José Haroldo Vieira

Ubaldo Marques Porto Filho

José Haroldo Castro Vieira nasceu em Ilhéus, às 3h30 do dia 6 de abril de 1927, numa casa defronte ao mar, na principal avenida da cidade, a Beira Mar, atual Avenida Soares Lopes. Até os quatro anos foi criado numa fazenda de cacau, chamada Quixadá, em Rio do Braço, município de Ilhéus. Cursou o primário na Escola Afonso de Carvalho, em Ilhéus, e o ginasial em Salvador, no internato do Colégio Nossa Senhora da Vitória, também chamado de Colégio Marista.

No final do curso, quando voltou a Ilhéus, soube que o pai ficara muito aborrecido ao tomar conhecimento de uma estripulia que o irmão Júlio Rodolfo praticara em Salvador. Como consequência, o mais novo acabou sendo também penalizado, pois o pai cancelou a continuidade dos estudos de ambos na capital. Inclusive, exigiu que os dois ingressassem na vida laboriosa, convicto de que o trabalho era o caminho mais rápido na formação dos homens dignos.

Com essa decisão do genitor, foi interrompido o sonho de José Haroldo voltar a Salvador para ingressar na Faculdade de Direito da Bahia, a única que existia no Estado.

Início da vida profissional

Em 1º de fevereiro de 1942, José Haroldo começou a trabalhar como office boy na Fonseca, Silveira & Cia., empresa de representações comerciais, onde permaneceu por um ano. O segundo emprego foi na Companhia Industrial de Ilhéus, concessionária do porto. Estudo somente à noite, no Centro Educacional Álvaro Vieira, que pertencia ao tio que emprestava o nome à escola, onde fez um curso profissionalizante em comércio.

Irrequieto, o jovem deixou o trabalho burocrático no porto de Ilhéus para colocar o pé nas estradas poeirentas e lamacentas do sul da Bahia, como caixeiro-viajante autônomo. Segurando uma pasta e levando um mostruário de produtos diversos, foi tirar pedidos em lojas e armazéns nas cidades da região cacaueira. Depois, em sociedade com Alberto Hoisel, abriu a Hoisel & Vieira, empresa de representações. Posteriormente, juntou-se ao irmão Júlio Rodolfo, dando origem a J. Vieira & Irmão. Da sociedade com Edgar Pereira de Souza, nasceu a Souza Vieira & Cia. As duas empresas também atuavam no ramo das representações comerciais.

Ainda com o irmão, fez parte da Quixadá Exportação, Comércio e Indústria Ltda., que comprava, revendia e exportava piaçava, além de fabricar vassouras. As responsabilidades assumidas, uma após outra, inclusive o casamento aos 20 anos incompletos, desvaneceram as esperanças de voltar a estudar e tornar-se advogado, que era a profissão dos seus sonhos. Mas o destino tinha-lhe reservado uma outra  trilha, que o levaria, via Banco do Brasil, ao encontro do cacau, profundamente enraizado na base familiar.

Banco do Brasil

Em 1954, aos 27 anos, por concurso público, onde obteve o primeiro lugar entre 47 candidatos, foi admitido no Banco do Brasil, para trabalhar na agência de Ilhéus, a 19ª aberta no país. Entrou como escriturário, passou a chefe de serviço e como colaborador voluntário, sem remuneração extra, auxiliava na Carteira de Comércio Exterior (Cacex), setor do banco que tratava da exportação do cacau e que funcionava na sede regional do Instituto de Cacau da Bahia.

O conhecimento das particularidades regionais, as ligações com os produtores, o interesse pelos mecanismos da exportação e a rápida ascensão na importante agência da capital do cacau, credenciaram-no a participar de um grupo especial, denominado de Comissão Executiva do Plano de Recuperação Econômico-Rural da Lavoura Cacaueira - Ceplac.

Ceplac

Em 1º de março de 1958, por despacho do presidente do Banco do Brasil, Sebastião Paes de Almeida, José Haroldo foi colocado à disposição da Ceplac, criada por decreto assinado pelo presidente Juscelino Kubistchek em 20 de fevereiro de 1957, para retirar a lavoura da situação pré-falimentar em que se encontrava, no limiar de graves consequências para a economia baiana e o ingresso de divisas no país.

A Ceplac foi concebida para atuar na área do crédito, recompondo as dívidas e concedendo novos financiamentos aos produtores. Portanto, inicialmente, constituiu-se num verdadeiro banco auxiliar do Banco do Brasil. Mas, logo foi diagnosticada a necessidade do órgão dirigir suas prioridades para um tripé estrutural: pesquisa, ensino e extensão.

Como no Banco do Brasil - que foi a sua faculdade do trabalho, onde se notabilizou como aluno dos mais notáveis -, na Ceplac José Haroldo faria o estágio preparatório para ser um grande executivo. Graças ao dinamismo e ao brilho reservado aos dotados de inteligência privilegiada, foi galgando importantes posições no organograma institucional: assistente regional, superintendente regional e coordenador administrativo geral.

Coube-lhe relevantes missões nas regiões cacaueiras da Bahia e do Espírito Santo. Eis alguns dos projetos implantados sob a sua responsabilidade:

Pertencente aos quadros da matriz (Rio de Janeiro) do Banco do Brasil, o economista mineiro Carlos Brandão, depois de ter comandado a Ceplac, desde o início de suas atividades, foi designado para um cargo importante no Banco Central do Brasil. Com isso, abriu vaga para o seu braço direito na Ceplac e substituto eventual nas ausências e viagens que empreendia ao exterior. Por portaria de 7 de fevereiro de 1969, assinada por Antônio Delfim Neto, ministro da Fazenda, José Haroldo chegou ao topo da pirâmide, ao cargo máximo, Secretário Geral. Acima dele somente o próprio ministro, que presidia o Conselho Deliberativo da Ceplac, do qual o Secretário Geral também era membro nato.

Sob o comando do novo dirigente, a continuidade administrativa foi assegurada e a Ceplac atingiu o apogeu, cristalizando-se na mais bem sucedida experiência brasileira no campo da assistência técnica integrada. Pelo somatório de suas múltiplas atividades, consolidou-se definitivamente como instituição poderosa, operosa e respeitada no país e no exterior. A comunidade agrícola internacional passou inclusive a considerar o seu centro de pesquisas como o maior, o mais completo e o mais avançado núcleo do mundo na investigação do cacau. As instalações físicas, os laboratórios, os equipamentos, os campos de experimentos e a constelação do pessoal altamente qualificado, formavam um patrimônio invejável. O centro de pesquisas, verdadeiro complexo agronômico de Primeiro Mundo, tinha na coordenação um cientista renomado internacionalmente, Paulo Alvim, PhD em fisiologia vegetal.

Para se ter uma ideia da envergadura alcançada pelo Sistema Ceplac (pesquisa, extensão e ensino), basta citar o testemunho do presidente Ernesto Geisel, que às vésperas da posse na chefia do Executivo Nacional havia percorrido demoradamente a área dos trabalhos na Bahia. A declaração que deu à imprensa sintetizou o que viu:

- Feliz do Brasil se tivesse vinte ou trinta Ceplac’s!

Sob a liderança de José Haroldo, a Ceplac entrou com recursos totais, ou parte deles, em vários empreendimentos de vital importância para o desenvolvimento da região cacaueira baiana e também para o país. Eis os dez principais:

Em função do Acordo Internacional do Cacau, firmado em 1972 e administrado pela Organização Internacional do Cacau (OIC), com sede em Londres, e da Aliança dos Países Produtores de Cacau, sediada em Lagos, Nigéria, que patrocinava conferências internacionais e se constituía no fórum dos debates dos produtores, José Haroldo participou, representando o Brasil, de dezenas de reuniões no exterior. Os encontros, realizados nas três Américas, Ásia, África e Europa, deram ao delegado brasileiro o status de executivo competente e de profundo conhecedor da economia e da comercialização internacional do cacau.

Como dirigente da Ceplac, José Haroldo visitou todos os países produtores de cacau e os principais centros importadores do cacau brasileiro. Correu o mundo, pois esteve em todos os continentes. Conferencista muito solicitado, proferiu centenas de palestras no Brasil e fora dele.

Às vésperas de completar dezesseis anos na direção do órgão encarregado de dinamizar a lavoura cacaueira, e julgando que a sua missão já estava concluída, por livre e espontânea vontade pediu demissão, tendo a exoneração sido publicada no Diário Oficial da União, edição de 14 de janeiro de 1985.

Na manhã do dia seguinte, de volta para Ilhéus, ao desembarcar no Aeroporto do Pontal, Zé Haroldo foi alvo de uma recepção extremamente comovente, promovida por centenas de funcionários da Ceplac, dezenas deles com suas famílias. Muitos choraram de emoção ao se despedirem do homem que saía da Ceplac para entrar na história como o maior soldado do cacau. A despedida foi sem foguetes, urras ou vivas, pois o clima era de tristeza. Os ceplaquenos sabiam que aquele dia marcava o fim de uma era cheia de vitórias, confiança e felicidade. Para eles, como numa premonição, naquele 15 de janeiro de 1985, iniciava-se um futuro com nuvens da desconfiança no horizonte.

José Haroldo saiu deixando a Ceplac sadia e falando forte, porque tinha o lastro de uma receita anual média de 70 a 80 milhões de dólares. Na Bahia, resumidamente, deixou o seguinte saldo:

O vitorioso executivo teve ainda no currículo a participação em conselhos deliberativos ou administrativos das seguintes organizações: Itabuna Industrial S.A.- Itaisa (Ilhéus); Copercacau Amazônia S.A. (Belém); Instituto de Cacau da Bahia (Salvador); e Química Geral do Nordeste S.A. (Feira de Santana). Presidiu o Conselho Superior da Fundação Universidade de Santa Cruz (Ilhéus) e o Comitê Nacional de Expansão do Consumo de Chocolate (São Paulo), do qual tinha sido fundador e tesoureiro.

Sabedores da competência, do zelo profissional e da honradez pessoal (deixou a Ceplac como entrou, sem ser dono de nenhuma fazenda e sem acumular riqueza durante o exercício do cargo em que foi gestor de mais de um bilhão de dólares), diversos grandes grupos empresariais fizeram ofertas para tê-lo em seus quadros.

Grupo Ipiranga

José Haroldo optou pela proposta do Grupo Ipiranga, tendo a 1º de março de 1985 assumido o cargo de assessor na diretoria da Companhia Brasileira de Petróleo Ipiranga. Dois anos depois foi para a Isapar, holding do Grupo Ipiranga, como diretor para o Nordeste. No dia 2 de maio de 1988 foi eleito presidente da Silinor S.A., também do Grupo Ipiranga, sediada no Polo Petroquímico de Camaçari, onde permaneceu por quatro anos.

Ao se retirar da presidência da Silinor, José Haroldo passou a se dedicar à JH Abastecimento e Serviços Ltda., empresa que criou para ter a concessão de um posto de abastecimento de combustíveis que a Ipiranga construiu em Salvador, no final da Avenida Vasco da Gama, bairro do Rio Vermelho. José Haroldo comandou a elaboração do projeto, a execução das obras e colocou o Posto Opacorô (atual Posto Oxalá) como modelo para toda a rede Ipiranga, tendo inclusive ganho uma premiação nacional pela qualidade dos serviços e das lojas de conveniências. Era o tipo do gestor que dava tempo integral no posto, deixando-o praticamente sem tempo para as atividades como consultor empresarial.

Como operador de um posto modelo em administração e, principalmente, em honestidade na venda de combustíveis limpos, ou seja, sem as adulterações praticadas pela maioria dos colegas empresários, José Haroldo passou a ser discriminado pela classe após negar-se a cumprir os procedimentos nocivos aos consumidores, ditados por um cartel mafioso. Para desvencilhar-se das pressões que passou a receber, fez um acordo com a Ipiranga e devolveu-lhe o posto.

Grupo Vitech

Depois de ter prestado assessoria técnica à Vitech America Inc., com sede em Miami, vinculou-se às empresas desse grupo americano no Brasil em outubro de 1995. Foi gerente da Bahia Tecnologia Ltda. (Bahiatech) e da Tecnologia da Bahia Ltda. (TechBahia), empresas que tinham atuação no Polo de Informática de Ilhéus. Participou também da Recife Tecnologia Ltda. (Recitech). Em maio de 1997, tornou-se Managing Director-Brazil da Vitech America Inc. Em janeiro de 2000, José Haroldo desligou-se do Grupo Vitech.

Último projeto

A partir de janeiro de 2002, trabalhando como voluntário, sem receber quaisquer tipos de honorários, presidiu a Fundação Bahiana de Infectologia, com sede em Salvador. Nessa instituição, liderou um projeto ousado e de alto cunho social, que consistia na implantação do Centro de Biotecnologia da Bahia, que prometia revolucionar a produção de vacinas médicas e tornar o Estado autossuficiente num importante segmento da medicina preventiva.

Paralelamente, instalado em seu último bunker, uma sala no Edifício Empresarial Presscolor, situado no trecho final da Rua Waldemar Falcão, já no bairro do Rio Vermelho, José Haroldo, que nunca se desligou das questões do cacau, disparava pela internet artigos, comentários, reivindicações e denúncias, tudo tendo o cacau e a região cacaueira como foco. Era também um colaborador do periódico Agora, de Itabuna, para onde escrevia com frequência. Seu último artigo, ‘A Revolução no Sul da Bahia’, foi publicado na edição de 24/26 de janeiro de 2004.

A exemplo de Jesus Cristo, que não conseguiu agradar a todos, José Haroldo incomodava, atraindo para si o descontentamento dos inimigos da lavoura cacaueira e da região. Suas posições, de verdadeiro especialista e profundo conhecedor da economia do cacau, também geravam polêmicas com alguns teóricos sem embasamento técnico sobre o cacau, mas que se julgavam donos da verdade.

Cala-se a voz do cacau

No dia 6 de fevereiro de 2004, José Haroldo Castro Vieira faleceu no Hospital Português de Salvador, aos 76 anos.

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Texto elaborado para o livro,
‘Zé Haroldo, a Voz do Cacau’,
ainda inédito.