Bomfim, Escultor e Ogã

Ubaldo Marques Porto Filho

O autor da estátua que reina soberana na parte frontal à Casa de Yemanjá, que deu a identidade visual à Rainha do Mar, foi Manoel do Bomfim, um artista que de contínuo na Escola de Belas Artes da Ufba se transformou num escultor e pintor de projeção. Seu currículo registra importantes exposições individuais e coletivas, em várias cidades brasileiras e do exterior. Registra também que é técnico em restauração de obras de arte.

Morou no Rio Vermelho por 22 anos. A primeira metade na Rua Monte Conselho 4, onde o conheci. Sua casa ficava colada ao imóvel atualmente ocupado pela 7ª Delegacia da Polícia Civil. Depois, após uma temporada em São Paulo, voltou ao Rio Vermelho, para a Rua da Fonte do Boi 5, onde também montou o ateliê de trabalho e a Galeria Bomfim, loja para comercialização de suas obras, que se encontram espalhadas em coleções particulares no Brasil e no exterior. Na pintura passou por três fases distintas: casario, orixás e abstrata.

Em 2 de fevereiro de 2007, quando a estátua completou 40 anos de inaugurada, Bomfim revelou-me um segredo: a primeira escultura de Yemanjá fora substituída seis meses depois. Eis o depoimento:

“Recebi o pedido no final de 1966. Portanto, o tempo era curtíssimo para a obra ser a novidade na festa de 1967. Tudo foi feito às pressas: a modelagem no barro, a fundição da forma em gesso e o enchimento do molde com ferragem e massa de cimento. Quando ficou pronta eu mesmo não gostei. Como não havia tempo para refazê-la, foi assim mesmo para o pedestal.
João Garboggini Quaglia, também artista plástico, meu amigo e ex-morador do Rio Vermelho, foi franco e direto: “Bomfim, a sua sereia ficou uma merda, o rabo está muito empinado. Você tem condições de fazer coisa melhor!”.

Resolvi então confeccionar outra, sem fugir da conceituação já oficializada publicamente, corrigindo apenas as imperfeições estéticas. A troca ocorreu na mais absoluta discrição. Ninguém percebeu a permuta.

A primeira estátua resolvi oferecer à Yemanjá. Chamei Flaviano e pedi que me levasse ao local da entrega dos presentes no dia 2 de fevereiro. Em lá chegando, aconteceram dois fatos anormais. O primeiro assustou-me, pois quando me dirigi à borda do saveiro, com a Yemanjá nos braços, tropecei e quase cai no mar com a imagem. Fui seguro pelo Flaviano, que foi logo avisando: “A Sereia tentou levar você!”. Sua observação, instantânea, foi uma lembrança da mitologia difundida pelos navegantes europeus, falando de uma sereia bela e sedutora, mas muito perigosa, pois levava para o fundo do mar os homens que desejava namorar, num amor fatal.

Ao me refazer do susto veio a emoção: reparei que o cardume, que repentinamente se acercou do barco, desapareceu assim que a escultura submergiu. Fiquei com uma certeza: os peixes tinham vindo para escoltá-la na viagem ao fundo mar!”.

Com o tempo, por causa da ação do salitre, que conseguiu penetrar nas ferragens, a estátua começou a apresentar inchaço e pequenas rachaduras no cimento. O próprio escultor, testemunha da deterioração, propôs fazer uma nova Yemanjá. Com a mesma formatação, mas usando o recurso da tecnologia da fibra de vidro, trocou a imagem pela terceira vez, em 2002. Bomfim transportou a estátua antiga para sua residência, na Boca do Rio, onde deveria aguardar pelo local definitivo. A preferência seria por um museu. Como se falava na criação de um no Rio Vermelho, ficaria aguardando a sua implantação. Porém, assim que acomodou a Sereia na sala do apartamento, percebeu uma alteração na energia do recanto domiciliar. Era como se houvesse chegado mais uma pessoa, fisicamente invisível mas espiritualmente presente. O artista passou a sentir um inexplicável desconforto e por duas vezes sentiu um pequeno mal-estar. Creditou essas ocorrências a um protesto da Sereia. Eis a sua interpretação:

“Acho que a Sereia não gostou de sair de um espaço livre para ser confinada numa área pequena e fechada. Nisso apareceu uma amiga, Yeda Machado, bibliotecária do Centro de Estudos Afro-Orientais, da Universidade Federal da Bahia, pedindo insistentemente para colocar a estátua no jardim da entrada de sua casa, na Pituba.
E esse foi o destino da escultura que durante 34 anos constituiu-se no símbolo catalisador da Festa de Yemanjá. Infelizmente, a alegria da Yeda durou pouco tempo, pois a querida amiga ficou doente e faleceu”.

Manoel do Bomfim é afro-descendente e ogã confirmado do Ilê Axé Yá Nassô Oka, mais conhecido como Casa Branca, considerado o mais antigo candomblé do Brasil. Casado com Maria Augusta Gomes Bomfim, teve três filhos: Manoel Augusto, João Augusto e Isa Augusta. Os homens herdaram-lhe a veia artística, são artistas plásticos. 

Texto publicado nas páginas 87/89  do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
 editado em 2009.