Antônio Carlos Pinto

Ubaldo Marques Porto Filho

O Antônio Carlos Marques Pinto, ou simplesmente Vieira, como todos o chamavam, inclusive seus familiares, nasceu em Salvador, no Alto da Silveira, bairro do Garcia, em 24 de outubro de 1945. Tinha cinco anos quando seus pais se mudaram para o Rio Vermelho, para a casa de número 27 (atual 222) da Rua Lucaia, no Parque Cruz Aguiar.

Quando o conheci, ele estava com 13 anos. Depois, fomos companheiros nas peladas e em algumas estrepolias praticadas pela nossa turma, como, por exemplo, ir ‘colher’ frutas na Roça do Bila, pertencente ao suíço Otto Billian, que ficava onde é hoje o loteamento Horto Florestal. Retirar côcos, jacas, mangas, goiabas, pitangas e outros frutos da chácara, constituía-se às vezes numa aventura emocionante, pois armado de facão e espingarda o vigia provocava nossa fuga em desabalada correria pelo matagal.

Fomos também contemporâneos no Colégio Estadual Manoel Devoto. A prioridade número um do Vieira era a música. Andava sempre com um violão e em qualquer aglomerado ficava dedilhando o instrumento e cantarolando músicas desconhecidas, de sua autoria, contrariando um hábito de qualquer iniciante, que sempre canta músicas de sucesso e procura imitar um astro em evidência.

Uma outra característica do Vieira consistia em levar os amigos para sua casa, onde ao violão, ou no piano, geralmente com o Evandro Pacheco (Vandinho) na bateria, fazia apresentações cheio de orgulho pelas suas mais recentes criações. No final de cada número fazia questão de ouvir as opiniões. Eu mesmo, embora não entendesse absolutamente nada de música, fui diversas vezes inquirido para dizer alguma coisa. Respondia simplesmente que havia gostado, pois não me julgava capaz de fazer qualquer análise. Vez por outra, eu arriscava algum palpite sobre as letras e ele sempre dava atenção aos comentários.

Nessa época, havia um outro amigo comum, Antônio Fernando Teixeira de Carvalho, também apaixonado pela música, que circulava com um violão debaixo do braço. Muitas vezes, os dois ficavam tocando e cantando em rodas concentradas nas esquinas das ruas do Parque Cruz Aguiar. Mas o Fernando, que residia na Rua Itabuna, abandonaria o Rio Vermelho em 1966, quando foi para Rezende, no estado do Rio de Janeiro, estudar na Academia de Agulhas Negras. Seguiu a carreira militar, tendo o Exército ganho um oficial e o meio musical perdido um promissor valor.

Vieira era um amador com espírito profissional. A música constituía-se na única atividade que realmente levava a sério. Uma certa feita, quando virou moda o pessoal praticar boxe, esporte que exigia treinamentos com socos em sacos de areia, e cada um de nós mantinha um saco em casa, o Vieira repentinamente abandonou o boxe. O motivo, segundo ele, foi a informação de que os exercícios enrijeciam os músculos das mãos, o que seria desaconselhável para quem tocasse violão, piano ou qualquer instrumento em que a sensibilidade dos dedos era fundamental.

Por precaução, deixou inclusive de jogar futebol, onde se destacava como bom jogador, um centroavante raçudo. Pois bem, em nome do um futuro artístico, aboliu a prática de qualquer esporte. Exercícios somente com os instrumentos musicais que lhe eram familiares, tais como o violão, a guitarra e o piano. Até com a saúde passou a ter cuidados especiais, pois não fumava e nem bebia. Dormir tarde só por uma condição especial, que tinha, naturalmente, de ser provocada pela música.

Além de ser dotado de um grande talento, para compor e tocar, Vieira pesquisava e se interessava por tudo que tivesse música no meio. Gostava de conversar com quem entendia do assunto. Por volta de 1962, o Ypiranga contratou Noélio, jogador de futebol já veterano, que havia atuado no exterior. Quando a imprensa divulgou que o jogador carioca possuía entrosamento no meio artístico do Rio de Janeiro, por conta de também ser compositor e violonista, o Vieira procurou se aproximar do craque.

A concentração dos jogadores do Ypiranga ficava numa casa na Rua Conquista, logradouro localizado entre as duas pernas da Rua Alagoinhas, em formato de um ‘U’. Minha casa ficava na perna inicial da Rua Alagoinhas, bem pertinho da casa dos jogadores. Por conta disso, o Vieira me procurou um dia para ir com ele até lá. A partir daí, ele estabeleceu uma amizade com o craque compositor.

Como estranhos não podiam entrar na concentração, o Noélio atravessa a rua e se dirigia para a área externa da casa do senhor Epaminondas Bandeira, cujos fundos davam para a Rua Conquista, onde ficava a garagem, no alto, com uma parte livre contornada por uma pequena balaustrada. Alí, sentados, o Vieira e o Noélio passavam horas tocando violão, cantarolando e conversando sobre música. Estava evidente que Vieira procurava arrancar todo e qualquer subsídio que pudesse, principalmente no concernente ao ambiente musical no Rio, alvo da sua grande curiosidade.

Vieira iniciou a carreira profissional no conjunto ‘O Barquinho’, tocando guitarra de solo e onde figuravam dois outros jovens do Rio Vermelho: o baterista Vandinho e Toninho Lacerda, que tocava escaleta. Participavam também o Vivaldo (contrabaixo), o Roberto (saxofone) e o cantor João Só. Através do Toninho, Vieira aproximou-se e fez uma sólida amizade com o seu irmão famoso, o pianista e maestro Carlos Lacerda, passando depois a ser guitarrista na sua orquestra.

Mas antes de ingressar na orquestra, Vieira conheceu por meio do maestro o cantor e compositor Luíz Vieira, que comandava um programa musical na TV Itapoan. Como vinha semanalmente a Salvador, o Luiz comprou um jipe para suas locomoções na cidade, que ficou aos cuidados do Vieira, com a obrigação de ir buscar o cantor na sua chegada e levá-lo de volta ao aeroporto. Pode-se dizer que, entre o rapaz do Rio Vermelho e o astro consagrado, além da amizade nasceu uma influência que foi importante na formação musical do Vieira.

Mas, talvez a influência maior tenha sido de Carlos Lacerda, pois foi através do maestro que ele se enturmou no ambiente musical de Salvador. E em decorrência disso, conheceu a cantora Maria Creuza que, como ele, também buscava um lugar ao sol. Vieira, que tinha terminado um namoro de anos com Liana, moradora da Mariquita, começou um romance com Maria Creuza, que passou a ser também a sua musa inspiradora e intérprete preferida para suas composições.

Ele já estava razoavelmente conhecido na Bahia quando me disse, sem nenhuma modéstia: “Vou ser um compositor famoso e o melhor violão do Brasil”. Julguei tal afirmação como sendo um sonho fantasioso. Tempos depois, fui compreender o sentido exato das suas palavras. Ele pensava em termos altos, em vôos ousados. Porém, sabia que se continuasse em Salvador nunca atingiria o estrelato nacional. E, seguindo os exemplos de Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gal Costa, inscreveu-se para o indefectível vestibular musical no Sul, única via para se habilitar perante a indústria fonográfica nacional.

Arrumou a mala e foi tentar a sorte em São Paulo, levando Maria Creuza, que foi defender uma música de sua autoria, classificada para o Festival da Record de 1967. Mas, ‘Festa de Alaketo’ não chegou às finais e ele permaneceu anônimo na multidão. No entanto, perseverante, continuou na capital paulista, agora a reboque de Maria Creuza, que tinha conseguido trabalho no meio artístico de lá. Para ele foi um período difícil, cheio de muitas dificuldades, até financeiras. Em 1969, desanimado, resolveu regressar a Salvador, para reformular os planos.

Vieira voltou a circular pelo Rio Vermelho. Um dia, no caminho para a Praia da Avenida, contou-me suas aventuras e desventuras em São Paulo. Mas não ficou abatido e mostrou-se otimista e determinado a voltar novamente ao Sul. Disse-me que tinha visto vários artistas medíocres triunfarem e como se julgava muito melhor haveria de obter sucesso. Afirmou que tinha bagagem suficiente para se transformar num artista vitorioso. O que lhe faltava, segundo ele, era unicamente uma boa oportunidade. Concluiu fazendo uma profecia: “Vou voltar para vencer e ficar. Você verá!”.

Não deu outra coisa, pois logo depois Vieira viajou para o centro das grandes decisões, da irradiação dos sucessos e do lançamento dos ídolos da música popular brasileira. Porém, desta feita não foi para trabalhar sozinho, como da vez anterior. Havia feito parceria com Jocafi, outro jovem que também estivera no Sul sem conseguir saldos positivos. Ocasionalmente, de um encontro na Gravações JS, em Salvador, e sob a inspiração de Carlos Lacerda e Ildásio Tavares, presentes no estúdio de Jorge Santos, nasceu a união profissional dos dois.

Ainda em 1969, a dupla participou do Festival da Record e, em 1970, do Festival Internacional da Canção, no Rio de Janeiro. No FIC do ano seguinte, a dupla obteve o 2º lugar com a música ‘Desacato’. Estava, finalmente, aberta a porta para a fama.

Quando Vieira virou ídolo da música popular brasileira, em parceria com Jocafi, os seus conhecidos do Rio Vermelho ficaram sabendo, pelos jornais e revistas, que o nome completo do artista era Antônio Carlos Marques Pinto. Alguns, perplexos, chegaram até a garantir que havia uma omissão, pois estava faltando o ‘Vieira’. Na verdade, poucas eram as pessoas que sabiam que ‘Vieira’ era simplesmente um apelido que ganhou no Rio Vermelho, colocado pelo Jorge Eduardo Liberato de Matos, o Jorge Onça, que um dia, achando a gola da sua camisa similar a do novo pároco do bairro,  passou a chamá-lo de ‘Padre Vieira’, depois abreviado para ‘Vieira’, forma que se consolidou como apelido do menino.

Em 1971, Antônio Carlos & Jocafi gravaram o primeiro elepê, ‘Mudei de Idéia”, que deflagrou o início da grande explosão musical da dupla, com uma série sucessiva de músicas e discos que mantiveram os dois baianos nas paradas de sucesso em todo o país. E durante a década de 1970 viveram o auge da glória, vendendo milhares de discos e fazendo shows até no exterior, principalmente no Japão, onde venderam mais discos depois do Brasil.

Inúmeros cantores, em várias partes do mundo, gravaram músicas de autoria da dupla. A própria dupla, regravou discos em espanhol, francês, italiano e inglês, para atender o consumo dos discófilos espalhados pela Argentina, Espanha, França, Itália, Estados Unidos, etc.

Até 1980, Antônio Carlos & Jocafi tinham gravado oito elepês em português e produzido trilhas sonoras para duas novelas (Primeiro Amor e Super Manuela) da Rede Globo de Televisão. Na ótica de alguns analistas, com essas trilhas musicais, foi descoberta uma ‘galinha dos ovos de ouro’. Segundo eles, a dupla baiana abriu o caminho para a consagração de diversos outros artistas que enveredaram na fabricação de músicas para as novelas.

Antônio Carlos & Jocafi também fizeram a trilha musical do filme ‘Ofélia da Bahia’, baseado em romance de Jorge Amado e realizado por Marcel Camus, célebre cineasta francês.

Fonte:
Livro ‘Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
publicado em 1991.