Heinz Schueler

Ubaldo Marques Porto Filho

O Rio Vermelho, primeiro balneário turístico da Bahia, foi o centro preferencial do veraneio das famílias ricas do centro de Salvador durante meio século, de 1880 a 1930. Depois desse ciclo áureo, o bairro cheio de sobrados, casarões e palacetes,  transformou-se  no  recanto dos artistas. No início da década de 1950 ganhou o status de “Bairro dos Artistas”. Por isso, os autores do livro ‘Cidade do Salvador, Caminho do Encanto’, Darwin Brandão & Mota e Silva, escreveram em 1958: “O Rio Vermelho é o local preferido para residência de artistas. É o Montparnasse baiano”.

E para morar nesse “Montparnasse”, em dezembro de 1953 chegou o mosaicista alemão Heinz Schueler, que se instalou na Rua Alagoinhas, localizada no loteamento Parque Cruz Aguiar. Ele ocupou a casa de número 24, depois mudado para 13, atual 188. Estabeleceu-se no Rio Vermelho com toda a família, formada pela esposa Helene, a filha Renate e o filho Fredy, ambos crianças.

Schueler foi apresentado a Carybé, que também residia no Rio Vermelho, com quem fez imediatamente uma produtiva parceria, que funcionava da seguinte forma: Carybé fazia os desenhos e contratava Schueler para a construção dos mosaicos. No rodapé das obras, junto ao seu nome, Carybé colocava o seguinte crédito: “Mosaico Schueler”.

A intenção do artista era ficar definitivamente em Salvador. Porém, em face dele e Helene terem contraído malária, os médicos recomendaram que fossem morar numa região de clima frio. Em março de 1955 a família mudou-se para São Paulo. Heinz deixou na capital baiana vários trabalhos importantes, todos feitos por encomenda de Carybé, para quem continuou produzindo murais, localizados em diversas outras cidades.

Além dos trabalhos em murais fixos, em São Paulo ele expunha e vendia peças individuais, pequenos mosaicos de sua própria criação, com a assinatura Heinz Schueler. Acatando sugestão de que obras deveria usar um nome menor, passou a assiná-los com o pseudônimo ‘Carijó’.

Perfil do artista

Esse ano, no dia da Festa de Yemanjá, quando o Rio Vermelho estará sendo o palco de mais uma edição da maior manifestação pública do mundo em homenagem à Rainha do Mar, comemora-se também o centenário de nascimento de Karl Heinz Johannes Schueler. Ele veio ao mundo no dia 2 de fevereiro de 1911, em Berlim, Alemanha. Na cidade natal aprendeu a trabalhar com mosaicos no Ateliê Wagner, que recebia muitas encomendas do exterior para fazer mosaicos em equipamentos públicos. Em função disso, a partir dos 19 anos começou a viajar, para executar trabalhos, tendo residido em Paris e Budapeste.

Em Zurique, na Suiça, Heinz Schueler trabalhava num atelier de mosaicos quando conheceu Ernesto Tobler (homônimo do pai, suíço que tinha sido diretor da Dannemann, famosa produtora de charutos com sede em São Félix, no Recôncavo baiano) que o encorajou a vir para Salvador e começar a trabalhar de forma independente, sem a intermediação dos ateliês de terceiros.

A bordo do transatlântico inglês Alcantara, desembarcou com a família no porto de Salvador no dia 17 de dezembro de 1953, ficando hospedado na Pensão Jansen, no Corredor da Vitória, pertencente a um suíço. O próprio Tobler, que residia na Rua Conquista, bairro do Rio Vermelho, foi quem arranjou a casa para ele morar, como seu vizinho, na Rua Alagoinhas. E aí começou a parceria profissional com Carybé, resultando em vários trabalhos importantes, dentre eles os que se encontram na Escola Parque (no bairro da Caixa D’Água), e nos edifícios Morada Campo Grande (no Largo do Campo Grande), Tupinambá (Canela), Concórdia (Barra) e Cidade do Salvador (Comércio).

Mesmo depois que se mudou para São Paulo, esteve várias vezes em Salvador para fazer trabalhos a pedido de Carybé. Heinz Schueler morou no Brasil durante 41 anos, período em que fez mosaicos para dezenas de outros artistas. Faleceu aos 84 anos, em 15 de outubro de 1995, em Sindelfingen, subúrbio de Stuttgart, sul da Alemanha.

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Texto publicado na página  12 do jornal
‘Folha do Rio Vermelho’,
Nº 18 - Janeiro 2011.