Deraldo Motta

Ubaldo Marques Porto Filho

Deraldo Motta nasceu em 30 de novembro de 1918, na Fazenda Duas Barras, no distrito de Mutum, município de Jiquiriça. Pela Lei 1882, de 26 de julho de 1926, o distrito foi emancipado e elevado à condição de município com o nome de Mutuípe. Deraldo cursava o primário na Escola Municipal e assistiu as festividades cívicas pela instalação do novo município, que teve entre os oito conselheiros (atuais vereadores) da Câmara Municipal o seu pai, Joaquim Alves da Motta, que ficou sendo o segundo secretário da mesa diretora.

Concluído o curso primário, Deraldo foi enviado para estudar interno em Nazaré das Farinhas, no famoso Ginásio Clemente Caldas, fundado pelo educador, escritor e jornalista Anísio Melhor. Neste estabelecimento destacou-se como excelente aluno em matemática, português e história. Desenvolveu também o gosto pela leitura, sendo frequentador assíduo da biblioteca, donde retirava romances de autores consagrados, livros biográficos e volumes das enciclopédias de história mundial.

Concluído o primeiro grau, o adolescente mudou-se para Salvador, iniciando no Colégio Marista o curso científico. Reprovado no primeiro ano, transferiu-se para o Colégio Ipiranga, onde amargou nova reprovação. Admoestado pelos pais, que o acusaram de não estar dando o devido valor ao esforço para mantê-lo na capital, Deraldo os surpreendeu com a decisão de desistir dos estudos.

As reprovações não tinham ocorrido por desleixo. O motivo foi a falta de apetência na assimilação de algumas matérias que abominava. Queria ser advogado, mas o período de três anos (caso não aparecesse nova repetência) para atravessar o científico, mais o tempo numa faculdade de direito, foram determinantes para a desistência. Prático, irrequieto e sem paciência para a longa jornada acadêmica, resolveu enfrentar os desafios na área comercial. A vocação havia se manifestado aos 13 anos, quando - nos dias da feira livre semanal, durante as férias escolares - vendia fumo de corda e sal na porta do armazém do pai, já residindo em Jaguaquara.

Deraldo foi, sucessivamente, mascate (vendedor ambulante) de tecidos, perfumarias e miudezas, caixeiro viajante e pracista de produtos farmacêuticos, estes dois últimos como assalariado de atacadistas estabelecidos em Salvador. Como caixeiro tirava pedidos para os famosos chapéus Prada e para uma gama de artigos para lojas e armarinhos. Como pracista fazia propaganda, junto à classe médica, e vendia para as farmácias os medicamentos de diversos laboratórios. O primeiro emprego foi na firma Representações Costa Pinto & Cia.. Depois, trabalhou para Elias Rubeiz, representante de miudezas, e para Guilherme Savastano, atacadista de produtos farmacêuticos.

As fontes do abastecimento comercial ficavam em Salvador, para onde Deraldo viajava periodicamente. Mas sua área de atuação era no eixo da Estrada de Ferro de Nazaré, que começava no porto da cidade onde cursara o ginásio e terminava em Jequié. Entre esses pontos extremos, e mais desenvolvidos, ficavam as cidades de Santo Antônio de Jesus, São Miguel das Matas, Amargosa, Laje, Mutuípe, Jiquiriçá, Ubaíra, Santa Inês, Itaquara e Jaguaquara. Também andava por Brejões, Itiruçu e Maracás. Nesta última, abriu uma pequena loja de tecidos e miudezas, iniciando-se no ramo lojista, mas sem abandonar a atividade de viajante comercial.

Apostando no grande tino comercial da mãe, Nina Santos Motta, que havia aberto em Jaguaquara a Loja Nina, o filho convenceu-a a dar um salto audacioso. Em 1941, aos 22 anos, levou toda a família para residir em Jequié, cidade próspera, verdadeira capital regional, localizada a 51 km de Jaguaquara, onde foi aberta a Loja Motta.

Dinâmico e articulador nato, em dois anos Jequié ficou pequena para as metas e ambições comerciais de Deraldo. Em novo trabalho de convencimento, junto à dona Nina, esteio dos negócios familiares, redundou numa nova mudança, para Salvador, em 1943.

Na capital baiana Deraldo havia conseguido um ponto comercial na Baixa dos Sapateiros, o mais movimentado corredor comercial da cidade, onde foi aberto o Armarinho Santo Antônio, que seria o berço para o nascimento, em 1º de setembro de 1947, da primeira Loja O Cruzeiro. Sob a administração de dona Nina, e tendo Deraldo como líder na linha de frente, foi sendo construída uma importante cadeia de lojas, consolidada com a participação e o trabalho de todos os filhos e genros da matriarca.

Nos primeiros anos em Salvador Deraldo trabalhou duro e de maneira incansável para que o empreendimento da família Motta fosse vitorioso num setor onde a concorrência era enorme. As Lojas O Cruzeiro atuavam nos segmentos de artigos para o lar, eletrodomésticos e presentes.

Comunicativo e idealista, foi também fazendo importantes amizades e contatos com as lideranças que controlavam o Sindicato dos Lojistas do Comércio e do Comércio Varejista de Material Elétrico da Cidade do Salvador. Nos registros da entidade o nome Deraldo Motta apareceu pela primeira vez na ata de uma assembléia geral extraordinária realizada em 31 de março de 1951. Ele foi um dos três integrantes da chapa única que elegeu os três representantes do Sindicato como vogais dos empregadores nas Juntas de Conciliação e Julgamento da Quinta Região do Tribunal Regional do Trabalho.

Ainda em 1951, no dia 22 de junho, Deraldo figurou como escrutinador da assembléia geral que deliberou sobre a filiação do Sindicato à Federação do Comércio do Estado da Bahia (Fecomércio), com a respectiva eleição de dois delegados. Em nova assembléia, realizada em 31 de maio de 1952, Deraldo foi eleito para dois cargos: delegado do Sindicato, no Conselho de Representantes da Fecomércio e diretor secretário do Sindicato.

No Sindicato dos Lojistas, como não havia a figura do vice-presidente, por diversas vezes, durante viagens do presidente, Deraldo assumiu a presidência da entidade. Na Fecomércio, a sua ascensão foi velocíssima. Recém chegado, como delegado, com apenas dois meses de casa, fez parte, como diretor secretário, da chapa que concorreu e venceu a eleição realizada em 3 de agosto de 1952. Portanto, cumulativamente, passou a ser secretário do Sindicato e da Fecomércio. Na eleição de 3 de agosto de 1954, ao contrário da anterior, a eleição na Federação do Comércio foi por meio de chapa única, com Deraldo Motta na primeira vice-presidência.

Em 1956, Deraldo candidatou-se à presidência do Sindicato e da Fecomércio. No dia 26 de julho venceu no Sindicato dos Lojistas do Comércio e do Comércio Varejista de Material Elétrico da Cidade do Salvador. No mês seguinte, em 13 de agosto, foi vitorioso na Fecomércio, numa disputa em que venceu, por apenas dois votos de diferença, o poderoso empresário e político Orlando Moscozo Barreto de Araújo, candidato à reeleição.

A partir daí, Deraldo firmou-se como grande líder do comércio baiano e adquiriu expressividade nacional, tendo sido, dentre outros cargos, diretor sindical da Confederação Nacional do Comércio e 1º vice-presidente da CNC. Graças à uma vasta gama de importantes realizações, passou a ser reeleito para continuar no comando da Federação do Comércio do Estado da Bahia. No dia 9 de setembro de 1986, tomou posse pela 13ª vez consecutiva, sendo nas doze últimas eleito através de chapa única.

Terceiro presidente da entidade fundada em 2 de maio de 1947, Deraldo acabava de completar 30 anos no seu comando e tendo como crédito a realização dos seguintes grandes empreendimentos: Centro de Formação Profissional do Senac, na Baixa dos Sapateiros; Colônia de Férias do Senac, na Praia de Piatã; Centro de Recreação Infantil do Sesc, no bairro de Nazaré; Centro de Formação Profissional para Turismo e Hospitalidade do Senac, no Pelourinho.

Mas, para muitos, o principal marco de Deraldo na presidência da Fecomércio foi a Casa do Comércio, construída na Avenida Tancredo Neves, um prédio considerado monumental, com 14 pavimentos. Numa arquitetura de vanguarda, em que pela primeira vez na Bahia se associou o concreto ao aço, ao alumínio e ao vidro, a Casa do Comércio, antes mesmo de ser dada como concluída, recebeu uma premiação nacional e referências internacionais. Após, cinco anos de obras, em 1985 o prédio ficou pronto, mobiliado e com os jardins suspensos floridos, quando o Nelson Lopes, diretor e fiel escudeiro do presidente, propôs que a inauguração fosse marcada para o Dia do Comerciante, 16 de julho. Deraldo respondeu-lhe: “Não, somente inauguro quando estiver tudo funcionando e sem nenhum operário dentro. Vamos fixar como meta o 30 de outubro, Dia do Comerciário!”.

Deraldo Motta faleceu repentinamente, de infarto agudo do miocárdio, na madrugada do dia 13 de julho de 1987, dormindo em seu apartamento, em Salvador, aos 68 anos. O enterro foi apoteótico. Poucos líderes baianos tiveram um sepultamento tão concorrido. Milhares de pessoas foram dar-lhe o último adeus. O Campo Santo ficou pequeno para abrigar a multidão formada por empresários, comerciários, autoridades, políticos, parlamentares, jornalistas, lideranças dos sindicatos patronais e de outros segmentos da sociedade baiana. Sob forte emoção popular, o corpo de Deraldo foi depositado na campa 866 da quadra 11.

Com Deraldo Motta também morreram os três outros empreendimentos que ele daria início após a inauguração da Casa do Comércio: o Restaurante Escola de Porto Seguro, a Universidade do Trabalho e o Centro de Estudos. Este último seria uma instituição para colocar a Bahia em evidência no Nordeste.

O palácio onde se sobressaem a estrutura de aço, os vidros fumê e os jardins supensos, que ele deixou pronto e foi inaugurado pelo novo presidente da Fecomércio, Nelson Daiha, foi batizado com o nome de Casa do Comércio Deraldo Motta.

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Texto condensado do livro
‘Deraldo Motta, Realizador de Sonhos’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
 publicado em 2005.