José de Dome

Ubaldo Marques Porto Filho

José Antônio dos Santos nasceu em Estância, Sergipe, no dia 29 de novembro de 1921. Na infância, ganhou o apelido de Zé de Dome. O sobrenome do apelido, Dome, veio de dona Dome, sua mãe, cujo nome verdadeiro era Dometila.

Depois de ter sido gari, servente e pedreiro, resolveu, aos 18 anos, tentar a sorte em Salvador, onde passou a morar numa palafita no bairro da Massaranduba, na Cidade Baixa. Não tinha emprego fixo, era trabalhador avulso, fazendo serviços de pedreiro e até como vigilante noturno em uma serraria, onde passou a morar.

Por um desígnio de Deus, foi na Massaranduba que a vocação artística desabrochou. Em 1943 pintou o primeiro quadro, a igrejinha da Massaranduba.           Ainda desconhecido no meio artístico, foi levado para o Rio Vermelho pelo bancário Rômulo Serrano, artista plástico nas horas vagas, que o abrigou em sua própria residência, no Parque Cruz Aguiar, até o Zé se transferir para um quarto no segundo andar do Sobrado de Astério, antigo Hotel Centro Recreativo, no Largo de Santana. Aí também instalou o seu atelier e em 1955 realizou a primeira exposição individual, no Belvedere da Sé, e começou a se firmar como pintor.

Conhecia o Zé de Dome de vista, pois ele diariamente fazia as refeições na casa do Rômulo Serrano, seu padrinho artístico. Ele cobria o percurso entre o Largo de Santana e a Rua Itabuna, e vice-versa, sempre a pé. Como também era o caminho para a minha casa, na Rua Alagoinhas, cruzei com ele nesse trajeto inúmeras vezes.

Nosso primeiro contato pessoal foi numa noite de Natal, quando um amigo comum, Vitor Chequer, me convidou para ir ao atelier do artista, pois tinha marcado que por lá passaria antes do início da Missa do Galo, na Igreja de Sant’Ana, bem defronte ao Sobrado de Astério. Assim que chegamos, o Zé de Dome ofereceu-nos uma bebida de um litro que retirou de um baú de madeira cheio de garrafas, que ele disse serem todas importadas.

Enquanto bebíamos, o artista falava de seus trabalhos e mostrava com muita satisfação as obras mais recentes. Era um cafuso (filho de negro com índia) magro, simples e educado, que deixou transparecer a alegria pela visita. Acho que a nossa presença serviu para aplacar um pouco a solidão do pintor, que morava sozinho e não tinha ninguém para fazer-lhe companhia num dia em que as famílias se reuniam para as trocas de presentes e ceiar após a Missa do Galo.

Já famoso, José de Dome foi para o Rio de Janeiro em 1965, tendo posteriormente se fixado em Cabo Frio, onde construiu um atelier projetado pelo arquiteto Sérgio Bernardes. Em 28 de maio de 1974 requereu e obteve, por determinação judicial, a mudança do registro civil de José Antônio dos Santos para José de Dome, o nome artístico da consagração nacional.

Ás 7h30 do dia 15 de abril de 1982, quando saía de casa, em Cabo Frio, para a caminhada que fazia diariamente, morreu de infarto, aos 60 anos. Encontrava-se no ápice da consagração pela crítica, que o colocava entre os grandes pintores brasileiros. Realizou mais de cem exposições individuais e coletivas, no país e no exterior.

Ao se completar um ano do falecimento, o escritor e acadêmico Vasconcelos Maia, num necrológio que fez, em Salvador, durante uma sessão da Academia de Letras da Bahia, disse: ‘Com sua pintura cálida, onde abundam os amarelos desesperados e crus, e os vermelhos quentes e vibrantes, José de Dome foi um pintor de muito talento”.

Salvador, maio de 1984.