João Caria

Ubaldo Marques Porto Filho

João Veloso dos Santos Caria nasceu em Salvador, na Mouraria, bairro de Nazaré, em 23 de maio de 1918. Precoce nos estudos, a família teve que alterar a data do nascimento para que ele pudesse entrar no ginásio, curso concluído com a idade real de 14 anos.

O pai, inflexível na autoridade ditatorial, queria que o filho fosse médico. Mas, por ser muito rebelde e de personalidade que não aceitava imposições, o filho largou os estudos e foi trabalhar no Bank of London.

João Caria estudou canto lírico com Hilde Sinek e Bruno Wiziwig. Esteve ainda sob a orientação do maestro Sérgio Magnani, mas foi o frei Teodoro Serravale, do Convento de Nossa Senhora da Piedade, quem o incentivou a fazer apresentações públicas, pois reconhecia nele, com timbre de voz em baixo profundo, um valor dotado de grande potencialidade artística.

Em 1951, Caria venceu a etapa baiana do concurso ‘O Grande Caruso’, indo disputar a grande final no Rio de Janeiro, onde se classificou em 2º lugar e um convite para a gravação do seu único disco, em 78 rotações, com o selo da Rádio Ministério da Educação e Saúde. Esse disco não foi colocado no circuito comercial, mas nele ficou registrada a ‘Canção da Pulga’, de Modest Mussorgsky, da qual, segundo os críticos, Caria foi no Brasil o seu melhor intérprete.

Juntamente com os primeiros classificados em ‘O Grande Caruso’, participou, em 1952, de uma excursão pela Europa, com escala na África, tendo se apresentado em várias cidades importantes, tais como Dakar (Senegal), Lisboa, Madri, Londres, Paris, Roma e Milão, sendo que nessa última permaneceu por três meses, estudando como bolsista. No total, ficou oito meses na Europa.

Caça aos concursos

Uma das manias de João Caria era ir ao Rio de Janeiro participar do famoso programa musical de calouros do Ary Barroso. E todas as vezes ganhou o primeiro lugar, até que foi proibido de continuar se inscrevendo.

Em 1965, na TV Itapoan, participou da ‘Escada para o Sucesso’, importante programa comandado pelo Nilton Paes, obtendo a primeira colocação em uma das séries. Participou de dezenas de outros concursos pelo país.

Como seu nome ficou conhecido nacionalmente, passou a utilizar o pseudônimo de Jan Karmel para não ser vetado nos programas de calouros. E foi com esse nome que, em 1969, chegou à finalíssima em ‘A Grande Chance’, do Flávio Cavalcante, na TV Tupi do Rio de Janeiro.

Foi uma disputa desigual, pois ficaram frente a frente dois excelentes intérpretes de gêneros totalmente diferentes. A final acabou se transformando numa crueldade musical. O júri de ‘A Grande Chance’, mais especializado em MPB, acabou declarando Alcione como vencedora, título que alavancou a sua carreira como brilhante cantora da música popular brasileira.

Empinar arraias, o hobby preferido

Alto e atlético, João possuía uma força descomunal, havendo inclusive muitos homens que evitavam estender-lhe a mão para os habituais e frequentes cumprimentos. Seu aperto de mão ficou famoso e causava receios pelo vigor da força. Era uma pessoa muito reservada e de pouca conversa com estranhos. Mas gozava de vasta estima no Rio Vermelho.

João Caria podia ser visto com frequência andando pelas ruas do Rio Vermelho ou na Praia de Santana. Seu hobby predileto era empinar arraias. Considerado como um dos melhores do bairro, usava para temperar a linha uma mistura de cola e vidro moído cuja fórmula não revelava a ninguém. Não ficava uma arraia no ar que não fosse cortada pela de Berro Grosso - este era o seu apelido no Rio Vermelho. Ele empinou arraias até um pouco antes de vir a falecer.

Artista múltiplo

João Caria participou de inúmeros recitais líricos, tendo se exibido em dezenas de cidades brasileiras, sempre recebendo da crítica especializada as mais elogiosas referências. Ficou consagrado como notável intérprete das músicas clássicas de Giuseppe Sarti, Giovanni Paisiello e Giovanni Legrenzi, das românticas de Franz Schubert e Giuseppe Verdi, das modernas de Modest Mussorgsky, Aleksandr Borodin e Rimsky-Korsakov, ou das brasileiras de Villa Lobos e Francisco Mignone.

Foi membro titular do Grupo Intermezo e todos os anos participava, como solista, das novenas nas igrejas de Nossa Senhora da Conceição da Praia, do Senhor do Bonfim e da Festa de Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro.

Como ator fez pontas em alguns filmes. A principal figuração foi em ‘Deus e o Diabo na Terra do Sol’, dirigido por Glauber Rocha em 1964. No teatro também participou de várias peças, sempre tendo a música como elemento da sua integração.

No dia 12 de outubro de 1980, no Teatro Santa Rosa, em João Pessoa, ele fez a que seria a última apresentação pública, como personagem principal em ‘A Criada quer ser Patroa’, clássico de Giovanni Battista Pergolesi, ópera cômica dirigida por Ewald Hackler, com coordenação musical do maestro Carlos Veiga. Nessa peça, com a participação da Orquestra da Câmara do Estado da Paraiba, Caria teve como companheiros de elenco os atores Fernando Teixeira e Carmela Matoso.

Regressou a Salvador sentindo os primeiros sinais de uma insidiosa moléstia nos rins, que lhe causaria a morte no dia 25 de abril de 1981, um mês antes de completar 63 anos. Trinta dias depois, o crítico Nilson Mendes escreveria a seguinte apresentação num folheto produzido pela Fundação Cultural do Estado da Bahia:

“Dono de voz marcante e cuidadosamente aplicada, após
inúmeras apresentações, das páginas seresteiras do cancioneiro
popular às difíceis composições dos grandes mestres do cenário
operístico internacional, o baixo João Caria se foi, deixando uma
lacuna insubstituível no campo musical da Bahia”.

Casado com Yvonne Schoucair Caria, Rainha do Carnaval de Salvador de 1938, João Caria deixou dois filhos, Sandra e João. A filha foi Rainha do Rio Vermelho em 1962.

Salvador, agosto de 2000.