Mica

Ubaldo Marques Porto Filho

Participante do campeonato baiano, onde era considerado como representante do Rio Vermelho, o Yankee conquistou o Torneio Início de 1921 e mostrou um jogador de apenas 15 anos que encantou os aficionados do futebol pelo seu porte elegante, técnica refinada, excelente visão de jogo, habilidoso no domínio da bola, preciso nos passes, eficiente na marcação, rápido na armação das jogadas e que também exercia uma forte liderança em campo. Enfim, era o craque e o mastro da equipe. Chamava-se Alfredo Pereira de Mello, o Mica.

No ano seguinte, o atleta que havia nascido e residia no Rio Vermelho, transferiu-se para o Botafogo, clube de maior expressão, e foi convocado para a Seleção Baiana que disputou no Rio de Janeiro o Campeonato Brasileiro de 1922, onde conquistou o título de vice-campeão. Além de considerá-lo ‘o craque da equipe baiana’, a crônica esportiva carioca elegeu Mica como ‘a grande revelação do campeonato’.

A performance do meio-campista também resultou numa convocação para a Seleção Nacional que disputou o Campeonato Sul-Americano de 1923, no Uruguai, com quatro jogos em Montevidéu. Realizou também um amistoso na cidade uruguaia de Durazno, enfrentando um combinado local, e dois jogos em Buenos Aires, contra a Argentina. Titular absoluto nas sete partidas (as únicas da seleção em 1923), Mica ajudou o Brasil na conquista do seu segundo título fora do Brasil, a Taça Brasil-Argentina, ao vencer os donos da casa por 2x0. A imprensa portenha apontou o craque baiano como o melhor jogador em campo, responsável pela vitória na partida realizada no dia 2 de dezembro, no Campo do Clube Barracas. Eis a equipe da conquista histórica: Nelson; Pennaforte e Alemão; Mica, Nesi e Dino; Paschoal, Zezé, Nilo, Coelho e Amaro.

O primeiro grande astro do futebol baiano foi tricampeão estadual jogando no Botafogo (1921-1922) e na Associação Atlética da Bahia (1923). Além de se constituir no primeiro baiano a vestir a camisa do Brasil, Mica foi também o primeiro jogador de um clube baiano convocado para a seleção brasileira principal, num acontecimento que acabou por se converter num tabu de 64 anos. Foi quebrado justamente no dia do seu falecimento, 10 de março de 1989, aos 84 anos.

Ele não soube que os autores da façanha foram Charles e Zé Carlos, que jogavam no Esporte Clube Bahia. O palco foi a cidade de Fortaleza, onde o Brasil goleou o Peru por 4x1.

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Texto extraído das páginas 27/28 do livro
‘Rio Vermelho, de Caramuru a Jorge Amado’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2009.


Mica com a camisa da Seleção Brasileira que
             disputou o Campeonato Sul-Americano de Futebol,
            em Montevidéu, no Uruguai, em novembro de 1923.