Dinha do Acarajé

Ubaldo Marques Porto Filho

Lindinalva de Assis, a Dinha do Acarajé, nasceu em Salvador, no dia 20 de maio de 1951 e faleceu no dia 16 de maio de 2008, quatro dias antes de completar 57 anos. Em 1961, com apenas dez anos, a menina que nasceu na Maternidade Nita Costa, no Rio Vermelho, substituiu a avó Ubaldina no mais antigo tabuleiro de acarajé do bairro, em atividade no Largo de Santana desde janeiro de 1944. Foi deste largo que Dinha se projetou nos cenários regional, nacional e internacional.

Eis como o jornal Correio da Bahia, em manchete na primeira página, sob o título ‘Bahia perde o sabor de Dinha do Acarajé’ noticiou o seu falecimento, com uma foto evidenciando uma das marcas registradas da baiana, o sorriso largo e cativante:

“A baiana de acarajé mais famosa do país, Lindinalva de Assis,
a Dinha do Acarajé, morreu ontem, aos 56 anos, após sofrer uma
parada cardiorrespiratória. Ela estava internada há uma semana
no Hospital Aliança por conta de um quadro de gripe forte e
falta de ar. Familiares, amigos, artistas e autoridades do Estado
compareceram ao sepultamento no Cemitério Jardim da Saudade.
Dona de um sorriso farto, Dinha transformou seu tabuleiro no
Rio Vermelho em um símbolo de sucesso”.

Mas Dinha não foi apenas um símbolo de sucesso como excelente preparadora de acarajés e abarás. Ela constituiu-se numa figura de proa na divulgação do ofício das baianas. Seu destaque a transformou numa verdadeira embaixadora itinerante, pois participou de dezenas de eventos no país e no exterior. Num deles, em julho de 1997, a convite da empresa Sharp, esteve no principado de Mônaco, onde passou dez dias trabalhando em uma promoção sobre o Brasil. No ‘village brasileiro’, que foi montado na área do porto, em La Condamine, Dinha teve a grata surpresa de receber a visita da família real monegasca.

A ‘Rainha do Acarajé’ também muito contribuiu para a valorização da classe das quituteiras de rua. Graças a sua fama e prestígio, irradiados a partir do tabuleiro no Largo de Santana, as baianas de acarajé foram deixando de ser meras vendedoras ambulantes, ou vistas apenas como exóticas figurantes nas fotos dos turistas. Elas foram se afirmando como símbolos fortes de um importante segmento da cultura baiana.

Por causa da ‘Pelé das Baianas’, a profissão ganhou maior visibilidade e respeito. Muitas baianas saíram do anonimato das esquinas para ficarem conhecidas por seus nomes, que se transformaram em marcas famosas na cidade. O povo soteropolitano e os turistas passaram também a consumir mais abarás e acarajés, ensejando o aparecimento de novas baianas, inclusive brancas, o que era muitíssimo raro antes do fenômeno Dinha. E até homens, os ‘baianos’, apareceram com tabuleiros de acarajé.

Foi ainda a partir de Dinha que se abriu a porta para o longo processo que culminaria no reconhecimento oficial do valor, da tradição e do principal produto das baianas, o acarajé. Em nível nacional o reconhecimento foi registrado no “Livro dos Saberes”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Em solenidade pública, realizada no dia 15 de agosto de 2005, a baiana de acarajé passou à condição de Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil.

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Texto condensado do livro ‘Dinha do Acarajé’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
publicado em 2009.