Manoel Castro

Ubaldo Marques Porto Filho

Manoel Figueiredo Castro nasceu em Salvador, a 3 de setembro de 1942. Aos 13 anos aflorou seu dom da liderança, quando se tornou diretor do Grêmio Afrânio Peixoto, no Colégio Severino Vieira. Foi vice-presidente do Grêmio da Fundação Visconde de Cairu, instituição do ensino médio, e presidente do Diretório Acadêmico da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde se diplomou, em 1964, bacharel em Ciências Econômicas.

No ano seguinte, fez pós-graduação em Desenvolvimento Econômico, em curso ministrado pela Comissão Econômica para a América Latina (Cepal), com sede em Santiago do Chile, que se constituía numa das cinco comissões econômicas regionais da Organização das Nações Unidas - ONU.

Durante a vida universitária, Manoel Castro conciliou os estudos com o trabalho, iniciado no Citybank de Salvador, tendo presidido o clube dos funcionários e atuado como diretor do Sindicato dos Bancários da Bahia, além de ter sido membro do Conselho Universitário da Ufba. Logo após a formatura, foi eleito diretor do Instituto dos Economistas da Bahia.

Manoel Castro trabalhou na Clan S.A., empresa de consultoria e planejamento, e participou da equipe que elaborou o Plano de Turismo do Recôncavo. Gerenciava o Departamento Econômico do Banco do Estado da Bahia (Baneb) quando foi indicado para presidir a Bahiatursa, sendo empossado em 26 de maio de 1971.

Na gestão de Manoel Castro a sede da empresa saiu do Comércio para ocupar uma casa no bairro do Canela, na Rua Marechal Floriano nº 1. No período em que esteve sob a sua presidência, a Bahiatursa teve uma atuação que surpreendeu os mais antigos integrantes do trade turístico, que já não acreditavam na eficácia do Estado. Foi realmente uma administração muito fértil, rica em realizações. A seguir, uma exposição sintética dos trabalhos que colocaram o órgão estatal do turismo em grande evidência.

Apro: Sigla da Agência de Programação Visual e Editorial, uma ‘house agency’ encarregada da criação do material promocional da Bahia. Para o seu funcionamento, foi montada uma equipe integrada por excelentes redatores, programadores visuais, ilustradores, fotógrafos, produtores gráficos, entre outros. A Apro produziu dezenas de folhetos, mapas, roteiros e cartazes, ficando famosa a série dos posters com temas sobre o carnaval, dendê, acarajé, renda de bilro, praia e candomblé, que colocados à disposição do público, nos postos de informações, transformaram-se em sucesso de vendas, pois os turistas os compravam como souvenir e também como peça para decoração de ambientes, em residências e escritórios.

Viverbahia: Revista criada e produzida pela Apro, para distribuição gratuita nos postos da Bahiatursa. Editada a partir de novembro de 1973, com dez mil exemplares mensais, tornou-se um importante veículo de orientação turística, enriquecido com reportagens de interesse informativo e cultural.

Central de Informações: Instalada no Belvedere da Sé, a Central de Informações foi estruturada para atender os turistas e os postos de informações, oito fixos e dois volantes (trailers). Para operacionalizar esse sistema, a Bahiatursa formou uma equipe de 30 pessoas, que receberam treinamentos em cursos de cultura baiana e relações humanas. As recepcionistas, selecionadas entre universitárias, deveriam ter o domínio de um segundo idioma, de preferência o inglês.

Receptivo Especial: Serviço de atendimento especial às autoridades, personalidades e investidores em visita à Bahia, bem como aos agentes de viagens, operadores de turismo e às equipes de jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão. Inúmeros jornalistas nacionais e internacionais foram recebidos e orientados, com fornecimento de material informativo e para pesquisas.

Imprensa: Para divulgação de releases e reportagens do interesse turístico da Bahia, foi desenvolvido um trabalho sistemático junto às editorias dos jornais e revistas de maior penetração no território nacional.

Campanha Publicitária: Em 1973, sob o tema Viver Bahia, desfechou-se uma grande campanha nacional, a primeira patrocinada pela Bahiatursa. Constou de encartes nas revistas Veja, Manchete e Quatro Rodas, e de anúncios nos principais jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Eventos: A Bahiatursa desenvolveu uma política de eventos apoiada em duas estratégias: a) Estimulando, na capital e no interior, através de apoio técnico, financeiro e promocional, as manifestações de natureza artística, cultural, folclórica, religiosa, esportiva, empresarial e profissional; b) Participando de feiras, exposições e congressos fora da Bahia, levando a culinária, os shows folclóricos, o artesanato e apresentando filmes, audiovisuais e outras peças promocionais.

Baixa Estação: Para reduzir os efeitos da sazonalidade turística, quando os hotéis, restaurantes e casas de shows de Salvador ficavam operando com baixa freqüência de turistas (15 de março/30 de junho e 1º de agosto/15 de dezembro), foi desenvolvido o Projeto Baixa Estação. A estratégia foi orientada em três direções: redução no custo do transporte e da hospedagem; programação local de eventos; e promoção nos centros emissores de turistas.

Escritórios Regionais: Como o mercado interno era a prioridade e os maiores centros emissores estavam localizados no Sudeste, a Bahiatursa abriu um escritório em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Também inaugurou uma representação na capital federal, Brasília.

Treinamentos: O quadro de técnicos da Bahiatursa recebeu treinamento especializado, com alguns estágios no exterior. No âmbito externo, foram desenvolvidas ações para cursos direcionados aos guias de turismo e ao pessoal de contato direto com os turistas, tais como motoristas de táxi, policiais militares e guardas de trânsito. Na formação da mão-de-obra destinada aos restaurantes e hotéis, a Bahiatursa firmou convênios para a formação de garçons, auxiliares de cozinha, copeiras e arrumadeiras. Aos executivos dos empreendimentos turísticos, foram ofertados cursos na Escola de Administração de Empresas da Bahia e diversos seminários, sendo um deles dirigido por professores da Cornell University School of Administration, dos Estados Unidos.

Apoio e Assessoria: Além de estimular a iniciativa privada, criando oportunidades para investimentos e atraindo os empresários, a Bahiatursa oferecia apoio técnico e assessorava os empreendimentos, principalmente na área hoteleira. Através do Departamento de Orientação Empresarial, a empresa prestava os seguintes serviços: orientação para o aproveitamento de incentivos fiscais, elaboração de cartas-consulta, de projetos econômico-financeiros e pedidos de registros na Embratur.

Hospedagem: A Bahiatursa concluiu as obras de três unidades integrantes do seu patrimônio: Grande Hotel de Itaparica, Grande Hotel de Juazeiro e o Hotel de Barreiras. Este último ficava na região oeste, no local denominado Boa Vista, na sede municipal de Barreiras, à margem da BR-242, importante rodovia na interligação de Salvador com Brasília. Em Cachoeira, Cidade Monumento Nacional, foi instalada a Pousada do Guerreiro numa casa colonial restaurada e adaptada para fins hoteleiros. Através de um convênio tripartite (Bahiatursa-Prefeitura-Camping Clube do Brasil), foram ampliadas as instalações e urbanizada a área de 8 mil metros quadrados do Camping de Salvador, localizado em Itapuã, à beira mar. No âmbito dos hotéis da rede privada, a Bahiatursa ofereceu assistência técnica aos seguintes empreendimentos em Salvador: Hotel Meridien Bahia, Bahia Othon Pálace Hotel, Praiamar Hotel, Hotel Bahia do Sol, Hotel Barra Turismo e Hotel Pelourinho. No interior assessorou os projetos do Hotel Vela Branca, primeiro construído em Porto Seguro; Hotel Caroá, em Feira de Santana; Lord Hotel, em Itabuna; Pousada Lord, em Teixeira de Freitas; e o Club Méditerranée, em Vera Cruz (Itaparica).

São João de Cachoeira: A partir de 1972, atendendo solicitação da Prefeitura, a Bahiatursa assumiu o planejamento, organização, divulgação e execução dos festejos de São João nesta histórica cidade. Iniciavam-se no dia 22 de junho, com a tradicional Feira do Porto, e terminavam no dia 25, a data magna da “Cidade Heróica”, com um desfile alusivo ao início da luta armada pela Independência da Bahia. Englobando três atrativos, a feira livre dos produtos juninos, a festa popular e o cortejo cívico, o São João de Cachoeira foi o primeiro grande evento promovido pela Bahiatursa. Com as apresentações artísticas e folclóricas – que se exibiam no trecho da Avenida Paraguaçu, a avenida beirando o Rio Paraguaçu, onde ficavam as barracas de bebidas e iguarias típicas –, o São João de Cachoeira se tornou uma atração que transformava a cidade num grandioso ‘arraiá’. Cachoeira recebia milhares de visitantes, principalmente no dia 23, o ponto alto da programação.

Feira da Bahia: Primeiro evento promovido pela Bahiatursa fora do Estado, a Feira da Bahia, realizada no Palácio das Convenções do Parque Anhembi, em São Paulo, de 21 a 29 de setembro de 1974, constituiu-se numa gigantesca mostra da música, cinema, teatro, dança, capoeira, folclore, artes plásticas, arte sacra negra, artesanato, literatura, culinária e festas populares da Bahia. Durante os noves dias do evento, foram apresentados 22 espetáculos e shows musicais com Dorival Caymmi, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Gal Costa. Contando ainda com as participações do afoxé Filhos de Gandhy e de um trio elétrico. Simultaneamente, ocorreram exposições permanentes e exibições de audiovisuais e painéis fotográficos que, além dos atrativos turísticos, mostravam o desenvolvimento industrial baiano, através do Centro Industrial de Aratu, do Pólo Petroquímico de Camaçari e dos distritos industriais no interior. A feira da cultura, do turismo e da indústria na Bahia, em parceria com a Rede Globo de Televisão, teve a campanha publicitária criada pela Apro e produzida pela agência GFM/Propeg. Foi visitada por mais de 120 mil pessoas e teve ampla repercussão na mídia do maior centro emissor de turistas do país.

Salvador/Lisboa: Sem ligação direta com o exterior desde 1940, Salvador voltou, após três décadas, a ter uma linha aérea internacional graças às gestões promovidas pela Bahiatursa junto ao Departamento de Aviação Civil (DAC) e Transportes Aéreos Portugueses (TAP). A ex-capital da Colônia interligou-se à capital da antiga Metrópole com a inauguração da rota Lisboa/Salvador e vice-versa, de freqüência semanal. Em 1974, a Varig fez a ligação com a Espanha, por meio do vôo Salvador/Madri/Salvador.

CTI-NE: A Bahiatursa teve participação destacada na Comissão de Turismo Integrado do Nordeste, formada pelos órgãos oficiais (federais, estaduais e municipais) de turismo dos nove estados do Nordeste brasileiro. A importância da CTI-NE, pioneira no país na concentração de esforços regionais, foi tão relevante que a Organização dos Estados Americanos (OEA) e o governo americano convidaram alguns de seus integrantes para uma visita técnica aos Estados Unidos e México. Pela primeira vez na história do turismo brasileiro um grupo de dirigentes de organismos oficiais viajou ao exterior. Seguiu integrado por seis membros: Manoel Castro (presidente da CTI-NE), Jader Tavares Carneiro (presidente da Empresa de Turismo de Pernambuco), Everardo Montenegro (presidente da Empresa Cearense de Turismo), Esdras Bispo (presidente da Empresa Metropolitana de Turismo do Recife), Gildo Tavares (diretor do Departamento de Turismo da Sudene) e Glauco Augusto Gondim Falcão (gerente da Divisão de Turismo do Banco do Nordeste do Brasil). A comitiva participou de programas especiais, voltados ao desenvolvimento do turismo, nas cidades de Nova Iorque, Washington, São Francisco, Los Angeles, Nova Orleans e Miami. No México esteve na capital federal e em Acapulco.

Congressos no Exterior: O presidente Manoel Castro representou a Bahia, que pela primeira vez se fazia representar,  nos congressos da Confederação das Organizações de Turismo da América Latina (Cotal), realizado em Buenos Aires, e da American Society of Travel Agents (Asta), em Las Vegas e na Cidade do México.

Terceiro presidente da Bahiatursa, Manoel Castro foi quem realmente iniciou o processo da profissionalização do turismo na Bahia. Deixou a presidência da empresa estatal no dia 7 de abril de 1975, quando transmitiu o cargo a Mário de Macêdo Costa Calmon de Bittencourt.

Texto publicado nas  páginas  140/142 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.