Mestre Pedro, Guardião

Ubaldo Marques Porto Filho

Embora não fosse pescador profissional, entendia muito do riscado, pois, vez por outra, participava das pescarias. Funcionário aposentado da antiga Companhia Linha Circular de Carris da Bahia, Mestre Pedro passava a maior parte do tempo no Porto de Santana. Sucessor do Velho Bahia, atuava como uma espécie de guardião da Casa do Peso e das embarcações apoitadas na enseada, que, por algum motivo, não tinham saído para a aventura diária em alto-mar. Era também uma espécie de relações públicas, que recebia e dava explicações aos turistas. Por ser muito respeitado e conceituado, ganhou o título de Mestre, logo incorporado ao prenome. Era um homem simples e humilde, porém esclarecido e politizado.

Para gáudio da platéia que diariamente se concentrava na balaustrada de Santana, Mestre Pedro demonstrava uma habilidade que a todos impressionava. À medida que as velas iam surgindo na linha do horizonte, pois os barcos ainda não eram motorizados, ele ia logo identificando: O saveiro da direita é fulano, na esquerda vem beltrano, sicrano é o do meio, etc. Não errava uma, o homem tinha olhos de lince e muita prática em conhecer os barcos à longa distância, sem fazer uso de binóculos ou lunetas.

Mulato baixo, tagarela e de voz poderosa, Mestre Pedro, era muito respeitado. Gostava de conversar com os jovens, de ser o centro das atenções e de ficar arrodeado de pessoas para ouvi-lo desfiar histórias dos pescadores, falar dos mistérios do mar e da força da Mãe d’Água. Enfim, além de carismático, tinha a qualidade de ser um exímio contador de casos, narrando-os sempre em voz alta, entremeando palavrões e gesticulando muito.

Por me comportar como bom ouvinte, passei a ser distinguido com um tratamento atencioso. Muito aprendi com ele sobre o mar, os pescadores e, principalmente, sobre a festa de 2 de fevereiro, da qual era um dos baluartes. Entendia muito da parte religiosa, chegando inclusive a explicar-me alguns detalhes dos preceitos.

Texto publicado nas páginas 89/90 do livro
‘Dois de Fevereiro no Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.