Carlos Lacerda

Ubaldo Marques Porto Filho

Carlos Alberto Freitas de Lacerda nasceu em Salvador, no bairro do Rio Vermelho, em 26 de outubro de 1934, sendo batizado na Igreja de Senhora Sant1Ana, no Largo de Santana. A infância foi passada numa casa de número 7 da atual Rua Eurycles de Mattos, bem próxima do curral do seu Marcos e da balaustrada alva da praia no final da Avenida Oceânica. O bonde da linha do Rio Vermelho de Cima passava defronte da sua residência.

E foi assim, numa ambiência bucólica de um setor do Rio Vermelho denominado Paciência, que Carlinhos cresceu e viveu a adolescência, para mais tarde se projetar como expoente da música, como maestro, arranjador, compositor e, principalmente, como pianista.

Tudo começou quando ele tinha seis anos. Seu pai o levou para assistir ‘À Noite Sonhamos’, filme sobre a vida de Chopin. Foi o despertar e, desde então, não mais abandonaria o piano. Os estudos foram iniciados no próprio Rio Vermelho, com a professora Walkyria Knittel e, já adulto, passou a tocar na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (Ufba), acompanhando as aulas da professora polonesa Yanka Rudzka.

Estudou nos Seminários Livres de Música da Ufba, um centro de referência musical, onde foi aluno de Pierre Klose (piano), Yulo Almirante Brandão (harmonia e contraponto) e Hans Joachim Koellreutter (regência e orquestração). Em março de 1959, organizou uma orquestra com 32 músicos. A ‘Carlos Lacerda e Sua Orquestra’ ficou tão famosa e requisitada que a sua presença passou a ser obrigatória em todos os eventos importantes que se realizavam em Salvador.

Ainda em 1959, Carlos Lacerda compôs Giboeirinha, o primeiro sucesso, inspirado na cantora Ilma Gusmão, uma de suas paixões. Ela tinha nascido no povoado de Cabaceira da Jiboia, no município de Vitória da Conquista. O título de Giboeirinha derivou de Jiboia.

Em 1961, o maestro gravou o primeiro LP, ‘Carlos Lacerda, o Governador do Teclado’. O codinome foi em razão do Estado da Guanabara estar sendo governado por Carlos Lacerda, político carioca que ficou famoso por ter sido o pivô de uma crise que culminou no suicídio do presidente Getúlio Vargas, em 1954. Então, para diferenciar os homônimos, a gravadora - Companhia Industrial de Discos - achou por bem agregar ao nome do pianista baiano o título de ‘Governador do Teclado’.

Carlos Lacerda foi diretor musical da primeira gravadora baiana, a JS, e durante onze anos trabalhou na TV Itapoan, sendo inclusive diretor artístico. Nessa emissora, comandou inúmeros programas e dava suporte aos cantores (famosos ou não) que se apresentavam no Canal 5, fazendo o acompanhamento sozinho, no teclado do seu piano, ou com as participações do baixista Moacyr Albuquerque e do baterista Tutti Moreno,

Casa do Rio Vermelho

A casa da família Lacerda no Rio Vermelho (ele morava com os pais) ficou famosa como ponto de encontro de compositores, músicos e cantores amigos do Carlos. Nas noites das sextas-feiras, entrando pela madrugada, aí se reunia a nata musical de Salvador para um sarapatel.

Nos saraus da casa do Lacerda, sempre havia a presença de algum artista em trânsito por Salvador, que chegava para se apresentar nos programas da TV Itapoan, todos ao vivo, pois ainda não havia o recurso do vídeotape. O mais assíduo era o cantor pernambucano e show-man Luiz Vieira, de muito sucesso no eixo Rio-São Paulo. Ele comandava um programa semanal na Itapoan e se tornou muito amigo do Lacerda.

Brincadeiras & trotes

Extrovertido e brincalhão, Lacerda enchia qualquer ambiente e tinha um gosto primoroso em pregar peças nos conhecidos. Foi autor de trotes que ficaram célebres, como a famosa ‘Carta do Japão’, que eu assisti ele mesmo contar, no Bar da Pastelaria, localizado no Largo de Santana, onde vez por outra entrava para tomar um uísque com os amigos do Rio Vermelho, que o chamavam de Alemão, apelido ganho na meninice.

Esses amigos diziam que o Alemão tinha medo de viajar de avião, que era um cara legal e generoso, mas cheio de manias. Fui testemunha de uma delas: a fase do traje todo branco. Parecia que era médico, com a diferença das camisas serem todas de mangas compridas com gola rolê.

Com relação à ‘Carta do Japão’, sabendo da viagem que um amigo faria ao Japão, o Alemão preparou uma carta e pediu que fosse despachada de lá. Era endereçada à direção da TV Itapoan. Quando a carta chegou, vinda de Tóquio, foi aquele reboliço, aquela alegria no gabinete do diretor geral, Paulo Nacif, pois a missiva continha uma notícia sensacional: um brasileiro, que residia na capital japonesa, informava que estava captando a imagem e som da TV Itapoan. Inclusive, citou os nomes dos programas que assistia. Isso dito numa época em que nem por sonho se pensava na possibilidade futura das transmissões via satélite, foi uma bomba.

Chamado ao gabinete da direção, para também tomar conhecimento da grande notícia, e após ouvir um técnico dizer que não conseguia entender como a imagem da Itapoan poderia chegar a uma distância tão longa, Lacerda fez o seguinte comentário: “Só pode ser milagre do Senhor do Bonfim!”

O impacto foi tão grande que a direção ordenou que a carta fosse lida na íntegra, no noticiário da noite, em horário nobre do Canal 5, ainda o único de Salvador. O redator da notícia que antecedeu a leitura do documento deu tons sensacionalistas ao poder do alcance da Itapoan, que estava chegando ao outro lado do mundo!

Prestígio do maestro

Carlos Lacerda participou de vários júris de concursos e programas musicais, tendo inclusive integrado o corpo de jurados da Grande Chance, programa apresentado por Flávio Cavalcante na TV Tupi do Rio de Janeiro.

Convites para deixar Salvador nunca lhe faltaram. Um deles foi do maestro americano Henry Mancini, dono de uma orquestra famosa, para que fosse trabalhar e mostrar sua arte nos Estados Unidos. Mas Lacerda, recusou-se a sair da sua cidade, de onde nunca se afastou, a não ser por poucos dias.

Em 1967, em virtude de desfalques no quadro de músicos, e também em face dos elevados custos para a sua manutenção, Lacerda foi obrigado a reduzir a equipe da sua orquestra. Transformou-a num conjunto, que foi mantido até o seu falecimento.

Composições

Como compositor, Carlos Lacerda foi autor de duas dezenas de músicas, sendo uma parte em parceria com Carlos Coqueijo Costa, Cid Seixas, Dorival Caymmi, Edil Pacheco, Henrique Gregori, Jocafi, Jorge Amado, Luiz Vieira e Moacir Franco. Algumas foram gravadas por intérpretes de peso, como Jair Rodrigues, Luiz Vieira, Osvaldo Fahel, Pery Ribeiro e Wilson Simonal.

Discografia

Em 1963, dois anos depois do lançamento do primeiro disco, ‘Carlos Lacerda, o Governador do Teclado’, saiu o LP ‘Um Piano da Bahia’, que lhe valeu um prêmio, a Medalha Estácio de Sá, recebida no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O pianista ainda gravaria um terceiro LP, ‘Carlos Lacerda, Piano de Informal’, com capa ilustrada por Carybé e assinada por Jorge Amado.

Nesse último disco estava incluída a música Apolo 11, de autoria do jovem Antônio Carlos Pinto, em parceria com Luís Berimbau e Ildásio Tavares. Jocafi, que depois faria dupla de sucesso com o Antônio Carlos, também teve uma música gravada, feita em parceria com o próprio Lacerda.

Morte repentina

O dia 12 de novembro de 1979, uma segunda-feira, clareou normalmente, como outro dia qualquer na vida de Carlos Lacerda. Pela manhã ele esteve em bancos, resolvendo assuntos particulares, e à tarde foi ao estúdio fotográfico de Vavá, onde posou para fotos que seriam utilizadas numa reportagem.

À noite, em casa, com a esposa Irany Silveira, assistia um programa na televisão quando começou a sentir fortes dores no peito. Telefonaram para um médico amigo, que mandou que lhe dessem urgentemente um medicamento e o levassem imediatamente ao Hospital Santa Isabel, especializado em cardiologia. Conduzido por um cunhado, já chegou sem vida ao Largo de Nazaré, onde ficava o Santa Isabel. O relógio marcava 23 horas quando o grande pianista e maestro faleceu, vitimado por um enfarte, aos 45 anos.

Carlos Lacerda deixou duas filhas, Mayra e Constance, do primeiro casamento, com Marlene Lima. Em sua homenagem, no Parque Primavera, bairro do Rio Vermelho, existe a Rua Maestro Carlos Lacerda, registrada na Prefeitura com o codilog nº3931.

Fontes:
1. Livro ‘Rio Vermelho’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
publicado em 1991.
2. tempomusica.blogspot.com.br/2010/10/carlos-lacerda.html