Carmen Miranda

Ubaldo Marques Porto Filho

Maria do Carmo Miranda da Cunha nasceu no dia 9 de fevereiro de 1909, em Várzea de Ovelha, aldeia localizada a quarenta quilômetros da Cidade do Porto, Portugal. Quando tinha sete meses, seu pai, José Maria Pinto da Cunha, embarcou para tentar a sorte no Brasil, como barbeiro no salão de um patrício, no centro do Rio de Janeiro. Dois meses depois, mandou vir a esposa, Maria Emília Miranda da Cunha e as duas filhinhas, Olinda e Maria do Carmo. A pequena Carmen, como era chamada, tinha dez meses quando desembarcou na capital brasileira. A família foi, aos poucos, progredindo.

Enquanto o senhor Pinto se tornou proprietário de uma barbearia, dona Maria trabalhava como lavadeira. Depois, no próprio sobrado que passaram a residir, na Travessa do Comércio 13, na área comercial do Rio de Janeiro, ela resolveu servir refeições para o pessoal que trabalhava nas proximidades. Também entregava marmitas na vizinhança. A casa ficou conhecida como ‘Pensão de Dona Maria’, mas não oferecia nada além dos almoços, à moda portuguesa, com certeza. Era, na verdade, um modestíssimo restaurante familiar, no primeiro andar do prédio.

Um dos frequentadores era o dentista Aníbal Duarte d’Oliveira, nascido em Salvador, que exercia a profissão de jornalista (em outubro de 1934, elegeu-se deputado à Assembléia Constituinte do Pará). Um dia ele viu Carmen ajudando a mãe a servir os pratos. A moça estava com vinte anos e desempregada, pois acabara de sair de uma loja onde trabalhara como balconista. Por essa razão, foi vista pelo jornalista baiano de 39 anos, que se impressionou com os dotes vocais da jovem que cantarolava enquanto atendia os fregueses.

Aníbal se propôs a apresentá-la a um conterrâneo, o compositor e violonista Josué de Barros, muito bem relacionado no meio artístico. Josué também ficou impressionado, vislumbrando logo que estava com um diamante na mão, que necessitava apenas de pequenas lapidações. Após algumas aulas e ensaios, na própria pensão de dona Maria, o músico baiano levou-a, em agosto de 1929, à gravadora alemã Brunswick, recém-instalada na capital federal. Após um teste, a gravadora resolveu bancar um disco 78 rpm, com duas músicas: de um lado o samba ‘NãoVá S’Imbora’, do outro o choro ‘E o Samba é Moda’, ambos de autoria do padrinho da cantora. O disco ficou pronto em setembro, mas a Brunswick informou que somente o lançaria no mercado em janeiro, deixando Josué de Barros aborrecido.

Julgando que se tratava de um descaso, e como não havia sequer um contrato assinado, o compositor agiu rápido. Levou Carmen para outra gravadora, a americana Victor, onde foi gravado, em 4 de dezembro de 1929, um disco com mais duas músicas de Josué: a canção toada ‘Triste Jandaia’ e o samba ‘Dona Balbina’. Cinco dias depois, apostando na cantora, a Victor incluiu-a na faixa B de um outro disco, onde Carmen interpretou, também de Josué de Barros, a macumba ‘História de um Capitão Africano’.

Mas a sorte de Carmen foi selada em janeiro de 1930, com a gravação simultânea de mais dois discos na Victor: O primeiro continha ‘Iaiá, Ioiô’, marchinha de Josué de Barros, e ‘Burucutum’, samba de Sinhô. No segundo gravou ‘Mamãe Não Quer’, samba canção de A. de Carvalho, e ‘Pra Você Gostar de Mim’, marchinha de Joubert de Carvalho, que ficou famosa como ‘Taí’ e lançou Carmen Miranda no estrelato musical nacional, de onde nunca mais sairia.

Já ostentando o título de ‘Rainha do Rádio’, a cantora chegou em Salvador no dia 20 de setembro de 1932, para uma temporada de shows que também incluía as cidades de Cachoeira, São Félix e Alagoinhas. Na capital baiana, Carmen ficou trinta dias, tempo suficiente para conhecer seus principais pontos turísticos: praias, monumentos e igrejas. Na Colina Sagrada, pediu proteção ao Senhor do Bonfim e fez uma promessa.

Esteve também no Mercado Popular, onde almoçou no restaurante de Maria de São Pedro, que tinha o nome de ‘Estrela do Mar’ e a fama de servir ‘o melhor vatapá do mundo’. Não foi levada a nenhum terreiro, pois os candomblés ainda se encontravam sob a repressão policial. Mas viu muitas baianas em trajes típicos, que talvez tenham sido a fonte da inspiração ao criar e incorporar o traje de baiana estilizada, inaugurado quando cantou ‘O Que é Que a Baiana Tem?’, no filme ‘Banana da Terra’.

Foram de autoria do compositor baiano Josué de Barros as seis primeiras músicas da discografia de Carmen Miranda, que depois gravaria mais três da lavra do seu violonista e mentor profissional. De um outro baiano, Assis Valente, a cantora gravaria, de 1932 a 1940, vinte e quatro composições, entre sambas e marchinhas. De Dorival Caymmi foram quatro músicas. Quanto à temática baiana nas letras, encontram-se os seguintes sucessos:

1932: ETC...
Samba de Assis Valente
1936: NO TABULEIRO DA BAIANA
Batuque de Ary Barroso
1937: CANJIQUINHA QUENTE
Samba-batuque de Roberto Martins
1937: BAIANA DO TABULEIRO
Samba de André Filho
1937: QUANDO EU PENSO NA BAHIA
Samba-jongo de Ary Barroso
1938: NAS CADEIRAS DA BAIANA
Samba de Portelo Juno e Léo Cardoso
1938: NA BAHIA
Samba-jongo de H. Porto e H. Martins
1938: NA BAIXA DO SAPATEIRO
Samba-jongo de Ary Barroso
1939: CANDIEIRO
Partido alto de Kid Pepe e David Nasser
1939: A PRETA DO ACARAJÉ
Cena baiana de Dorival Caymmi
1939: O QUE É QUE A BAIANA TEM?
Samba-jongo de Dorival Caymmi

Na voz de Carmen Miranda o Brasil inteiro ouviu pela primeira vez a frase ‘Bahia, Terra da Felicidade’, contida na letra de ‘Na Baixa do Sapateiro’. Seu último grande sucesso, cantando um tema baiano, foi ‘O Que é Que a Baiana Tem?’, que enfeixou três fatos marcantes e históricos: por causa dessa música, Carmen passou a se apresentar sempre caracterizada de ‘baiana estilizada’, que se transformou na sua marca registrada; conduziu Dorival Caymmi à fama nacional, pois gravou a composição do até então desconhecido baiano em dueto com o mesmo; deu visibilidade internacional, tanto ao compositor como à música, ao gravá-la nos Estados Unidos, seis meses após a estréia avassaladora em Nova Iorque, na Broadway, no dia 19 de junho de 1939, no Broadhurst Theatre.

Carmen iniciou o show com ‘Bambu, Bambu’, para em seguida cantar ‘O Que é Que a Baiana Tem?’ e outras músicas que arrebataram a platéia e a critica especializada. Uma única apresentação, na Broadway, levou Carmen à fama nos Estados Unidos, abrindo-lhe inclusive as portas em Hollywood.

Consagrada como cantora e atriz de cinema, Carmen Miranda tornou-se uma celebridade mundial. Com o look de baiana, muito contribuiu na divulgação da Terra da Felicidade. A imagem do seu figurino profissional ficou tão associado à Bahia que alguns jornalistas se referiam à cantora como ‘a baiana’. Em 1940, inspirado na performance de Carmen nos Estados Unidos, Assis Valente compôs o samba exaltação ‘Brasil Pandeiro’, gravado no ano seguinte pelos Anjos do Inferno. O sucesso foi imediato. Eis um trecho da letra:

          O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada
          Anda dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato
          Vai entrar no cuscuz, acarajé e abará
          Na Casa Branca já dançou a batucada de Ioiô e Iaiá
          Brasil, esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros
          Que nós queremos sambar...

Os efeitos da propaganda espontânea irradiada por Carmen Miranda, verdadeira embaixatriz do vestuário e cantante das coisas da Bahia, continuaram mesmo depois da sua morte, quando virou mito eterno.

Carmen faleceu na mansão que possuía em Beverly Hills, de infarto fulminante, aos 46 anos, na madrugada de 5 de agosto de 1955, logo após ter gravado uma participação no ‘The Jimmy Durante Show’, famoso programa de televisão da rede NBC, onde sentiu um rápido mal-estar. Encontrava-se ainda na plenitude da evidência no show business.

Carmen Miranda acabara de retornar a Los Angeles, depois de uma temporada em Cuba, onde fizera apresentações em Havana,  no Tropicana, o maior e melhor nightclub do mundo, controlado por empresários de Las Vegas e frequentado pelos milionários americanos. Sob a comoção popular, foi sepultada no Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 1955.

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Texto publicado na página  52/55 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.