Carybé

Ubaldo Marques Porto Filho

Hector Julio Paride Bernabó, ou simplesmente Carybé, nasceu na cidade de Lanús, região de Buenos Aires, Argentina, no dia 7 de fevereiro de 1911. Filho de italiano com brasileira, passou a infância em Nápoles, a adolescência no Rio de Janeiro e a juventude em Buenos Aires, onde se iniciou no jornalismo, que o levaria a um périplo pela América do Sul.

Em 1938, Carybé esteve em Salvador. A visita marcou profundamente o jovem viajante, que se encantou com as belezas naturais, com o casario, a capoeira, o candomblé, o misticismo e o povo alegre e hospitaleiro. Enfim, Salvador era a cidade de todos os encantos, a Terra da Felicidade.

Salvador não lhe saiu mais do pensamento. Retornou em 1941 e repetiu a dose em 1944. Mas, continuou viajando pelo continente sul-americano, fazendo reportagens e pintando quadros inspirado nas paisagens e nos personagens populares.  Expunha suas obras em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Em 1950, já casado e com um filho, resolveu vir para Salvador com a família. Morou na casa de número 3614 da Avenida Oceânica, no trecho do sopé do Morro da Sereia, Rio Vermelho, o ‘bairro dos artistas’. Porém, irrequieto e de espírito nômade, Carybé retornaria à Argentina, onde era artista premiado e muito conhecido. Mas o feitiço baiano já tinha produzido seus efeitos e trouxe o viajante de volta.

Em 1961, aos 50 anos, chegou para morar definitivamente em Salvador, em caráter irreversível. E voltou também para o Rio Vermelho, residindo desta feita no segundo andar do sobrado n° 7 no histórico Largo de Santana, defronte à praia do mesmo nome, porto dos pescadores e local da Festa de Yemanjá, no dia 2 de fevereiro.

Finalmente Carybé havia se rendido ao que chamava de ‘cidade dos sonhos’, cheia de encantos, de diversidades e rica culturalmente. Enxergou em Salvador uma cidade plural, como ele, um artista múltiplo. Além de jornalista era pesquisador, historiador, escritor, ilustrador de livros, cartunista, cenógrafo, desenhista, gravador, muralista, escultor e pintor.

No Rio Vermelho chegou a iniciar a construção de uma casa no Parque Cruz Aguiar, num lote na confluência das ruas Itabuna, Canavieiras e Feira de Santana.  Mas, preferiu vender o imóvel ainda inacabado para fincar raízes no bairro de Brotas, onde instalou a residência e o ateliê definitivos.

A Bahia foi uma fonte de inspiração permanente para centenas de imagens fixadas num traço inconfundível, em esculturas, painéis, gravuras, desenhos, aguadas e quadros a óleo. O nome Carybé virou sinônimo de arte da Bahia, que se irradiou para o restante do país e pelo mundo.

Carybé faleceu aos 86 anos, na noite de 1º de outubro de 1997. Sofreu um enfarte quando participava de um ritual no terreiro de candomblé do Ilê Axé Opô Afonjá, donde era ogã confirmado, ‘Ministro de Xangô’. Deixou mais de cinco mil trabalhos que se encontram espalhados por diversas cidades brasileiras e no exterior. No Museu Afro-Brasileiro de Salvador encontram-se 27 painéis representando os orixás, sendo o de Yemanjá o mais marcante.

Centenário do nascimento

O Ministério da Cultura, através da Biblioteca Nacional, festejou o centenário do nascimento de um dos gênios das artes plásticas com uma mostra de livros aberta ao público por 60 dias, em sua sede, no Rio de Janeiro. Denominada ‘100 anos de Carybé’, a exposição foi inaugurada no dia do aniversário do artista, 7 de fevereiro de 2011, que se vivo estivesse estaria comemorando 100 anos.

A Casa da Moeda do Brasil também homenageou o notável artista. Em solenidade realizada em Salvador, lançou uma medalha comemorativa aos 100 anos do argentino naturalizado brasileiro, que teve suas obras evidenciadas por um estilo peculiar, sem similar no mundo.

Reconhecido e premiado internacionalmente, Carybé possuía uma relação muito íntima com a Bahia, sendo fortemente influenciado pelos valores da sua cultura e pela miscigenação racial de um povo marcado pelo sincretismo religioso. Depois de muita andança, de déu em déu, artista escolheu Salvador para se fixar definitivamente e o Rio Vermelho foi o primeiro bairro onde residiu na capital baiana.

-----------------------------------------------
Texto publicado na página 10 do jornal
‘Folha do Rio Vermelho’
Nº 19 - Março 2011.