Gustavo Tapioca

Ubaldo Marques Porto Filho

Em julho de 1958, aos 13 anos, cheguei ao Rio Vermelho, bairro litorâneo de Salvador, antigo centro de veranistas, que tinha sido o primeiro balneário turístico da Bahia. Sua história antecedia à fundação (1549) da própria cidade, primeira capital do Brasil, pois o Rio Vermelho fora descoberto em 1509, por Diogo Álvares Corrêa, o célebre Caramuru.

Fui morar num setor novo, o Parque Cruz Aguiar, na casa de número 13 da Alagoinhas, uma rua cheia de meninos que jogavam futebol, onde se destacavam o Neinho Bandeira, os irmãos Boureau (Jorge e Peck) e os irmãos Tapioca (César e Gustavo). Esses cinco eram fora de série. Nas ruas próximas, também residiam outros craques. Fanático por futebol, inseri-me imediatamente no contexto, como modesto ponta-direita. Não possuía a habilidade do meia-atacante Gustavo, mas com a sua ajuda, e de outros meninos bons de bola, fazia alguns golzinhos.

Locais para os babas, como chamávamos as peladas, não faltavam no nosso bairro. Havia 18 campinhos, sem contar os das praias (Paciência, Santana e Mariquita) e o de dimensões oficiais, chamado Campo da Chapada, onde treinava o Ypiranga, que disputava o campeonato baiano de futebol profissional e tinha sede no Rio Vermelho. ‘O Mais Querido’, como o Ypiranga era chamado, constituía-se em mais uma fonte de inspiração para a prática do futebol, pois seus jogadores eram ídolos dos meninos do Rio Veremelho.

Em 7 de julho de 1962, a turma da Rua Alagoinhas, formada por já empedernidos adolescentes, liderou a fundação do Parque Cruz Aguiar Futebol Clube, para jogar de chuteiras e enfrentar times de adultos, no Rio Vermelho e fora dele. Recordo-me que para a compra do material (camisas, calções, meiões, bolas, etc.) corremos um livro-de-ouro entre os pais dos atletas. Fomos também a casa 33 da Alagoinhas, recém-comprada pelo escritor Jorge Amado, que assinou uma polpuda contribuição financeira.

Uma das estrelas do time, também um dos mais jovens (o mais velho tinha 17 anos) era o Gustavo, com 15 anos. O filho do senhor Jaime e de dona Celeste, que moravam no número 46 da Rua Alagoinhas, destacava-se por ser um jogador veloz e goleador. A escalação mais repetida do Parque foi com Joel Novaes; Grilo, Peck, Neinho e Hélio Campos; César Leseira e César Tapioca; Ubaldo, Gustavo, Adriano Chaves e Jorge Boureau. Também jogaram Isaias Quaresma, João de Nei, José Plácido de Figueiredo, Altamirando Nogueira da Fonseca, Airton Ferreira da Silva, Roberto Farias de Menezes, Márcio Santos Souza, Luiz Tortilha e outros meninos do Rio Vermelho.

Após ser um dos fundadores (1965) do Grêmio Juventude do Rio Vermelho, entidade sóciocultural e esportiva, Gustavo tornou-se um destacado líder estudantil e participou da reestruturação da Associação Baiana de Estudantes Secundários. Por causa da militância na política estudantil, que sofria a repressão do regime militar, instalado no país com o golpe de 1964, o jovem do Rio Vermelho foi obrigado a ingressar na clandestinidade e a deixar a Bahia por uns tempos.

Depois de formado em jornalismo, de ter sido diretor-secretário do Jornal da Bahia e de ter residido nos Estados Unidos, em 1980 Gustavo radicou-se em Brasília. Na capital do país voltou a praticar com assiduidade o que sempre fazia no Rio Vermelho: jogar peladas com os amigos. Vinte e seis anos mais tarde, inspirado no convívio com os peladeiros, e demonstrando que também jogava bem no campo literário, escreveu ‘Uma Senhora Pelada’, delicioso livro de causos com os ‘meninos’ de Brasília.

Agora, Gustavo Tapioca nos brinda com outra jóia, contendo lembranças da época do Rio Vermelho, donde nunca se desligou espiritualmente. Afinal, suas raízes encontram-se profundamente fincados na terra descoberta por Diogo Álvares Corrêa, o  Caramuru.

Texto publicado na segunda orelha do livro
‘Meninos do Rio Vermelho’,
de Gustavo Tapioca,
 editado em 2007.