Mestre Bimba

Ubaldo Marques Porto Filho

Em 23 de novembro de 1900, nasceu em Salvador, no Engenho Velho de Brotas, Manoel dos Reis Machado, descendente de um ex-escravo banto. Aos 12 anos, como o Mestre Nozinho, iniciou-se no aprendizado do batuque, um tipo de luta antiga, considerada como uma das matrizes da capoeira. Aos 18 começou a ensinar e com 27, já era conhecido como Mestre Bimba.

O Mestre Bimba criou a Capoeira Regional (Luta Regional Baiana), uma variante da capoeira tradicional, denominada Angola. Eis a explicação do próprio mestre, numa entrevista ao jornal A Tarde, publicada na edição de 16 de março de 1936:

“Em 1928, adaptei vários golpes à chamada Capoeira
Angola, praticada pelo meu mestre, Bentinho. Os golpes do jogo
de Angola são estes: meia lua de frente, meia lua de compasso
(rabo de arraia), meia lua armada, aú pela direita e pela esquerda,
cabeçada, chibata, rasteira, raspa, tesoura fechada, balão, leque,
encruzilhada e deslocamento.
Destes golpes, retirei dois, encruzilhada e deslocamento, e
acrescentei os seguintes: vingativa, banda traçada, balão em pé,
balão arqueado, balão colar de força, cintura desprezada, cintura
de rins, gravata cinturada, tesoura aberta, bênção, solta pescoço,
sopapo galopante, godeme, cotovelo e dentinho”.

Em 1930, quando a capoeira ainda estava proibida por lei, o Mestre Bimba criou o Clube da União em Apuros, nome de fachada para poder dar aulas de capoeira. Habilmente, foi atraindo alunos brancos, muitos deles estudantes dos cursos superiores e filhos de famílias da classe alta. Foi a fórmula que encontrou para, aos poucos, ir quebrando o preconceito e o terror que a sociedade dominante tinha da luta praticada pelos negros e mulatos. Frede Abreu, pesquisador e autor de livros sobre a capoeira, num depoimento publicado em dezembro de 2003, na revista Memórias da Bahia II, editada pelo Correio da Bahia, assim se expressou:

“O Mestre Bimba, na sua luta para derrubar o preconceito contra
a capoeira, foi buscar aliados no território branco e envenenou o
preconceito dentro da sua própria casa: no seio da família, com os
jovens brancos desobedecendo aos pais para jogar capoeira.
Golpe de mestre”.

Aprimorada nos seus fundamentos, a capoeira acabou vencendo a resistência das autoridades e saiu da marginalidade quando a nova Constituição Federal foi promulgada, em 16 de julho de 1934. A primeira notícia de uma apresentação pública em Salvador foi dada por A Tarde, na edição de 3 de dezembro de 1934. Sob o título “Uma festa esportiva original”, anunciou: “Realizando exibição no Estádio de Brotas, o povo vibrou quando Bimba desferiu um rabo de arraia em Geraldo, tirando-o de combate”. A informação da vibração da platéia, quando Bimba acertou em cheio o golpe ‘rabo-de-arraia’, não deixou nenhuma dúvida: a luta tinha sido para valer. Quanto à originalidade, aludida no título da matéria, residiu no fato - para o jornalista que cobriu o evento -, da capoeira ter sido jogada de acordo com uma marcação imposta pelos sons do berimbau, que ditava o ritmo da luta.

Exímio tocador de berimbau, instrumento que acabou se transformando no símbolo da capoeira, Bimba também inovou na musicalidade. Ele criou o ‘Iúna’, um toque especial, que se juntou aos demais toques, e virou a marca registrada da Capoeira Regional.

Na época que os pugilistas, de todas as modalidades, se digladiavam em luta livre nos ringues da cidade, atraindo multidões de expectadores e muitos apostadores, Bimba visualizou uma ótima oportunidade para colocar a capoeira em evidência pública e demonstrar a sua superioridade sobre as demais lutas. Dirigiu-se à redação de A Tarde para lançar um repto, que foi publicado como matéria principal na página esportiva da edição de 16 de março de 1936, com uma foto em que ele apareceu trajando paletó e gravata, abaixo do seguinte título: “Mestre Bimba, campeão na capoeira, desafia todos os lutadores baianos”.

Bimba encontrava-se na plenitude do vigor físico. Com 1,90 de altura, 90 quilos, braços longos e musculatura invejável, o gigante de ébano possuía uma agilidade espantosa e fazia contorções inacreditáveis. Todos os pugilistas que subiram ao tablado foram derrotados antes de um minuto e meio.

Enciumados com o sucesso do criador da Capoeira Regional, os adeptos da Capoeira Angola incentivaram o famoso Vítor HU a enfrentar Bimba, que logo no início do combate aplicou um violento galopante (murro na cara). O adversário caiu sangrando e gritando: “Assim não vale”. O campeão respondeu na tampa: “Isto aqui é luta, não é roda!”. Como o golpe fora legal, pois se tratava de luta livre, o juiz confirmou a espetacular vitória de Bimba. A multidão vibrou e passou a gritar: “Bimba é bamba”.

Porém, o mestre teve de abandonar os ringues, porque ninguém queria mais lutar contra ele. Era o campeão supremo, inquestionável. Nunca se soube que Bimba tivesse sido derrotado numa luta.

Na noite de 9 de agosto de 1936, aconteceu um fato que aumentou a fama de Bimba e o transformou definitivamente num mito da capoeira. O mestre descia a Ladeira da Vila América quando topou com sete policiais fardados promovendo desordens no local. Ao vê-los espancando um rapaz, Bimba pediu que parassem com a agressão. Pensando que aquele homem alto de chapéu na cabeça fosse um Manoel qualquer, os guardas da polícia civil partiram para cima do intrometido que, com uma impressionante sequência de golpes da capoeira liquidou com os arruaceiros e tomou o revólver do chefe, um cabo conhecido pela alcunha de Barra Preta. No dia seguinte, o vespertino A Tarde divulgou o acontecimento sob o título “Não é fácil pegar um capoeirista... livrou-se da agressão com cabeçadas e rabos de arraia”.

A notícia da façanha correu célere por toda Salvador, de Itapagipe a Itapuã, do Rio Vermelho à Liberdade. Diziam que Bimba, além de notável capoeirista, o melhor que a Bahia teve no século XX, possuía o corpo fechado por Xangô. Ele era ogã-alabê num candomblé de origem ketu, localizado no Engenho Velho de Brotas, local da surra nos policiais baderneiros. Também possuía vínculos com um candomblé de influência indígena, onde reverenciava o caboclo Cinco Penas.

Homem fora dos padrões normais, teve dezenas de filhos, com 21 mulheres. Considerava todas como esposas e vivia simultaneamente com várias. Com Annita Valdemira Sant’Anna, casou-se em 14 de setembro de 1935, na Igreja de Sant’Ana do Rio Vermelho, em ato celebrado pelo pároco Vitalmiro Munford.

Foi o próprio Bimba quem tomou a iniciativa para acabar com a luta de verdade, que poderia até terminar em morte. Visualizando um outro futuro para a capoeira, transformou-a numa luta dança, como arte de expressão corporal e cultural. Com regras bem definidas, ele criou um método denominado ‘Sequência de Ensino’, sendo também o primeiro mestre a oficializar uma academia. Em 9 de julho de 1937, registrou o Centro de Cultura Física Regional.

Os alunos aprendiam os golpes verdadeiros, mas não podiam usá-los nas exibições para atingir um outro capoeirista. Na coreografia da roda do jogo, demonstravam apenas o gingado dos golpes, com agilidade e destreza, sem entrar em choque corporal. Bimba trabalhava com duas vertentes: a capoeira como luta de defesa pessoal e a capoeira como manifestação cultural e artística.

A capoeira já estava consagrada como luta dança quando Mestre Bimba foi cumprir um programa de oito exibições em São Paulo, em fevereiro de 1949. Levou o seu grupo, composto por oito excelentes capoeiristas. No dia 25 de fevereiro, citando noticiário da Gazeta Esportiva, A Tarde informou: “Os capoeiristas baianos estão brilhando em São Paulo”. Foi o ponto de partida para a capoeira se transformar noutro importante veículo de divulgação da Bahia.

No dia 23 de junho de 1952, o presidente da República, Getúlio Vargas, esteve em Salvador, sendo recepcionado pelo governador Régis Pacheco com uma festa no Palácio da Aclamação. O grupo de Mestre Bimba fez uma apresentação para Vargas, deixando-o encantado. Num arroubo de patriotismo, o presidente virou-se para o governador e disse: “A capoeira é o único esporte verdadeiramente nacional”. Estava assim considerada como prática esportiva.

O que Vargas viu foi um grupo formado por duas alas. A da percussão, com dois pandeiros e um berimbau, o instrumento símbolo da capoeira e da Bahia. Compunha-se de um arco de madeira e uma caixa de ressonância (cabaça) na base. Com um caxixe e uma baqueta, o tocador produzia uma vibração no fio do arco bem retesado e fazia a marcação com o auxílio de uma moeda. O berimbau ditava o ritmo da luta dança, através de toques denominados São Bento Grande, Santa Maria, Banguela, Amazonas, Cavalaria, Idalina e Iúna. Tudo isso ancorado em cantos, como o ‘Ponha Laranja no Chão, Tico-Tico’, que Bimba considerava como o hino da Capoeira Regional. A outra ala foi a dos capoeiristas. Revezavam-se de dois em dois, numa exibição cheia de movimentos e coreografias encenando os golpes. Bimba, mostrando porque era chamado de mestre, deu um show aos 51 anos de idade: tocou berimbau, regeu o coro, jogou e comandou todo o espetáculo, numa vitalidade fantástica.

Em novembro de 1972, quando Bimba se despedia de Salvador para ir residir e trabalhar em Goiânia, o Mestre Caiçara, que há muitos anos não falava com ele, foi fazer as pazes com o antigo mestre e disse-lhe: “Sou o terceiro mestre da Bahia, depois do Senhor e do Mestre Pastinha, desculpe a minha ousadia”. O jornal Tribuna da Bahia, edição do dia 18, descreveu o encontro e relembrou o motivo da briga, numa entrevista concedida pelo Mestre Vermelho:

“Era formatura de mais uma turma no Centro localizado
no Nordeste de Amaralina. Caiçara estava presente e quando
alguns turistas quiseram conhecer o mestre ele gritou: “O mestre
sou eu”. Os discípulos de Bimba quiseram pegar o autor da heresia,
mas ouviram a voz de comando: “Vamos fazer a exibição, depois
a gente acerta tudo.
O acerta tudo foi uma luta entre Bimba e Caiçara. Logo no início,
o imenso pé de Bimba atingiu em cheio a boca de Caiçara, que
gritou: “O que é isso mestre?”. Bimba retrucou: “É pé”. Em seguida,
deu a ordem: “Arranjem um pano. A boca dele está suja de sangue!”.

Graças ao Mestre Bimba, a capoeira foi institucionalizada como arte e os capoeiristas transformados em artistas, em verdadeiros dançarinos e atletas da luta dança. Bimba levou seu grupo para apresentações em diversas cidades brasileiras, dando grande visibilidade à capoeira baiana. Ele criou um grupo folclórico, que o acompanhava nas excursões, contribuindo para a difusão das manifestações culturais da Bahia, a exemplo do samba de roda, do samba duro e do maculelê. Em Salvador fazia apresentações para turistas no Sítio Caruano, que possuía no Nordeste de Amaralina, e no Alto de Ondina, em convênio com as agências de viagens.

Graças também aos discípulos da Academia do Mestre Bimba, a capoeira conquistou o Brasil e ganhou o mundo, sendo praticada em diversos países. Oficializada como prática esportiva em 1972, pelo Conselho Nacional de Desportos, a capoeira inseriu-se finalmente nos currículos universitários, principalmente nos cursos de Educação Física, com status de disciplina desportiva.

Mestre Bimba, que faleceu aos 73 anos, de derrame cerebral, em Goiânia, no dia 5 de fevereiro de 1974, foi o ícone de tudo isso. Numa homenagem póstuma, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia, em solenidade realizada em 12 de junho de 1996.

Nesse mesmo ano, a Câmara Municipal de Salvador outorgou-lhe a Medalha Thomé de Souza, a maior honraria da primeira casa legislativa do país. No Nordeste de Amaralina, onde residiu e teve academia, no Sítio Caruano, existe a Rua Mestre Bimba. Bem próximo, já no bairro do Rio Vermelho, onde fica a Praça dos Capoeiristas, encontra-se um monumento homenageando o criador da Capoeira Regional.

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Texto publicado na página  61/64 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.