Maria de São Pedro

Ubaldo Marques Porto Filho

A cozinha típica é um dos mais valiosos patrimônios culturais que a Bahia possui. A cozinha baiana talvez seja a mais rica das cozinhas brasileiras, tanto em variedade de pratos como na qualidade de seus temperos e sabores. De origem marcantemente africana, muitas das iguarias chegaram no bojo das práticas religiosas nos candomblés.

É verdade também que vários de seus ingredientes se fundiram com as comidas portuguesas e indígenas, dando origem a um cardápio formado pelo sincretismo de três raças, de continentes diferentes. Porém, na base das receitas, a predominância foi indiscutivelmente africana. As cozinheiras, mães de culinária baiana, formavam um exército integrado por negras ou mulatas.

Nascida em Santo Amaro, no dia 29 de junho de 1901, Maria de São Pedro tornou-se uma cozinheira de mão cheia. Em Salvador começou com uma quitanda na Ladeira da Barroquinha, vendendo gêneros alimentícios, inclusive iguarias baianas. Daí mudou-se para a Feira do Sete, na Cidade Baixa, onde montou uma barraca de comidas.

Em 1925, com a ajuda de um freguês, Genebaldo Figueiredo, abriu um restaurante no Mercado Popular, localizado defronte à Feira de Água de Meninos. Foi o primeiro que surgiu em Salvador com pratos típicos da cozinha baiana, de ‘comidas de azeite ou de cheiro’, como se dizia na época, numa referência ao azeite de dendê, um óleo na cor ouro, extraído dos frutos do dendezeiro, uma palmácea oriunda da África.

O azeite-de-dendê é um ingrediente indispensável no preparo das moquecas, mariscadas, carurus, vatapás, acarajés e abarás.

Em 1942, novamente com o apoio de Genebaldo Figueiredo, que havia sido vereador na legislatura que antecedeu ao golpe do Estado Novo, Maria de São Pedro transferiu o seu restaurante para a parte superior do Mercado Modelo (o antigo, destruído por um incêndio em 1969). Nesse novo endereço, Maria de São Pedro consolidou a fama e tornou-se a grã-mestra da gastronomia baiana. Virou referência na especialidade.

O restaurante de Maria de São Pedro transformou-se em passagem obrigatória para todos que chegavam ávidos por conhecerem o cardápio fortemente marcado pela presença do azeite de dendê, leite de coco, camarão seco, pimenta malagueta, gengibre, etc. As personalidades internacionais que desembarcavam na capital baiana sempre foram levadas ao seu restaurante. Por lá passaram, dentre outros, o escritor Stefan Zweig e o cineasta Orson Welles.

Enfim, Maria de São Pedro virou um símbolo e o seu restaurante um templo da culinária baiana, verdadeiro cartão postal dentro de um outro cartão postal de Salvador, o Mercado Modelo. Jorge Amado, que levou muita gente de fora para almoçar no estabelecimento da baiana famosa, no livro “Bahia de Todos os Santos” escreveu o seguinte:

“Maria de São Pedro era uma rainha feita de alegria,
bondade e arte. Mestra da maior das artes, a da culinária,
preservou e engrandeceu a tradição da inexcedível comida
baiana, sua cor, seu perfume, seu sabor divino. Seu antigo
restaurante era uma festa em frente à Rampa do Mercado
Modelo, que o fogo devorou. Creio que Odorico Tavares, Wilson
Lins e eu muito concorremos para que Maria de São Pedro e seu
restaurante se fizessem célebres em todo o país.
Seus fregueses durante 30 anos, seus amigos de todos os
dias, celebramos em prosa e verso sua fama. Inesquecível Maria
de São Pedro, rainha do vatapá e do efó, do caruru e do abará, das
moquecas e dos xinxins, do dendê e da pimenta, rainha da
delicadeza e da cordialidade”. 

Muito requisitada pelo cerimonial do governador, Maria preparou as iguarias para dezenas de recepções no Palácio da Aclamação. Seu nome correu o país, sendo citado em matérias de jornais e revistas. Por conta da notoriedade, esteve no Rio de Janeiro para fazer um banquete na posse do presidente Getúlio Vargas, em 31 de janeiro de 1951. Em 1954 foi a São Paulo para comandar a cozinha na casa de Francisco Matarazzo, durante uma festa comemorativa ao IV Centenário da Cidade de São Paulo.

Maria de São Pedro faleceu em Salvador, no dia 28 de maio de 1958, aos 56 anos, consagrada como primeira dama da cozinha baiana.

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Texto publicado na página  58/59 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.