Regina Padilha

Ubaldo Marques Porto Filho

Regina Pereira de Mello, nasceu em Salvador, no dia 17 de dezembro de 1934, tendo como pais Alfredo Pereira de Mello (Mica) e Heloísa Dias Lima Mello. Aos 19 anos foi eleita Rainha do Rio Vermelho, sendo considerada uma das jovens mais belas que o Rio Vermelho teve na década de 1950.

Regina namorou um radialista que era seresteiro nas noites seteropolitanas. Não morava no Rio Vermelho, mas andava nas rodas da boêmia desse bairro. Chamava-se Osvaldo Fahel. Um dia, ela lhe comunicou, talvez como forma de valorização da sua beleza física, que tinha recebido um convite para se candidatar ao Miss Bahia. O namorado não gostou da notícia e imediatamente tentou aplicar um cheque mate, mas foi surpreendido com a réplica e a tréplica. Eis o diálogo:

- Você está proibida de se candidatar à Miss!
- E se eu me candidatar?
- Você vai ter de escolher, ou eu ou o concurso!
- O nosso namoro está acabado, Boa Noite!

O Fahel foi embora, convicto de que no outro dia ela lhe telefonaria, para reatar o namoro. Ela não telefonou, ele também não, pois não queria dar o braço a torcer. Gostava muito dela, estava apaixonado, mas iria esperar que a amada pedisse para ele voltar. Essa era a principal norma da cartilha dos machões convencidos da superioridade.

Fahel não vislumbrou que por trás daquela mulher muito bonita poderia haver uma fila de pretendentes. Tinha e a fila andou rápido, pois não demorou de aparecer, na porta da sua casa, um outro jovem namorado, com quem noivou e se casou, deixando o ex-namorado com uma brutal dor de cotovelo que se enraizou em sua alma de homem romântico e poético.

Os poetas jamais se esquecem dos grandes amores. E Fahel não esqueceu do seu amor no Rio Vermelho, tanto que, quatro anos depois, ela já casada e morando em outra cidade, inseriu a saudade numa música belíssima, ‘Morena do Rio Vermelho’, com letra e melodia harmoniosamente bem casadas, que se tornou um grande sucesso, a partir de 1963.

A intuição feminina faria Regina de Mello Padilha (nome de casada) desconfiar que, embora não fosse morena, a música teria sido inspirada nela. E quis ter a certeza, usando uma amiga comum para fazer a sondagem junto ao compositor, que negou a homenagem. Ela somente ficou sabendo que era realmente a musa inspiradora quando leu a revelação que fiz no livro ‘Rio Vermelho’, publicado em dezembro de 1991, já com Fahel morto.

Quando a Regina ficou viúva, senti-me com liberdade para ir conversar a respeito do namoro da musa com o compositor. A primeira pergunta que me fez foi:

“Ele realmente lhe disse que a música foi feita para mim?”. Ante a minha afirmativa, relatou-me como havia conhecido Osvaldo Fahel, no que descobri uma história fantástica, assim por ela resumida:

”Eu era ouvinte de um programa musical da Rádio Sociedade da Bahia, que tinha no comando um radialista de nome Osvaldo Fahel. Ele não cantava, apenas apresentava o programa e conversava pelo telefone com os ouvintes, a grande maioria formada por mulheres, que lhe pediam as músicas preferidas.

Eu me apaixonei pela voz jovial, máscula e sensual daquele locutor, que não conhecia visualmente, nem por foto. Não sabia se era branco, negro ou mulato; se era alto, mediano ou baixo; magro ou gordo; jovem ou maduro; careca ou cabeludo; feio ou bonito. Não tinha nenhuma referência do seu biótipo. Mas a voz era de um príncipe encantado.

Resolvi então telefonar para o programa. Depois de muitas tentativas, pois era difícil completar uma ligação do Rio Vermelho para a rádio, consegui falar com o apresentador. Pedi-lhe, como faziam as ouvintes, uma música de sucesso na época, que não me recordo mais o nome. Escolhi uma qualquer, apenas como motivação para falar com o homem da voz maravilhosa.

Após o pedido, consegui que ele conversasse comigo fora do ar. Tinha que ser rápida, pois sabia que o tempo máximo era o da duração da música que acabara de solicitar. Fui direta ao assunto, dizendo que queria conhecê-lo, que viesse à minha casa, no Rio Vermelho. Evidentemente que, por receber muitas cantadas das fãs, já tinha uma resposta pronta para se esquivar do assédio. Mas eu insisti: “Venha que você não vai se arrepender”, e dei o meu endereço, marcando dia e horário para a visita.

E ele foi conhecer a fã maluca. Tomei um susto quando o homem se identificou, pois era o príncipe encantado dos meus sonhos: jovem, alto e bonito, parecendo um galã dos filmes românticos que eu assistia no Cine Rio Vermelho. Acho que o Osvaldo também se surpreendeu comigo, pois não se arrependeu de ter ido ao Rio Vermelho. Foi embora satisfeito, já como namorado da ex-Rainha do Rio Vermelho. Iríamos, certamente, formar um casal perfeito.

Tudo corria maravilhosamente bem, até que, um dia, numa conversa cotidiana entre namorados, disse-lhe ter sido convidada à participar do Miss Bahia. Sua intempestiva reação, mostrando as garras de machão dominador e autoritário, com a frase “Você está proibida de se candidatar à Miss”, assustou-me e foi fatal.

Como sempre fui uma pessoa muito decidida naquilo que queria e não tinha nenhuma vocação para submissão, reagi na hora, cortando o mal pela raiz. Embora gostasse dele, terminei o namoro, sem direito a reatamento. Virei, definitivamente, uma página na minha vida.

Na nova página, não houve espaço para a candidatura ao Miss Bahia. Houve sim, o espaço para Henri Padilha, com quem me casei, constituí família e fui muito feliz”.