Waldemar Santana

Ubaldo Marques Porto Filho

Nascido em Salvador, a 28 de outubro de 1929, Waldemar Santana iniciou-se na profissão de marmorista. Com talento para o pugilismo, aos 18 anos começou a treinar luta livre com o professor José Arapiraca, no Clube de Natação e Regatas São Salvador, localizado na Península de Itapagipe, na Cidade Baixa.

No início da década de 1950, o jovem atleta amador deixou Salvador para tentar a sorte na capital federal e foi à academia da família Gracie pedir para treinar jiu jitsu. Como estava sendo montada uma outra unidade, o professor Hélio Gracie ofereceu-lhe um emprego na nova academia, na Avenida Rio Branco, centro do Rio de Janeiro.

A famosa academia tinha sido fundada por Carlos Gracie, introdutor do jiu jitsu no país, em 1917. Quando Waldemar chegou, a estrela da academia era o irmão caçula do fundador, Hélio Gracie, o maior lutador da arte marcial japonesa no Brasil e campeão brasileiro da luta livre americana. Só havia perdido duas. A primeira, em 1933, para Fred Herbert, num combate suspenso pela polícia. Como o brasileiro estava em desvantagem, o americano foi declarado vencedor. A outra foi em 1951, também no Rio de Janeiro, para o campeão mundial de jiu jitsu, o lendário Kimura. A luta acabou quando o japonês encaixou um golpe que podia quebrar o braço de Hélio. Seu técnico, o irmão Carlos, jogou imediatamente a toalha no tablado, encerrando a histórica luta.

Na Academia Gracie, Waldemar iniciou como roupeiro e faxineiro. Paralelamente, tornou-se aluno do mestre Hélio. Por último, virou sparing, ou seja, o lutador que fazia o papel de adversário nos treinamentos dos lutadores e alunos da academia.

Mas o sonho do baiano não previa a continuidade como sparing. Queria ser lutador profissional. Porém, o Hélio não o deixava participar de competições. Waldemar era chamado de Exu, que na liturgia do candomblé é o orixá do movimento, um mensageiro entre as divindades e os homens. Segunda uma crença popular, por ser malicioso e, às vezes, gostar de uma confusão, Exu personificava o demônio no sincretismo com a religião católica.

No início de 1955, entrou em cena o jornalista Carlos Renato, que trabalhava no jornal Última Hora e prestava serviços de assessoria à academia dos Gracie. Vendo que Waldemar desejava mostrar o seu talento, incentivou-o a aceitar uma luta com Biriba, pugilista que fazia catch (luta combinada) no Palácio de Alumínio. Contra Waldemar o combate foi de verdade e valia uma bolsa em dinheiro, tendo o sparing da Academia Gracie sido o vencedor. Como lutou sem autorização dos Gracie, Exu foi expulso da academia.

Com o dedo de Carlos Renato novamente em cena, Waldemar passou a treinar na academia de Haroldo Britto. Enquanto isso, o jornalista, também já desligado dos Gracie, propunha uma luta entre o mestre e o antigo discípulo. Explorava inclusive um fato que havia sido marcante na trajetória do professor:

Hélio notabilizara-se por desafiar lutadores de todos os estilos, para combates sem regras e sem barreiras. Venceu todos. Agora, era Carlos Renato quem desafiava o veterano lutador à enfrentar Waldemar.

Hélio Gracie possuía argumentos fortes para descartar o desafio. Podia alegar a diferença de idade entre ambos, de dezessete anos. Poderia até mesmo esnobar, dizendo que somente enfrentava lutador com nome já firmado na praça. Mas falou mais alto o desejo de dar uma surra no aluno rebelde.

Menosprezou o seu potencial, pois tudo indicava que tinha a certeza absoluta que venceria pela via rápida. Por isso, aceitou o repto, mas impôs algumas condições: não haveria cobrança de ingressos e os dois lutariam de quimono, mas o duelo seria num vale tudo por tempo indeterminado, sem rounds ou intervalos. Começada a luta, somente terminaria com um vencedor, nada de empate.

Como o confronto tinha pouca significação, pois o famoso Hélio enfrentaria um adversário desconhecido, a luta foi programada para o modesto ginásio da Associação Cristã de Moços, na Lapa. No dia da luta, 24 de maio de 1955, o fundador da academia, Carlos Gracie, pegou o microfone para despejar, no ouvido das duas mil pessoas que lotavam o pequeno ginásio, uma mensagem que traduziu o estado de espírito da família Gracie. A platéia, 100% a favor do mito, aplaudiu o discurso e se preparou para assistir o professor massacrar o ex-aluno negro, que os Gracie estavam chamando de traidor. Na edição do dia 25, O Jornal, do Rio de Janeiro, referiu-se ao pronunciamento e ao resultado do combate na seguinte forma:

“Carlos, irmão de Hélio, antes do espetáculo, discursou em
público, salientando que a luta seria ‘uma advertência a esse
jovem que já foi nosso aluno e se desviou do bom caminho.
Esta luta, repito, servirá de advertência a Waldemar e outros
Waldemares que por ventura apareçam’. Horas depois, as
pessoas que ouviram aquele discurso aplaudiram o novo
campeão brasileiro, Waldemar Santana”.

Na verdade, o que parecia ser fácil, até para os jornalistas que cobriam esse tipo de esporte, acabou se transformando num duelo jamais visto no Brasil. A luta entrou para a história do pugilismo. Com lances dramáticos e sensacionais, teve a duração de 3h45, um recorde mundial em se tratando de vale tudo. Venceu Waldemar, que aos 25 anos virou celebridade nacional e ganhou o apelido de ‘Leopardo Negro’.

Os Gracie ficaram arrasados, principalmente pelo que Exu fez com o campeão do clã nos segundos finais. Com sua colossal força, o ‘diabo’ levantou o Hélio e o arremessou violentamente no tablado, culminando com um chute no rosto, deixando o mestre desacordado. Para o vencedor foi a glória, para o vencido a humilhação e o fim da longa carreira de lutas profissionais.

Ao seu sobrinho de 21 anos, Carlson Gracie, filho do fundador da academia, coube a espinhosa tarefa de representar a família numa revanche concedida ainda em 1955. Não foi na luta livre, e sim no jiu jitsu, em cinco rounds de cinco minutos cada, regido pelas regras da modalidade. Como todos queriam ver a fera baiana lutar contra o jovem Gracie, o local escolhido para abrigar a multidão foi o Maracanãzinho, o maior ginásio coberto do país. No dia 8 de outubro, um sábado, diante de colossal assistência, os dois se digladiaram. A luta terminou empatada.

Em 1956, Waldemar Santana voltou a enfrentar Carlson Gracie, desta vez em luta livre americana, novamente no Maracanãzinho. Venceu Carlson, por nocaute técnico no final do quarto round, quando Waldemar sangrava muito e seu técnico jogou a toalha, encerrando o combate. Os dois titãs ainda lutariam mais quatro vezes, com três empates e outra vitória de Carlson, desta vez por pontos.

Embora nunca conseguisse vencer Carlson, nova estrela da família Gracie, um lutador muito técnico e extraordinariamente bom, Waldemar possuía mais carisma e ficou muito mais conhecido do público brasileiro, pois não se restringiu ao Rio de Janeiro. Autêntico ídolo popular, muito assediado pelos promotores de lutas, o baiano passou a excursionar pelo país, sendo recebido como herói por onde passava.

Waldemar muito ajudou a impulsionar mais ainda a luta livre, que se transformou numa febre nacional, com o surgimento de centenas de novos atletas. O Leopardo Negro aparecia com espantosa frequência na mídia. Enfim, era um astro de primeira grandeza. O fato de ser baiano, com fama de capoeirista, também pesou a seu favor. Sabia inclusive fazer o marketing com o nome Bahia e montou uma academia no Rio de Janeiro e outra em Salvador, para ensinar luta livre, jiu jitsu e boxe.

Versátil e comunicativo, Waldemar Santana era presença constante nas páginas esportivas dos jornais e nos programas radiofônicos. Era hábil em explorar as boas situações. Por exemplo, após o famoso jogo Brasil 3x1 Uruguai, em Buenos Aires, no dia 26 de março de 1959, pelo campeonato Sul-Americano, quando ocorreu uma briga generalizada, em que alguns brasileiros teriam apanhado dos uruguaios, Waldemar ofereceu-se para ministrar alguns truques pugilísticos aos integrantes do elenco da seleção nacional.

E realmente ensinou aos jogadores como se proteger e como revidar entradas desleais, ‘batendo com classe’, sem deixar que o juiz percebesse. Eram golpes sutis, que provocavam contusões, mas evitavam a expulsão do faltoso. Na época, não havia substituição durante as partidas, significando que o jogador ‘baleado’, mesmo continuando em campo, estava morto para o jogo.

Waldemar Santana virou personagem em histórias populares e serviu de mote para os repentistas nordestinos, passando a ser cantado em prosa e verso. Figurou também em letras de várias composições gravadas em discos. Uma delas foi o baião ‘Deixa o Baiano Viver’, de J. Ramos e Venâncio, sucesso de 1960 na voz do alagoano Luiz Wanderley. Eis um trecho:

A baiana pra ser boa não precisa de bambolê,
Igualzinha a Martha Rocha tem mais de mil pra se ver,
Na Bahia tem petróleo, tem cacau e tem dendê,
E tem Waldemar Santana pra dar uma pisa em você,
Viu?
Baixinho, falou da Bahia, pisou no meu calo,
Vamos s’embora, conterrâneo, salve a Bahia!
Ô terrinha boa medonha!
Isso é que é terra, home!
Salve a Bahia!

Em quinze anos de lutas profissionais, o Leopardo Negro nunca se esquivou de desafios e enfrentou todos os principais pugilistas do país. Tornou-se recordista em apresentações, com 286 combates. Quando se transferiu para Brasília, onde montou uma grande academia, a Estação Esportiva Waldemar Santana, deu aulas de técnicas em ataque e defesa pessoal na Academia da Polícia Federal.

Waldemar Santana faleceu em Salvador, no Hospital Espanhol, aos 54 anos, no dia 26 de agosto de 1984.

---------------------------------------------------
Texto publicado nas páginas 75/77 do livro
‘Bahia, Terra da Felicidade’,
de Ubaldo Marques Porto Filho,
editado em 2006.