Caymmi, Compositor e Cantor

Ubaldo Marques Porto Filho

Mestre Dorival Caymmi é o poeta do mar da Bahia, mar que viu pela primeira vez no Rio Vermelho, onde também tomou o primeiro banho de mar. Menestrel das canções praieiras, que imortalizou pescadores e sereias, Caymmi foi o primeiro a compor uma música para Yemanjá do Rio Vermelho. Com ‘Dois de Fevereiro’, o compositor e cantor criou a identificação musical que iria impulsionar o povo a transformar a Festa de Yemanjá na maior homenagem que se realiza no planeta em honra à Rainha do Mar.

DOIS DE FEVEREIRO

Dia Dois
De fevereiro
Dia de festa no mar
Eu quero ser o primeiro
Pra salvar Yemanjá.

Escrevi um bilhete a ela
Pedindo pra ela me ajudá
Ela então me respondeu
Que eu tivesse paciência de esperar.

O presente que eu mandei pra ela,
De cravos e rosas, vingou.
Chegou! chegou! chegou!
Afinal que o dia dela chegou.

Após 31 anos morando fora de Salvador, Dorival Caymmi retornou para residir numa casa doada pelo Governo do Estado da Bahia, na Rua Pedra da Sereia 2, bairro do Rio Vermelho. Em seu terceiro número, edição de 23 de outubro de 1969, a Tribuna da Bahia publicou uma reportagem de página inteira sobre a volta do cancioneiro da Bahia. Num trecho da matéria saiu:

“Agora, um caminhão está de mudança do Rio para a Bahia. Ele traz os trens do velho Caymmi, moço de cabelos brancos, filho de Dona Janaína, para a beira do mar do Rio Vermelho, o mar onde ele quer ser o primeiro a salvar Yemanjá”.

Localizada defronte à Praia da Sereia, a casa de Caymmi ficava vizinha à antiga Gruta da Sereia, destruída na década de 1920 por uma empresa que retirava pedras para a construção civil. Os nomes Rua Pedra da Sereia, Morro da Sereia ou Alto da Sereia derivaram da gruta onde o povo do candomblé realizava preceitos em honra à Yemanjá, sem a participação dos pescadores.

Na esquina do Largo de Santana com Rua José Taboada Vidal ficava o sobrado da Pastelaria Avenida, que abrigava, numa de suas portas, na parte térrea voltada para o largo, o Cantinho de Roxinha. Um cantinho mesmo, estreito e curto, mas o suficiente para a baiana Roxinha ter um fogão, uma geladeira e uma mesinha com apenas dois lugares, ou melhor, dois bancos. Tudo muito simples, mas as iguarias do seu tabuleiro eram da melhor qualidade. Eu tinha o hábito de, à tardinha, no pôr do sol, passar lá para degustar um abará, que tinha fama de ser o melhor de Salvador.

Num dia de 1970, quando entrei em Roxinha, deparei-me com Caymmi sentado na mesinha, com uma garrafa quase cheia e um pratinho esmaltado com um acarajé fatiado. Assim que pedi o abará, ele imediatamente franqueou-me o único banquinho disponível: “Por favor, sente-se moço”. Ao sentar-me, puxou conversa, perguntando: “Bebe cerveja?”. Ante a afirmativa, ordenou: “Dona Roxa, traga mais um copo!”. Assim foi o início de um papo que durou em torno de uma hora. Bebemos mais duas ou três cervejas, ele sempre comendo acarajé como tira gosto.

As conversas foram centradas nas coisas do Rio Vermelho, alvo do seu interesse. Falamos inclusive dos pescadores e, inevitavelmente, da Festa de Yemanjá, que ele demonstrou muito conhecimento sobre a parte dos preceitos religiosos. Revelou também que na juventude tinha estado algumas vezes na Confeitaria Oceânica, de José Taboada Vidal: “Ficava neste prédio, bem aqui ao lado, onde hoje se chama Pastelaria Avenida”.

Esse foi o primeiro e único contato que tive tetê à tête com o gênio da música popular brasileira. Ainda o veria diversas outras vezes, sempre no Rio Vermelho, mas à distância, sem nenhuma aproximação. Duas coisas me chamaram a atenção: Caymmi sempre andava sozinho e era uma pessoa simples, desprovida de qualquer afetação ou estrelismo. Era comum vê-lo circulando pelo bairro e indo à casa de Jorge Amado, na Rua Alagoinhas 33, onde eu também residia, no número 13.

Texto publicado nas páginas 82/83 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.