Miguel Santana

Ubaldo Marques Porto Filho

Miguel Arcanjo Barradas Santiago de Santana nasceu em Salvador, no dia 29 de setembro de 1896, tendo falecido na capital baiana aos 77 anos, em 15 de outubro de 1974, sendo sepultado no Cemitério do Campo Santo.

Descendente de uma antiga linhagem africana, da nação Tapa, na Nigéria, teve educação esmerada. Falava iorubá, inglês, francês e alemão. Foi personagem de destaque em diversos candomblés, principalmente nos terreiros do Gunocô, da Casa Branca e do Axé Opô Afonjá. Desfrutou do prestígio de ser o ogan de maior representatividade no meio social da Bahia.

E dentro do sincretismo, também tinha influência entre os católicos, pois foi irmão da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Boqueirão e como todo bom católico se benzia ao passar em frente às igrejas.

Miguel Santana foi um bem sucedido empresário no meio portuário, sendo conhecido como ‘O Rei da Estiva’. A posição do prestígio financeiro o transformou em maçom e o fez figurar no livro ‘As Elites de Cor na Bahia’, escrito por Thales de Azevedo, renomado antropólogo, sociólogo e historiador baiano.

Miguel Santana morou no Rio Vermelho, num casarão localizado no topo da Rua Almirante Barroso. Foi um dos maiores festeiros que o bairro teve nas décadas de 1940 e 1950. Em sua residência promoveu inúmeras e grandes festas, com a presença de conjuntos musicais. Inclusive, por ocasião dos Festejos do Rio Vermelho, realizados no verão,era costume dos ternos e ranchos, logo após as apresentações públicas no Largo de Santana, irem para a casa de Miguel Santana, para novas exibições.

Miguel conviveu com pesquisadores do exterior, com estudiosos da religião afro-brasileira, com intelectuais e escritores, dentre eles Jorge Amado, que o transformou em personagem nos romances ‘Tenda dos Milagres’ e ‘Tereza Batista Cansada de Guerra’, publicados, respectivamente, em 1969 e 1972. Na página 217 do livro ‘Bahia de Todos os Santos’ Jorge fez o seguinte registro:

Miguel Santana Obá Aré
Encontro no peji de Xangô, o velho Miguel Santana, o
mais velho, o mais antigo dos obás da Bahia, o derradeiro dos
obás consagrados por Mãe Aninha, vestido no maior apuro como
se fosse para uma festa de casamento. Assim se veste sempre,
mantendo aos setenta e cinco anos contagiosa alegria de jovem.
Quem não o viu dançar e cantar numa festa de candomblé não
sabe o que perdeu.
Quantos filhos você semeou no mundo, Miguel? O sorriso modesto,
a voz tranqüila: 51, meu amigo, entre homens e mulheres, um deles
nasceu de uma sueca, outro de uma índia.
Descemos juntos a Ladeira do Cabula, a voz de Miguel Santana Obá Aré
recorda distantes acontecimentos. Sabe mais sobre a Bahia do que os doutores,
os eruditos do Instituto, os historiadores e os membros da Academia.
Sabe por ter vivido.  Foi rico e é pobre, teve mando de barcos, hoje possui
apenas o respeito do povo - bênção, Obá Aré! Deus lhe salve, seu Miguel Santana.
Com a voz grave e mansa conta histórias de assombrar, seus olhos viram o bonito
e o feio, suas mãos tocaram o bom e o ruim, nada lhe é estranho e indiferente.

No Pelourinho, onde nasceu, existe uma casa teatral em sua homenagem - Teatro Miguel Santana. No Rio Vermelho, onde residiu, fica a Travessa Miguel Arcanjo de Santana. Existe também o Centro de Estudos Miguel Santana.

Fontes:
1.    Livro ‘Rio Vermelho’,
escrito por Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 1991.
2.    Artigo ‘Mais sábio que doutor’, da editoria de A Tarde,
publicado em 21.05.2005.
3.    Livro ‘Bahia de Todos os Santos’,
de Jorge Amado, edição 1982.