Osvaldo Fahel

Ubaldo Marques Porto Filho

Quando o Rio Vermelho ainda se constituía num palco de grandiosas serestas, frequentado por artistas, compositores e cantores, um dos figurantes chamava-se Osvaldo, um jovem radialista, que nas horas vagas tocava violão e cantava amadoristicamente. Tempos depois, já famoso, ele relembraria a fase do Rio Vermelho, declarando numa entrevista ao jornal A Tarde: “Todos os sábados, acordávamos o bairro com serenatas que varavam a madrugada”.

Osvaldo Fahel havia sido introduzido nos saraus e rodas musicais do Rio Vermelho pelo amigo e pianista Carlos Lacerda, morador do bairro. Mas, somente se tornou frequentador assíduo quando passou a namorar uma moça que residia no número 7 (atual 48) da Travessa Lydio de Mesquita, entre a sede do Esporte Clube Ypiranga e a Escola Medalha Milagrosa. Era na porta da casa da amada que as serestas comandadas por Fahel começavam.

A música que definiu o futuro de um seresteiro amador

Em 1962, aos 27 anos e quatro após o término do namoro com a jovem da Lydio de Mesquita, o seresteiro do Rio Vermelho compôs ‘Morena do Rio Vermelho’, uma toada em homenagem à beleza da mulher riovermelhense. A gravação ocorreu no ano seguinte, quando foi incluída no seu primeiro disco, ‘Balada ao Luar’, que fez muito sucesso e transformou Fahel em cantor profissional e numa celebridade.

Esse disco, um LP com 12 músicas, teve suas músicas selecionadas da seguinte forma: sete eram inéditas, de autoria do próprio cantor, e cinco de outros compositores. O título do elepê, ‘Balada ao Luar’, era também o nome da primeira música do lado A, uma das inéditas. Foi nela que Fahel apostou todas as fichas, acreditando que seria o carro chefe, a música de trabalho, conforme se dizia no meio da discografia. Se não fizesse sucesso, o disco não fracassaria, pois poderia ser sustentado em duas músicas consagradas pelo povo, ‘Chão de Estrelas’ e ‘Suburbana’, ambas de Sílvio Caldas, em parceria com Orestes Barbosa. Havia ainda uma música de Vinícius de Moraes, ‘Serenata do Adeus’.

Mas, quem comandou a aceitação do disco não foi nenhuma delas. Foi ‘Morena do Rio Vermelho’, incluída por Fahel sem nenhuma esperança num possível sucesso. Colocou-a apenas para registrar um amor inesquecível.

Um segredo de 27 anos

A música que iria se constituir no maior êxito na carreira de Osvaldo Fahel - que gravou 15 discos e teve projeção internacional -, também virou, pela vontade popular, uma espécie de hino do Rio Vermelho. Embora assediado pela imprensa, fãs e amigos, Fahel nunca revelou o nome da fonte inspiradora, dando margem ao surgimento de diversas interpretações.

Durante 27 anos, por uma razão de postura ética, o compositor manteve a identidade da personagem protegida pelo manto do segredo. Quando compôs ‘Morena do Rio Vermelho’ - num rasgo de saudosismo, de retorno a momentos inolvidáveis ou de lembranças de uma paixão ainda bem viva -, a musa já estava casada, desde 1960. Embora não estivesse mais em Salvador (residia em Itabuna), Fahel não quis criar constrangimentos para o casal com a exposição do seu nome ao alcance da mídia. Somente em 1990, ao ser entrevistado por mim, durante a elaboração do livro ‘Rio Vermelho’, foi que o compositor decidiu quebrar o sigilo: “A minha inspiração foi a filha do Mica”.

Ao invés de ser uma bela morena, como todos supunham, e que alimentara as especulações e o imaginário de muitos moradores do Rio Vermelho, a musa inspiradora tinha sido uma loura lindíssima, que se bronzeava na Praia de Santana. Regina era filha de uma personalidade do Rio Vermelho, o legendário Mica, famoso craque do passado, primeiro baiano a vestir a camisa da seleção nacional de futebol. Foi titular da equipe que em 1923 participou de três torneios: Campeonato Sul-Americano, no Uruguai, Taça Brasil-Argentina e Copa Rocca, ambas na Argentina.

Por uma licença poética, para permitir a rima musical, Fahel transformou a ex-namorada numa morena, mas conservou na letra a cor dos seus olhos, o verde do mar, do mar de Yemanjá, soberana das águas da Enseada de Santana, a praia frequentada pela Regina, que antes de ser imortalizada pelo compositor, como a ‘Morena do Rio Vermelho’, havia reinado no bairro. Em 1954, participou e venceu um tradicional concurso anual, que escolhia a rainha do Rio Vermelho, com direito a desfile em carro alegórico no dia do Bando Anunciador, que era o ponto alto dos festejos.

Vida profissional

Osvaldo Jorge Fahel, baiano de Ilhéus, nasceu em 6 de agosto de 1935. Começou a vida profissional como radialista, na Rádio Itaparica, instalada na ilha do mesmo nome. Depois, trabalhou nas rádios Cultura, Excelsior, Sociedade da Bahia e na TV Itapoan. Dono de voz marcante, além de locutor comercial e noticiarista, foi comediante e ator de radioteatro, tendo participado do cast de várias novelas radiofônicas.

Alegre, comunicativo e exímio anedotista, Osvaldo Fahel constituía-se num artista completo: excelente violonista, compositor, cantor e showman. Embora assediado pelas gravadoras do eixo Rio-São Paulo para residir no sul do país, nunca aceitou sair da Bahia. Somente deixava Salvador para as turnês nacionais e no exterior.

O disco ‘Pisa na Barata’ foi o quinto mais vendido no Brasil em 1975. Gravado também em espanhol, com o título ‘Mata la Cucaracha’, fez grande sucesso na Europa. Fahel recebia direitos autorais da Espanha, Portugal, França, Bélgica e Inglaterra. Consolidado, montou seu próprio conjunto musical, com o qual fazia os shows, sendo em que em todas as apresentações nas cidades brasileiras, principalmente nas baianas, o público sempre exigia que cantasse ‘Morena do Rio Vermelho’.

Falecimento

Hipertenso, Fahel não se cuidava convenientemente. No dia 1º de novembro de 1991 sentiu-se mal e foi internado no Hospital Espanhol de Salvador, onde veio a falecer de derrame cerebral, na Unidade de Terapia Intensiva, na madrugada do dia 7, aos 56 anos. Foi sepultado na capital baiana, no jazigo 10.599 do Cemitério Jardim da Saudade. Era casado com Cenira e deixou um filho, Marcos.

Através da Lei 4.616, de 4 de novembro de 1992, sancionada pelo prefeito de Salvador, Fernando José Guimarães Rocha, o logradouro número 12.360, localizado no Condomínio Águas de Jaguaribe, bairro de Piatã, recebeu a denominação de Rua Osvaldo Fahel.

Foi também homenageado pela Academia dos Imortais do Rio Vermelho (Acirv), que ao ser fundada, em 9 de agosto de 2003, o colocou como Osvaldo Fahel como seu patrono.

Fontes:
Livros ‘Rio Vermelho’ e
‘Rio Vermelho, de Caramuru a Jorge Amado’,
ambos de Ubaldo Marques Porto Filho.