Mestre Pastinha

Ubaldo Marques Porto Filho

Existem controvérsias sobre a origem da capoeira. Porém, e nisso não há nenhuma dúvida, a capoeira se desenvolveu em Pernambuco, na Bahia e no Rio de Janeiro, importantes núcleos da escravidão. Não se sabe aonde surgiu primeiro, mas foi na Bahia que ganhou maior dimensão, a ponto de ser considerada como símbolo da Boa Terra.

A capoeira apareceu como forma de defesa pessoal dos negros, como luta centrada num jogo de ataque, defesa e contra ataque, de movimentos contínuos, rapidíssimos e sincronizados dos braços e pernas: saltos para frente, para os lados, para trás e de avanços fulminantes. Uma luta onde os pés funcionavam como armas poderosas, usados para atingir e derrubar os adversários, em alguns casos de forma fatal.

Enfim, uma luta de golpes violentos, cheios de ginga e malícia. Por causa da violência e da malandragem de muitos praticantes, a capoeira foi severamente reprimida pela polícia. Seus praticantes - os capoeiras, eram considerados delinquentes e desordeiros. Para puni-los, o Decreto Federal nº 847, de 11 de outubro de 1890, tratou dos ‘Vadios e Capoeiras’ no artigo 402, criando os meios legais às perseguições.

Um dos expoentes máximos da capoeira praticada na Bahia foi Vicente Ferreira Pastinha, o legendário Mestre Pastinha. Nascido em Salvador, no dia 5 de abril de 1889, aos oito anos foi introduzido no mundo da Capoeira Angola pelo Mestre Benedito, num tempo em que a capoeira era perseguida pela polícia e temida pela sociedade.

A índole do menino Pastinha, filho de espanhol com negra, não era de agressividade e nem de violência explícita. Aos 12 anos já ensinava o jogo aos colegas na Escola de Aprendizes de Marinheiro, fazendo-o com uma técnica que demonstrava um estilo refinado.

Quando saiu da Marinha, aos 21 anos, começou a trabalhar no jornal Diário de Notícias e passou a ensinar a capoeira. Professor nato, em 1935 abriu uma academia no Bigode, perto do Pelourinho. Seis anos depois, liderou a fundação do Centro Esportivo de Capoeira Angola, com sede no Largo do Pelourinho 19.

Nesta academia, sob o seu comando, formaram-se mestres que teriam grande conceito e dariam continuidade à difusão dos ensinamentos da Capoeira Angola. Pastinha foi também o responsável pela consolidação de um padrão no estilo de jogar a capoeira e pela introdução de um código de ética entre os capoeiristas angoleiros.

Enfim, Mestre Pastinha passou a ser considerado como um divisor de águas e num marco no processo da sociabilização da Capoeira Angola, pois transformou uma violenta luta de rua num jogo de demonstração, numa arte esportiva, onde era proibida a aplicação efetiva de golpes no adversário.

Segundo o estudioso Frede Abreu, o mestre era provido de “inteligência, cultura e capacidade de articular um sábio discurso sobre a capoeira e as coisas da vida”.

O grande mestre gostava de escrever. Passou para o papel as regras orais e os conceitos que o consagraram como poeta e guardião da Capoeira Angola. É de sua autoria a seguinte frase: “Capoeira é pra homem, menino e mulher. Só não aprende quem não quer”.

Em abril de 1966, com 77 anos, convidado pelo Itamaraty, esteve em Dakar, no Senegal, para representar a capoeira do Brasil no I Festival Mundial de Arte Negra. Em sua academia, o Mestre Pastinha recebia intelectuais, escritores, artistas, autoridades e turistas, que atraídos pela fama da capoeira iam apreciar demonstrações dos discípulos e do próprio mestre, que se manteve em atividade até 1973, aos 84 anos, quando teve de sair do prédio no Largo do Pelourinho.

Mestre Pastinha faleceu em Salvador, no dia 13 de novembro de 1981, com 92 anos. Deixou como legado um livro, ‘Capoeira Angola’, publicado em 1964, e um disco, ‘Capoeira Angola, Mestre Pastinha e sua Academia’, gravado em 1969.

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Texto publicado na página 64/65 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.