Flaviano, Pescador e Timoneiro

Ubaldo Marques Porto Filho

Flaviano dos Santos, que na juventude jogou futebol e disputou vários campeonatos baianos, como atleta do Botafogo e do Ypiranga, tornou-se uma legenda na história das homenagens à Rainha do Mar. Possuía três qualidades que o tornaram muito respeitado na classe pesqueira: seriedade, honestidade e fé inabalável em Yemanjá. Ele representa um divisor de águas, entre dois tempos do evento, a época do Presente da Mãe d’Água e a fase em que passou a ser chamado de Festa de Yemanjá. Entre os pescadores, foi o primeiro a vislumbrar o 2 de fevereiro como uma festa também de cunho cultural e turístico.

Dentro dessa visão, procurou a autarquia municipal de turismo para pedir respaldo financeiro e apoio promocional. Queria colocar a festa num outro patamar, numa posição de grande realce entre os demais eventos soteropolitanos. Inclusive, foi dele a iniciativa da adoção de uma marca, um monumento dedicado à Yemanjá.

No comando de trinta eventos (1950/79), como presidente da Comissão de Pescadores, Flaviano deu à festa uma nova dimensão e um prestígio jamais vistos. Mestre Flaviano, que incorporou ao seu visual o uso de um pequeno chapéu, era hábil e sabia fazer amizades. Virou amigo de Antônio Tourinho, que, como diretor da Divisão de Diversões Públicas da Sutursa, muito contribuiu para o crescimento da fama da Festa de Yemanjá.

Sobre esses dois personagens, há até um caso presenciado por Manoel do Bomfim. Começou quando Flaviano perdeu o seu pequeno saveiro, destroçado nas pedras ao se soltar da amarração durante um temporal no Porto de Santana. Sem poder pescar, ficou numa situação difícil, mas Tourinho presenteou-lhe com um novo barco. No dia do batismo, quando viu o nome escolhido por Flaviano, ‘Foi Deus Que Me Deu’, o mecenas não gostou e protestou na hora: “Essa é porreta, eu lhe dou o barco e você diz que foi Deus!”. Calmamente, com paciência de pescador matreiro, Flaviano desarmou o amigo zangado quando repicou: “Mas você é o meu Deus!”.

Na manhã de 7 de agosto de 1974, uma quinta-feira ensolarada, após ter celebrado a missa, o monsenhor Antônio da Rocha Vieira, de 50 anos, teve um mal-estar e pediu que chamassem os pescadores. Vieram correndo Flaviano e Eulírio Menezes (Tenente), sendo que esse último era também motorista profissional. No automóvel do Tenente, conduziram o construtor da nova Igreja de Sant’Ana ao posto do Samdu (Serviço de Atendimento Médico de Urgência) no Rio Vermelho, localizado no final da Avenida Oceânica. Em que pese a desesperada tentativa do médico plantonista, em reanimá-lo, o Padre Vieira já estava morto. Havia sofrido um infarto e falecido no percurso, com a cabeça apoiada no colo de Flaviano, o Senhor de Yemanjá.

Após o dramático desenlace do pároco do Rio Vermelho, um temporal no Porto de Santana destruiu o saveiro ‘Foi Deus Que Me Deu’. Flaviano ficou muito abalado, como se tivesse perdido um filho. Poucos dias depois, sentiu-se mal e caiu fulminado por um infarto na entrada da Casa de Yemanjá, junto à estátua de Yemanjá. Os pescadores disseram que ele já vinha sofrendo de uma tristeza crônica, desde o falecimento do Tourinho. O escultor Manoel do Bomfim tem uma explicação complementar: “Ele não aguentou o segundo impacto, causado pela perda do saveiro dado de presente pelo saudoso amigo”. Em suma, no diagnóstico popular, a causa mortis do Flaviano foi ‘tristeza dupla’. O mestre faleceu em 31 de julho de 1979, aos 70 anos, sem deixar descendência.

Até 1979, a Festa de Yemanjá esteve sob o comando de uma Comissão de Pescadores, também chamada de Comissão Organizadora do Presente da Mãe d’Água ou ainda de Comissão Organizadora da Festa de Yemanjá, totalmente independente da administração da Colônia de Pesca Z-l. Com o falecimento de Flaviano, a Diretoria da Z-1 encampou o comando do evento famoso.

Texto publicado nas páginas 85/87 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.