Licídio, Pescador e Escritor

Ubaldo Marques Porto Filho

Nascido no Rio Vermelho, em 26 de abril de 1899, Licídio Reginaldo Lopes era pintor de paredes e pescador nas horas vagas. Quando Jorge Amado adquiriu a casa da Rua Alagoinhas e a colocou em obras, a equipe do mestre Licídio trabalhou na etapa da pintura.

Além de paredes, Licídio Lopes pintava quadros inspirados na ambiência do Rio Vermelho. Suas obras passaram a ter muita aceitação quando Jorge Amado adquiriu várias telas numa exposição. Um dia, o artista plástico primitivo apareceu na casa do escritor para mostrar-lhe um calhamaço de manuscritos. Eram textos centrados basicamente nas recordações da sua juventude, que se alongavam à década de 1930. O autor falava dos pescadores, da pesca, das festas, de Yemanjá, dos africanos, das famílias, dos esportes, das plantações de cana e mandioca, dos coqueiros e dendezeiros, etc. Enfim, traçou um perfil das tradições e do cotidiano de um período do seu bairro, ao qual adicionou um capítulo sobre Dorival Caymmi.

Pelas mãos do Jorge Amado, que gostou do que leu, os originais foram parar na Fundação Cultural do Estado da Bahia, que transformou o conjunto de textos num livro, ‘O Rio Vermelho e Suas Tradições, Memórias de Licídio Lopes’. Trata-se de uma obra de grande valor histórico, pois reconstituiu o Rio Vermelho da fase final do veraneio áureo. Mas Licídio não retratou o modus vivendi dos veranistas, donos dos palacetes, casarões e sobrados. O que resgatou foi o universo dos moradores mais humildes, do povo em si, onde se inseriam os pescadores, aos quais se encontrava intimamente ligado. O livro foi lançado em 26 de outubro de 1984, numa solenidade realizada na Biblioteca Juracy Magalhães Junior, à qual esteve presente Jorge Amado, padrinho do Licídio escritor. Eu também compareci, pois conhecia o autor desde quando cheguei ao Rio Vermelho.

‘Rio Vermelho e Suas Tradições’ é um roteiro fascinante para quem deseja penetrar no Rio Vermelho da primeira metade do século XX. Tudo é fantástico, mas a narrativa da pesca artesanal das baleias é impressionante. O Rio Vermelho não se constituía em núcleo da pesca desses cetáceos, mas os mais famosos arpoadores eram do bairro. Licídio conta tudo em detalhes, que deixam o leitor de cabelos arrepiados. Graças a ele têm-se também detalhes do início da Festa de Yemanjá. Muito me vali de suas revelações.

Licídio também descreve a Gruta de Yemanjá, localizada no sopé do Morro da Sereia, na parte voltada para o mar, defronte ao local onde foi colocada uma escultura de Yemanjá mulata. Eis o registro:

“Era uma gruta muito grande, parecendo um salão, e lá cabiam muitas pessoas em pé. No meio havia uma espécie de banheira ou bacia que vivia sempre cheia de água doce, cristalina, que minava das próprias pedras.
Diziam que à noite Yemanjá vinha se banhar ali para tirar o sal do mar. Depois, sentava-se na pedra chamada Pedra da Sereia e ficava penteando os cabelos, principalmente nas noites de lua.
Essa gruta já não existe, teve a mesma sorte do Mercado Modelo, que desapareceu. O mercado pegou fogo, a gruta pelos exploradores de pedreiras”.

Texto publicado nas páginas 84/85 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.