, dentre elas o romance ‘Gabriela Cravo e Canela’, que segundo ele lhe deu o dinheiro para comprar a casa do Rio Vermelho. O escritor recebeu o grupo de jovens sentado na varanda e não se fez de rogado, pois assinou uma polpuda contribuição, num gesto de cortesia com os rapazes da vizinhança. Dias depois voltaria a vê-lo, não mais como pedinte, mas como espectador de sua palestra no auditório do novíssimo Manoel Devoto.

Quando a família Amado se fixou definitivamente no Rio Vermelho, em fins de 1963, passei a avistá-lo com muita frequência. Nunca tivemos nenhuma aproximação de amizade, pois nos falamos pouquíssimas vezes. Mas sei que ele gostava muito da Festa de Yemanjá, à qual comparecia sempre que se encontrava em Salvador. Foi dele, juntamente com Caymmi, a iniciativa de pedir às autoridades alguns benefícios na sede da festa, como, por exemplo, a transformação da Casa do Peso em Casa de Yemanjá.

Mas a maior contribuição que o Jorge deu à Festa de Yemanjá foi na sua divulgação, principalmente através do livro ‘Bahia de Todos os Santos, Guia de Ruas e Mistérios’, obra com sucessivas edições, best seller nacional. Após enaltecer os poderes de Yemanjá, dizendo que sua grande festa, “a maior de todas, a mais solene e bela, é a de dois de fevereiro, no Rio Vermelho”, o escritor acrescentou:

“Finalmente, chega o dia dois de fevereiro, ‘dia de festa no mar’, como diz o trovador: “Eu quero ser o primeiro a salvar Yemanjá”. Os atabaques agora roncam ali mesmo, na ponta de terra que penetra pelas águas, rasgando o oceano: ali os pescadores construíram a casa-do-peso que é também o peji de Yemanjá. De toda parte, desde a madrugada, desembocam as filhas-de-santo com seus trajes e colares rituais, cada uma traz seu presente. À frente do povo, obás e ogãs: mestre Carybé, Dorival Caymmi, Flaviano, chefe dos pescadores, Manoel do Bomfim, escultor vizinho do peji, o pintor Licídio Lopes e Mário Portugal, exportador de fumo e ogã do candomblé de Mirinha do Portão”.

Texto publicado nas páginas 81/82 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.