Antonieta Almeida Taboada

Ubaldo Marques Porto Filho

Nascida em Salvador, a 19 de fevereiro de 1913, Maria Antonieta Cardoso de Almeida teve como pais o português Alfredo Ferreira de Almeida e a baiana Amélia Cardoso de Almeida.

Antonieta, como ficou sendo chamada, desde cedo deu provas de que seria uma adulta voluntariosa, decidida e com visão progressista. Carismática e comunicativa, era dotada de uma enorme capacidade de liderança, que começou a exercitar na Paróquia de Sant’Ana do Rio Vermelho, cuja Igreja Matriz frequentava com assiduidade. Foi onde conheceu Nelson Taboada Souza.

Mesmo antes do casamento, já demonstrava possuir saudável influência sobre o noivo. Foi quem incentivou Nelson a trocar o balcão da Pastelaria Globo por outro ramo comercial, que pudesse abrir portas para novos horizontes e negócios mais promissores.

No Rio Vermelho, além da militância religiosa, Antonieta ficou conhecida pela bondade e disposição para ajudar os mais humildes nas horas das dificuldades. Na subida da Rua Visconde de Cachoeira, antiga Ladeira do Papagaio, ficava a delegacia de polícia, chefiada por um jovem do bairro, o comissário Osório Cardoso Villas-Boas, que ali trancafiava os desordeiros e brigões. Vez por outra, atendendo a apelos dos parentes dos detidos, Antonieta aparecia para pedir ao amigo e parente (pelo lado dos Cardoso) que soltasse fulano, sicrano ou beltrano.

Osório sempre atendia, mas ao proceder a soltura avisava: “Você está saindo porque teve uma madrinha forte. Vá agradecer à dona Antonieta Taboada. Mas fique sabendo de uma coisa, se voltar a ser preso, ela não vai lhe soltar pela segunda vez!”.

Dona de um coração grande e caridoso, Antonieta não podia ver ninguém sofrendo por doença. Providenciava internamentos hospitalares, remédios e até médicos para os casos de intervenções cirúrgicas. Constantemente havia gente batendo à porta de sua residência, em busca da providencial caridade.

Quando o casal deixou a casa da Conselheiro Pedro Luiz, no Rio Vermelho, para morar na Barra, numa casa bem mais ampla, na Rua Doutor Praguer Fróes, Nelson e Antonieta já faziam parte de um dos círculos da alta sociedade soteropolitana.

Na casa da Barra, começou um novo ciclo na vida do casal. Foi quando Nelson tornou-se industrial e se firmou definitivamente nos meios econômicos da Bahia. Existe um dito popular que afirma: ‘Por trás do sucesso de um homem há sempre uma grande mulher’. Nunca essa afirmativa foi tão verdadeira como no caso de Nelson. A parceria que ele formava com Antonieta não se resumia às obrigações matrimoniais. Ela era uma ativa conselheira e esteio na parte social.

No comando da casa da Barra, Antonieta transformou-a num point da sociedade. Não da sociedade fútil, mas de uma sociedade produtiva e culta, integrada por industriais, empresários de outros segmentos, profissionais liberais, jornalistas, escritores e artistas plásticos, dentre outros. Enfim, na casa da Barra nasceu um novo núcleo da alta sociedade, liderado pelo casal Taboada.

A casa ficou famosa pelos almoços aos sábados e domingos, onde a excelência das iguarias muito contribuiu para a consagração do bem receber do casal, verdadeiro polo aglutinador e cultivador de amizades. O dia 13 de setembro, aniversário de Nelson, entrou para o calendário da sociedade como o ‘Dia do Caruru de Antonieta e Nelson Taboada’. No livro ‘Bahia de Todos os Santos’, Jorge Amado o incluiu entre os três mais famosos da Bahia, citando-o como “... de farta, rica e saborosa comida de azeite-de-dendê”.

Nos dias normais, passavam pela casa personalidades que iam do senador capixaba João Calmon, um dos dirigentes dos Diários e Emissoras Associados, aos colegas de Nelson no Colégio Antônio Vieira, dentre eles Mirabeau Sampaio e Jorge Amado, que compareciam acompanhados de suas esposas, Norma e Zélia Gattai. Nelson e Antonieta foram inclusive padrinhos no casamento de Paloma, filha de Zélia e Jorge.

Gersina e Odorico Tavares também se tornaram frequentadores habituais. E foi pelas mãos de Odorico, diretor dos Associados na Bahia, que o jornalista Assis Chateaubriand, dono dos Associados, esteve na casa da Barra. Gostou da cozinha. Quando programava viajar à Bahia, mandava avisar que queria degustar as iguarias preparadas pela cozinheira Dudu, que trabalhou com Antonieta por 26 anos, até aposentar-se. Era uma negra de um metro e noventa, de porte elegante e que falava o nagô.

Assim era a casa da Barra, sempre cheia, onde se misturavam famosos e não famosos, parentes e não parentes. Uma festa semanal, que durou até o final da década de 1970. Premido pelo progresso e pela violência urbana, que transformou as casas em alvos fáceis, o casal foi residir num apartamento na Avenida Princesa Leopoldina, bairro da Graça, onde Nelson faleceu. Antonieta sobreviveu-lhe por 19 anos, vindo a falecer em 19 de maio de 2003, aos 90 anos.

Texto extraído das páginas 200/201 do livro
‘Família Taboada na Bahia’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
publicado em 2008.